#FPC Entrevista – Érica Lôpo fala do Conde dos Óbidos e da importância do Prêmio Kátia Mattoso

29/05/2018
FPCEntrevista_Erica

Com o tema Práticas políticas e governação no império português: o caso de D. Vasco de Mascarenhas (1626-1678), Erica Lôpo de Araújo foi a vencedora da segunda edição do Prêmio Kátia Mattoso, categoria tese de doutorado. D. Vasco de Mascarenhas, mais conhecido como Conde dos Óbidos, foi o único homem a ser vice-rei nos Estados da Índia e do Brasil no século XVII.

O Prêmio é uma realização da Diretoria do Livro e da Leitura da Fundação Pedro Calmon/SecultBa, e tem a finalidade de publicar, em livro, dissertações de mestrados e teses de doutorado sobre a história da Bahia.

E, para falar sobre a trajetória de D. Vasco de Mascarenhas e sobre que tipo de práticas políticas da coroa portuguesa se fazia representar no reino, Érica Lôpo, doutora em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e professora adjunta da Universidade Federal do Piauí, conversou com a Assessoria da Fundação Pedro Calmon.

FPC - Qual a importância do prêmio?

O prêmio simboliza o reconhecimento de anos de pesquisa, trabalho, esforço e dedicação. É uma grande iniciativa da Fundação Pedro Calmon premiar trabalhos sobre a História da Bahia e atribuir o nome de Kátia Mattoso, personalidade tão importante para a nossa história.

FPC - O que te motivou a escolher essa temática para a tese?

Acho que na maioria das vezes não somos nós que escolhemos as nossas temáticas de estudos, somos seduzidos por elas. No final da graduação eu já tinha sido fisgada pela vontade de conhecer melhor a história da minha terra e pelo vocabulário divertido e ácido tão característico do século XVII. Dentre os elementos de continuidade que compuseram o Império português entre os séculos XV e XVIII constavam o tráfico de escravos, o uso do português como idioma, a dependência das finanças do reino da exploração de suas conquistas e a circulação de pessoas pelo vasto território do mundo português. Interessou a esta tese demonstrar, através da trajetória de um personagem – D. Vasco de Mascarenhas − sobre que tipo de práticas políticas e de governo a Coroa portuguesa se fazia representar no reino e em seus territórios ultramarinos, atentando sempre para a construção de redes relacionais, os impactos da prestação de serviços na carreira individual de seus agentes e no funcionamento da monarquia.

FPC - De que forma ocorreu a inserção do Conde dos Óbidos nos seus estudos?

A escolha de Mascarenhas como personagem guia desta tese se deu em razão de sua ordinariedade e singularidade ao mesmo tempo, pois, embora a circulação de nobres cujas carreiras se voltaram para a prestação de serviços à monarquia no reino e ultramar tenha sido comum, Mascarenhas foi o único homem a ser vice-rei nos Estados da Índia e do Brasil no século XVII e o acesso que teve a postos, títulos e rendas também se deu com algum caráter de excepcionalidade. Trata-se de um sujeito bastante controverso, que se envolveu em diversos conflitos e produziu muita documentação nos inúmeros postos que ocupou. A metodologia utilizada foi reconstruir e analisar a trajetória de serviços desse personagem, identificando os acessos que os ofícios lhe possibilitaram, bem como as redes de alianças construídas, verificando, quando possível, sua durabilidade. Em última instância, pretendeu-se demonstrar a importância das longas trajetórias de serviços, tanto para os sujeitos, individualmente, quanto para a monarquia, que encontrava nessas carreiras imperiais uma das suas bases de sustentação.

FPC - Autoridades de destaque da cidade de Salvador, na época, manifestavam resistência e estranhamento para com a administração de D. Vasco, por quê?

Dom Vasco de Mascarenhas foi o segundo vice-rei do Estado do Brasil – que ainda não se constituía como um vice-reinado – por isso, ter esse título implicava em uma diferenciação social maior do que ser “apenas” governador-geral. De partida, isso já era um elemento que representaria bastante distinção do personagem na sociedade por concentrar em si significativo poder, o que terminava sim por gerar muitos conflitos. Além disso, Mascarenhas inaugurou uma política de centralidade para Bahia, uma vez que esta capitania, embora fosse oficialmente capital do Estado do Brasil, precisava construir a sua capitalidade impondo-se a poderes regionais como as capitanias do norte, sob a liderança de Pernambuco, o Estado do Grão Pará e Maranhão (que se constituiu como Estado autônomo) e a chamada repartição do sul, sob a liderança do Rio de Janeiro. Se no âmbito “nacional” o Conde de Óbidos acumulou inimigos, e envolveu-se até mesmo na deposição do governador da capitania de Pernambuco, no universo municipal, pelo menos nos primeiros anos de seu governo, mostrou-se mais cauteloso oferecendo compensações como a concessão de terras e empréstimos à elite local para que esta fizesse vistas grossas ao processo centralizador imposto por este. Contudo, não deixou de envolver-se em disputas.

 

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