O ciclo de palestras sobre religião do Conversando com a sua História – projeto de autoria do Centro de Memória da Bahia, encerrou ontem (30) com a professora da Universidade Estadual da Bahia (UNEB-COITÉ), Iris Verena Oliveira. Na ocasião, ela que é doutora em Estudos Étnicos e Africanos pela Universidade Federal da Bahia, versou sobre o tema: “O feitiço da cura: rastros de práticas religiosas afro-brasileiras na Bahia (1930-1960)”.
Notícias de jornais e processos criminais envolvendo curandeiros, feiticeiros e adeptos do candomblé foram suas principais fontes de pesquisa. Iris fez uma intensa busca desses documentos não só em Salvador, mas também em cidades como Campo Formoso, Feira de Santana, Itabuna, Caetité, Jequié e Vitória da Conquista.
“Através dos processos eu tentava encontrar os registros dessas práticas religiosas. Enquanto os juízes e delegados estavam interessados na ilegalidade dos atos, eu utilizei os mesmos documentos para entender como eram feitas essas práticas”, explicou Iris. Naquela época, as práticas as quais se refere eram consideradas “prática ilegal de medicina” e “ilusão da credibilidade pública”.
A professora explicou que geralmente a polícia era acionada quando alguma parte no processo de cura não dava certo e os curandeiros eram acusados de lesões corporais ou homicídios. Quanto aos jornais ela explica: “eu queria entender como isso chegava à imprensa e de uma forma geral, como a sociedade lidava e enxergava essas práticas. Os jornais me dizem muito pouco porque os réus não têm fala como nos processos”.
Defumados, passes, garrafadas, guias, beberagens, sacudimentos, encantados e caboclos são alguns dos termos mais encontrados por Iris Verena em sua pesquisa. “Os historiadores clássicos de estudos afro-brasileiros costumam relatar mais o Candomblé Nagô e Ketu, deixando de lado o que era conhecido como ‘baixo espiritismo’. Isso que tem sido deixado de lado que me interessa”, diz.
A historiadora completa que “eu percebo que isso é como uma ideia de pureza. Essas práticas religiosas eram consideradas de menor valor e importância, portanto não merecia ser estudado. É outro contorno da Bahia que a gente encontra quando resolve encarar a documentação de frente”.
A assistente social, Maria José Leite, compareceu ao CSH pela primeira vez atraída pelo tema: “achei muito interessante o tema e isso me motivou a vir. A palestra foi excelente, os casos que a professora contou foram instigantes e deixou todos com muita curiosidade”.
Já a estudante Fernanda Souza destacou: “eu vim a todos os CSH deste mês porque religião é um tema que me interessa muito. Pretendo aprofundar meus estudos nessa área durante a minha graduação e depois, então as palestras têm sido muito ricas para mim”.
CMB - O Centro de Memória da Bahia (CMB) tem como objetivo a difusão da história da Bahia, através da preservação e ordenação de arquivos privados e personalidades públicas, bem como a realização de exposições, seminários e cursos de formação gratuitos. Entre suas funções, é responsável pelo Memorial dos Governadores Republicanos da Bahia (MGRB), localizado no Palácio Rio Branco, no Centro Histórico de Salvador.