Os leitores da Biblioteca Pública do Estado da Bahia, conhecida popularmente como Biblioteca dos Barris, tiveram um final de tarde diferente. Um bate-papo descontraído, misturando artes plásticas e visuais, história, memória e identidade negra, J. Cunha e Ayrson Heráclito, convidados do Conversando com a sua História, na segunda-feira (28), versaram sobre o tema “Artes Plásticas e Identidade Afro-Baiana”.
O artista plástico, designer, cenógrafo e figurinista, J. Cunha, iniciou o evento mostrando fotografias e falando sobre seus principais trabalhos ao longo da vida. “Na Bahia, as artes plásticas e a identidade negra intrínseca a esta, é muito grande e abrangente, de difícil qualificação. Eu sou cigano, negro bantu e índio-kiriri, essas camadas me formam e formam a minha arte”, descreveu o artista.
Dentre os trabalhos apresentados por J. Cunha, um teve mais destaque: O Códice Brasil- África, formado por 21 telas que se completam em um grande painel que compila símbolos e signos religiosos que traduzem a força dos elementos da natureza e da cultura afro-brasileira. “Temos que aproveitar tudo que temos, senão fica no passado. Numa viagem a Angola, trouxe conhecimentos da linguagem bantu, que se traduziram nesse trabalho que foi a minha redenção em relação aos orixás, rituais e símbolos”, disse J. Cunha.
Performances em audiovisual de Ayrson Heráclito foram exibidas durante o evento. O artista visual, curador e professor, falou sobre seu trabalho “Transmutação da carne”, onde performers convidados vestiram roupas feitas de carne-seca, que são marcadas a ferro quente com insígnia de senhores de engenho da Bahia colonial. “Trago a memória dos maus-tratos na escravidão, com a carne de charque em metáfora ao corpo dos homens que foram escravizados. Convido as pessoas para viverem essa história, com o cheiro, o som da carne queimando e a ferida ao final. Meu maior objetivo enquanto performer é trazer exatamente curas”, disse Ayrson Heráclito.“Sacudimentos na Casa da Torre” e “Sacudimento na Casa dos Escravos”, são performances que foram eternizadas em audiovisual sobre o tráfico de escravos nas margens do Atlântico. Realizada na Casa da Torre, construção que data de 1551 e pertenceu a família Garcia D’Ávila; e na Casa dos Escravos, na Ilha de Gorée, em Dakar, no Senegal, um dos maiores pontos de comércio de escravos do Atlântico, respectivamente.
“As suas performances foram criadas como um díptico. A prática do sacudimento tem objetivo de afastar os ‘eguns’, os maus espíritos do ambiente doméstico que trazem negatividades e infortúnios. A energia dessas folhas é quente, contrária a dos eguns, e isso os repele. Queria sacudir a história, enquanto estava realizando o sacudimento foi uma espécie de catarse para mim”, contou Ayrson.
O bancário Rui Costa, destacou que “as artes plásticas não são tão valoradas como as outras artes, por isso eventos como estes são importantes, para destacarmos os feitos dos nossos artistas”. A estudante Mariana Almeida, disse que “a nossa história é tão rica, e eles conseguem traduzir uma boa parte dela para suas obras, o que gera representação e reconhecimento”.
CMB - O Centro de Memória da Bahia (CMB), unidade da Fundação Pedro Calmon/Secretaria de Cultura do Estado (FPC/SecultBA), tem como objetivo a difusão da história da Bahia, através da preservação e ordenação de arquivos privados e personalidades públicas, bem como a realização de exposições, seminários e cursos de formação gratuitos. Entre suas funções, é responsável pelo Memorial dos Governadores Republicanos da Bahia (MGRB), localizado no Palácio Rio Branco, no Centro Histórico de Salvador.