O diretor geral da Fundação Pedro Calmon (FPC), Zulu Araújo, recebeu na semana passada (15) o cantor e compositor Ramiro Naka. Original de Guiné-Bissau, Naka está em Salvador para apresentações durante o carnaval na capital. Além de cantor, ele também é autor, intérprete, ator, contador de história e pintor. Em entrevista concedida à Assessoria de Comunicação da FPC, Ramiro Naka falou sobre ser referência no ritmo Gumbé e as semelhanças entre Salvador e Guiné-Bissau. Confira:
#FPCEntrevista - Quais as semelhanças entre arte baiana e a de Guiné-Bissau?
Naka: A semelhança entre a arte baiana e a da República de Guiné-Bissau se deve a ligação histórica da Bahia com a África e, em específico, com a Guiné-Bissau. Pois, os primeiros homens e mulheres que foram trazidos para o Brasil (Bahia e Maranhão) a fim de serem escravizados partiram do porto de Cacheu, cidade no norte da República de Guiné-Bissau. Daí também a reprodução da dança, o som do tambor e outros ritos culturais similares.
#FPCEntrevista - Você é considerado um dos expoentes do ritmo Gumbé. Quais são as características desse estilo musical?
Naka: Sim, tenho estilo musical próprio cuja matriz é Gumbé, que nasceu no encontro de “mandjuandadi” que, em português, significa encontro entre pessoas da mesma idade ou geração, para comemorar aniversários, festas e datas marcantes ou históricas.
As principais características do ritmo Gumbé são: canções em língua nacional - o criólo ou línguas étnicas da República de Guiné-Bissau, mediante o uso de instrumentos musicais tradicionais: o tambor, cikó e tina.
#FPCEntrevista - Você já teve outras vezes em Salvador. O que mais te encanta na cidade?
Naka: Sim, foi em janeiro de 2015, a convite do Olodum, durante o festival “Femadum”, cujo propósito era o intercâmbio cultural do projeto Brasil/África ao ritmo de gumbé. O que mais me encanta em Salvador é a forma como as pessoas me recebem e me dão orientação e a alegria que o povo baiano transmite para o irmão africano. Também fico encantado com os rituais, a culinária e a dança folclórica baiana. Tudo isso, me faz sentir que estou em casa. Aqui vive os meus irmãos de sangue da mãe África.
#FPCEntrevista - Qual a importância de se apresentar com os grupos afros de Salvador?
Naka: É importante sentir a herança histórica que une o povo da República de Guiné-Bissau com o da Bahia. A dança, o som de tambor, trajes e colares da matriz africana, sem perder de vista a língua portuguesa, etc. Africanidade em um único espaço e uma só voz fortalece a minha energia.
#FPCEntrevista - Qual mensagem você pretende passar ao público com a sua arte?
Naka: Pretendo passar uma mensagem sobre o cultivo de amor, da paz, da harmonia e da união entre os afrodescendentes. A união faz a força. E a força da mãe África está na sua cultura.
#FPCEntrevista - O que te motivou trabalhar com música?
Naka: Música é a minha força para vencer os desafios diários. Música me permite superar os momentos altos e baixos da minha vida e da minha família. Também a música me permite exprimir a minha verdade sobre o mundo, transmitir mensagem de paz, da harmonia e da solidariedade, bem como da união entre os africanos e os afrodescendentes.
#FPCEntrevista - Quais as dificuldades você encontrou durante sua carreira?
Naka: A maior dificuldade que encontrei durante toda a minha carreira é a de convencer o meu pai e a família para me deixarem prosseguir com a carreira musical em uma sociedade onde a arte era considerada como algo de lazer. Ademais, entendia-se que mesmo em países mais desenvolvidos, ninguém vive apenas da música. Perante a pressão do meu pai e da família tive de prosseguir a carreira de forma clandestina. Dava aulas sobre a arte e somente no momento de lazer é que dedicava um pouco da música, o que explicita também a dificuldade de me manter somente com a música, ou ainda, de prosseguir a carreira musical.
#FPCEntrevista - Tem algum momento mais marcante?
Naka: Todos os momentos são marcantes para quem ama a arte e a música. Amar a música é como aquele cavalo que corre por sua livre e espontânea vontade. Se parar de correr ou cansar, implica que o cultivo do amor, da paz e da harmonia, através da música, fica parado no tempo. Aliás, a própria cultura também fica parada no tempo. Eis também porque a musicalidade é a minha luta incessante. Com a música, renovo e transmito a minha cultura. Também, é com ela que defendo o meu povo africano e, em especifico, da República de Guiné-Bissau.
*Tradutor: Olívio Albino