#FPCArtigo Reveladoras manifestações de jovens escritores

22/11/2016
Ao lançarmos o III Concurso de Poesia e Redação para Escritores Escolares, tínhamos a expectativa de fomentar a leitura e a escrita criativa em nosso estado, envolvendo crianças e jovens, escolas, professores, bibliotecas escolares e famílias em práticas formativas, em espaços e com atores reconhecidamente privilegiados para o sucesso de iniciativas como essa.  Estamos convencidos que nossa missão institucional é contribuir para a consolidação da cadeia produtiva e criativa do livro e da leitura, sobretudo formando leitores e fomentando a geração de novos talentos, aproximando-os do prazer da leitura e da escrita, bases para assegurar a plena realização da condição humana.  Sabemos que somente por este meio poderemos enfrentar um dos problemas mais graves de nosso estado: nosso baixíssimo nível de leitura e escrita, razão de ser de gravíssimos índices de analfabetismo funcional.

Tudo isso muito nos animou e nos anima, evidentemente, mas o que mais nos entusiasmou ao ver os resultados deste III Concurso foi constatar que fomos muito mais além do que esperávamos no cumprimento de nossos objetivos e propósitos institucionais.
Quando a comissão julgadora se reuniu pela primeira vez estava certa de encontrar estudantes que se destacassem em alguns critérios já clássicos: um texto bem estruturado, um bom argumento e uma estória, ou história, que tivesse originalidade. Nas poesias, esperava-se encontrar bom nível de adequação do texto ao estilo poético, lírica e também originalidade.  Mas, para nossa surpresa e alegria, o que encontramos logo após as primeiras leituras foi uma realidade muito mais rica e complexa e que nos obriga a grandes reflexões.

Aos poucos fomos percebendo que estávamos diante de verdadeiros escritores. Muitos jovens sem muita experiência, alguns ainda tateando, mas que expunham claramente uma veia de escritor, talento para a escrita. Fomos percebendo que isso estava acontecendo em todos os níveis, do fundamental I ao ensino médio. Quando começamos a nos reunir para definir a classificação, não raro nos olhávamos, boquiabertos com a qualidade da escrita. Tínhamos em nossas mãos, talvez, os primeiros textos de futuros e promissores escritores. Durante todo o período de trabalho da comissão avaliadora não nos cansávamos de repetir frases e ideias lidas.

Mas, nos foi muito reveladora não apenas a qualidade técnica de alguns textos, as temáticas e as preocupações expostas por estas crianças e jovens também foram igualmente surpreendentes. Não apenas pela gravidade das questões levantadas, mas também pela maneira como foram encaradas por eles. Antes de citar alguns exemplos, convém esclarecer que o concurso deixou livre a escolha dos temas.

Frases e versos como os que citamos a seguir não têm como não nos impactar:

“Querida gente branca/Soltem meu cabelo/Ele não é o seu brinquedo,/Ou a minha resistência acabará engolindo os seus dedos.” Sanderson Luís dos Santos Teixeira (14 anos).

Ou este trecho retirado de um poema bem visceral ao tratar de estupros:

“Eu disse que não queria/E ele me disse grosseiramente: ‘VOCÊ QUER’/E fui explorada outra vez./Quem sou eu?/Eu sou mulher!” Jéssica Layane Lustosa Pereira (17 anos).

Nossos jovens escritores demonstraram uma incrível preocupação com temas muito importantes na sociedade contemporânea, como se pode ver. Logo se nos destacou a predominância da preocupação e desconforto com a violência em suas diversas formas de expressão: contra as mulheres, os negros, os homossexuais, contra a natureza e até mesmo contra o Brasil, o bullying, o desrespeito ao outro no cotidiano e nas redes sociais.

Eis mais uma pérola:

“A raiz da tragédia está no machismo” Samuel Dantas Brito Lima e Silva (8 anos).

E mais duas outras:

“... o absurdo da questão, o homem destrói matas, safáris e toda criação/Faz bolsa de jacaré, casaco de leão, e ainda diz que ele tem a solução/#só que não.” Guilherme de S. Lima (10 anos).

“Gosto de me deslocar das minhas engrenagens, ser alguma coisa diferente no sistema. Não sou um robô e nunca serei programada para ficar nos eixos.” Beatriz Vieira dos Santos (13 anos).

Mas, positivamente surpreendentes, com se vê, foram às posições progressistas e libertárias da imensa maioria, quase sempre reflexo de um pensamento engajado e de defesa contundente dos direitos humanos. Um bálsamo para um momento tão delicado para o futuro da democracia, diante da radicalização de extremismos e da banalização da violência, momento difícil para os direitos sociais e para a sustentabilidade do planeta, de expansão de discursos do ódio, tanto social, quanto regional e racial, de expansão do machismo, da homofobia, da xenofobia e de diversas outras formas de segregação cultural.

“Viver é arte/Errar faz parte” Luiz Cleber da Silva Pio Ribeiro (11 anos).

“E porque estudamos tanto a história das deusas e deuses gregos se tudo começou na grande Mãe África? Tudo bem que a história de Medusa é interessante. Só que eu gosto mais das Iá Mi Oxorongá.” Felipe Silva Sacramento (9 anos).

Mariângela de Matos Nogueira
Fundação Pedro Calmon/SecultBa
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