#EuSouNegao - Gerônimo Santana e Fabricio Mota falaram de Música Negra

22/11/2016

“Eu sou negão: Movimento Negro, Afro-reggae e Axé music” foi tema do Conversando com a sua História na segunda-feira (21). O cantor Gerônimo Santana, símbolo de resistência e propagação da música afro-baiana no Brasil e no mundo, e o músico Fabrício Mota, atualmente músico e produtor da banda I.F.Á. Afrobeat, falaram de suas experiências e memórias acerca do tema.

A autoestima de uma população de maioria afrodescendente foi estimulada com a música intitulada “Eu sou negão”, composição de Gerônimo que fez surgir um movimento ímpar de evoluções no comportamento social urbano. “A música tornou-se uma efervescência e começou a passar autoestima para as pessoas, especialmente os negros. Trio elétrico nenhum tocava música de preto. As pessoas tinham medo de cantar a minha música e serem repreendidas pela massa negra, quando o que aconteceu na verdade foi uma auto identificação e representação do povo”, disse Gerônimo. 

A música já tem mais de 30 anos, e de acordo com Gerônimo, sempre pedem para que seja tocada nos shows, ele não recusa: “um sucesso não vira música velha. Foi a música que alavancou minha carreira artística”. Enquanto Gerônimo cantava seu sucesso nos carnavais e nas rádios, Fabrício Mota ainda era criança, mas cresceu ouvindo o sucesso “Eu sou negão”: “para a maioria das pessoas, era música de ‘brown’, música proibida, e eu só ouvia quando tocava na rádio. Foi a primeira vez que o tema ser negro, identidade negra, foi colocado em mesa diária. ‘Eu sou negão’ é um divisor de águas”.

Fabrício é mestre em Estudos Étnicos e Africanos pelo Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia (UFBA), professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA) e músico e produtor da banda I.F.Á. Além de rememorar as músicas de Gerônimo entre as décadas de 1970 e 1990, fez um apanhado histórico da música negra do Brasil, desde Chiquinha Gonzaga, passando por Jorge Ben, e chegando ao reggae na Bahia, seu objeto de estudo no mestrado.

“É a minha maneira de dizer como cada pessoa gritou ‘eu sou negão’ desde o século 19 até os dias atuais, só que cada uma delas gritou de um jeito diferente. Quando o Ilê colocou bloco pela primeira vez na rua, o A Tarde falou que era racista, que os brasileiros estavam imitando o racismo dos EUA, pois aqui não havia. Claro que os meios de comunicação proporcionavam também uma representatividade, como a música de Gerônimo tocando na rádio, a banda Reflexus no final de semana na TV”.

“São duas gerações que viveram coisas diferentes, mas de algum modo, da mesma forma. O que ficou de uma geração, passou para outra e assim por diante. Este é um encontro de gerações da música afro de Salvador”, disse o músico Rafael Marques. Já a historiadora Marina Menezes relatou que “eu vivi esses tempos de carnavais desorganizados, mas eles tinham sua maneira própria de se organizar, de se divertir, era muito mais orgânico”. 

Foto: Laísa Costa

Galeria: