Identidades negras na música reggae da Bahia foi tema no Conversando com a sua História

25/10/2017
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Foto: Amanda Moreno

A música reggae como símbolo de resistência e reafirmação da identidade negra foi abordado ontem (24), no Conversando com a sua História, pelo historiador e músico da banda IFÁ Afrobeat, Fabricio Mota. Na ocasião, ele discutiu a mobilização dos negros baianos após a fase de reafricanização do carnaval, na década de 70, para demonstrar como o reggae foi decisivo na luta pela afirmação dos afrodescendentes do país.

“O reggae não é um gênero que está desvinculado da resistência e das lutas históricas do povo africano. É um fluxo constante do corpo, do que se escuta, da musicalidade. Um exemplo disso é a capa do disco de Bob Marley e The Wailers, assinada pelo produtor visual Neville Garrick, que retrata a Batalha de Adwa ocorrida em 1896 entre a Itália e o Império Absínio [hoje a Etiópia] e foi a primeira vitória militar de uma nação africana sobre o colonizador europeu – o que manteve o país livre e independente”, contou Fabrício.

O historiador conta que essa Batalha foi manchete nos jornais da Itália, dos Estados Unidos, Jamaica e Salvador. Blocos carnavalescos baianos fizeram músicas para homenagear o fato no festejo do ano seguinte. O historiador explicou que o reggae surgiu de dois troncos de música caribenha, nascida na Jamaica: ska e rockstead, que eram de orquestra, mais acelerado e mais dançante do que o reggae. Durante a palestra, o historiador ilustrou sua fala com trechos de músicas de Bob Marley e The Wailers, Dawn Penn, Lazzo Matumbi e Muzenza.

“Esse é um gênero musical que está dentro da minha própria vida, que saiu das periferias, foi para o rádio e chegou ao carnaval. Essa música começou a ser produzida em Porto Rico, Caribe e Jamaica e veio parar aqui através do que do pan-africanismo – que propõe a união de todos os povos da África como forma te potencializar a voz do continente no contexto internacional”, contou Fabrício, que continuou:

“Como professor, sempre via meus alunos, as pessoas falarem que a Jamaica ficava na África, e obviamente sempre entendi essa afirmação como errada. Mas no final das contas, eles estavam certos, a Jamaica e a Bahia também é África. É o retorno. Há muitas capas de discos, do Lazzo, por exemplo, em que ele se posta na frente do horizonte, como se quase pudéssemos ver o continente africano. Isso é pan-africanismo”.

Fabrício contou que a partir dos anos 70, 80, muitos músicos brasileiros como Gilberto Gil, O Tincoãs, Jorge Bem, Leci Brandão, Ilê Aiyê e Chico Evangelista, “das capas, às letras, passando pelos arranjos, vai se conectar a essa reafricanização”. Ele completa: “os blocos de música negra em aqui em Salvador tocam o samba-reggae, que é a junção de percussão com elementos do reggae como a guitarra acentuada. O contrabaixo, superimportante no reggae, é substituído essencialmente por instrumentos de percussão”.

A estudante Letícia Freitas, contou que “o estudo historiográfico através da música me estimulou a vir ao Conversando hoje. Estudo para ser historiadora e ao mesmo tempo tenho um vínculo muito forte com a música”. Já Erisson Silva, disse “é muito importante falar sobre isso, entender o contexto histórico desse gênero que saiu da Jamaica e se tornou universal”.

Fabrício Mota finalizou: “poderíamos transcender anos luz do universo da escravidão e submissão se ensinássemos isso nas escolas. Esses artistas conectam momentos de transcendência com os nossos ancestrais. Essas músicas estão conectadas por uma temporalidade que não se encaixam na ‘década-século’ porque esse tempo transcende a nossa limitação humana”.

CMB - O Centro de Memória da Bahia (CMB), unidade da Fundação Pedro Calmon/Secretaria de Cultura do Estado (FPC/SecultBA), tem como objetivo a difusão da história da Bahia, através da preservação e ordenação de arquivos privados e personalidades públicas, bem como a realização de exposições, seminários e cursos de formação gratuitos. Entre suas funções, é responsável pelo Memorial dos Governadores Republicanos da Bahia (MGRB), localizado no Palácio Rio Branco, no Centro Histórico de Salvador.

 

 

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