O segundo semestre de palestras do Conversando com a sua História, projeto de iniciativa do Centro de Memória da Bahia, estreou nesta terça-feira (01) com o tema “Presença Indígena na Bahia Colonial”. Na ocasião, a Doutora em História Social e professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Maria Hilda Baqueiro Paraíso, falou sobre o papel desempenhado pela população indígena e os mitos acerca da sua história.
A professora iniciou a palestra falando sobre o primeiro grande equívoco registrado: a carta de Pero Vaz de Caminha. “É um equívoco primeiro porque se excluía a presença de mulheres e crianças, segundo porque quem fala está numa posição de defesa”, contou Maria Hilda, que continuou: “o primeiro contato foi amistoso, havia trocas de frutas, água, por panelas de metal e machados, coisas que poderiam facilitar o trabalho dos índios”.
A doutora explicou que essa relação amigável se deu principalmente porque os portugueses dependiam dos índios para sobreviver: “era uma terra completamente desconhecida, não sabiam o que podiam ou não comer, o que fazia mal. Mas já em 1514 começou a escravidão para fora, índios eram vendidos em praças de Portugal”.
De acordo com Maria Hilda, os índios que ficavam não tinham noção do que era a escravidão, e achavam que os que iam estavam indo ao encontro de Maíra – um grande Deus que morava depois de um longo rio e que quem conseguisse chegar vivo não precisaria mais pescar, plantar, viveria uma vida de fartura. “Os portugueses usavam isso para escraviza-los”, contou.
Escravidão – A professora destacou que a história indígena caiu no esquecimento porque ela incomoda. “O nível de desrespeito, destrato e violência é uma coisa que mostra um Brasil que as pessoas gostariam de esquecer”. Maria Hilda revela que, diferente dos índios, os negros atualmente vivem em grande parte nos centros urbanos, com tecnologias e formas de mostrarem sua voz: “isso fez com que a escravidão se mostrasse com mais força na história moderna”, disse.
“Até 1570 não havia escravos africanos na América portuguesa, os índios eram escravizados principalmente em engenhos. O que aconteceu foi uma grande epidemia de varíola seguida de uma de sarampo que matou dois terços da população indígena. Além disso, os traficantes perceberam que o investimento no tráfico negro era bastante rentável”, explicou a professora.
Ainda de acordo com Maria Hilda, os negros tinham uma resistência maior a determinadas doenças. No entanto, a professora encontrou registros de crianças indígenas sendo vendidas em 1860. Em relação à condenação da Igreja Católica à escravidão dos indígenas, a professora contou:
“Os índios eram considerados pela Igreja como não tendo a revelação divina. Até os séculos 18, 19 a escravidão era uma forma de castigar o corpo e salvar alma. Para os católicos, os negros tiveram oportunidade de encontrar a Deus e renegaram, por isso deveriam ser escravizados. Já os índios, eram inocentes nesse aspecto”.
O professor Antônio Brito contou que participou do Conversando com a sua História no primeiro semestre e compareceu nesta terça-feira com expectativa sobre o tema: “a temática foi um favor decisivo, pretendo continuar comparecendo porque é muito bom”.
Já a professora de filosofia Rosângela Dias é descendente de indígenas: “acho muito importante falarmos sobre essa parte da história, que acabou ficando um pouco esquecida. Fala-se muito do negro na história, o que também é muito válido, mas na nossa história fica com esse vácuo”.
Confira programação completa do Conversando com a Sua História.
CMB - O Centro de Memória da Bahia (CMB), unidade da Fundação Pedro Calmon/Secretaria de Cultura do Estado (FPC/SecultBA), tem como objetivo a difusão da história da Bahia, através da preservação e ordenação de arquivos privados e personalidades públicas, bem como a realização de exposições, seminários e cursos de formação gratuitos. Entre suas funções, é responsável pelo Memorial dos Governadores Republicanos da Bahia (MGRB), localizado no Palácio Rio Branco, no Centro Histórico de Salvador.