#BatePapo As narrativas de um homem trans negro e pobre em Salvador

10/06/2020
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Foto: Arquivo Pessoal

Dando sequência a série de entrevistas no mês do orgulho LGBTQI+, o #FPC Entrevista conversou com Bruno Santana. Homem trans negro, professor, pesquisador, poeta, reikiano, transativista pelos Coletivos De Transs pra Frente e Transbatukada e, atualmente, está assessor parlamentar na câmara dos vereadores de Salvador. 

 

Graduado em Licenciatura em Educação Física pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), Bruno pesquisa questões de Gênero, Raça, Educação, Transgeneridades,  coporeidades e transmasculinidades negras. O escritor publicou poemas no livro “nós trans, escrivivências de resistência” (Litera trans, 2016), o livro “Amar devagarinho” (Padê editorial, 2018) e o poema “Transparto”, (revista organismo #03, 2019).

 

O que te levou a escrever? Como que começou a sua relação com a literatura e com a escrita poética?

 

Minha escrita nasceu na subalternidade, se construiu nos guetos, nas vielas e ruas esquecidas, onde as minorias criam suas redes de afeto e acolhimento. É aqui, em meio aos cansaços, dores, lutas e histórias de amor que nasce minha escrita subversiva. Comecei a fazer meus primeiros poemas no ensino fundamental. Sempre pensei: quando eu não mais existir, outras pessoas poderão me revisitar através das minhas escritas. Assim estarei sempre vivo na memória daquelas que me leem, ao compartilhar com elas um pouco das minhas escrevivências, desse meu fazer poético que diz tanto sobre minha subjetividade e da forma como fui me construindo e desconstruindo todos os dias.

 

E qual a sua relação com a escrita hoje e como ela se constituí? 

 

Escrevo para afrontar o mundo, para tecer possibilidades de reencontros e resistências. Grito através das palavras, para mostrar que existo, resisto, transpasso, transbordo. Estou certo de que é preciso perturbar os sentidos desse Cis-tema capitalista responsável por todos os extermínios e desumanizações dentro desta sociedade, destruí-lo até que acabe todo e qualquer tipo de desumanização. Escrevo para abrir portas e janelas para que outras possam entrar, abrindo caminhos para os saberes produzidos pelas subalternidades, reconhecendo sua potência como geradora de conhecimento. Escrevo para que epistemologias trans possam existir.

 

Então, o ativismo é parte central em sua vida? 

O ativismo é parte essencial da minha construção política que vai refletir diretamente na minha realidade pessoal e profissional. Enquanto espaço de construção, fortalecimento de redes políticas, de afeto e acolhimento entre nós pessoas trans. Quando uma pessoa trans ocupa qualquer espaço na sociedade, ela leva consigo toda uma história de luta e resistência, que servirá de incentivo para todas as outras que virão. Sigo tentando ser ponte, abrindo portas e janelas para que outras de nós passem a ocupar mais espaços. Por isso, minha luta é pela destruição das estruturas desse Cis-tema LGBTfobico responsável por todo extermínio, sofrimento e apagamento das nossas existências. 

 

Quais suas referências? Qual livro que você indicaria para ler antes ou depois dos seus poemas?

 

Minhas referências são pessoas trans incríveis como meus amigos Leonardo Peçanha, Tito Carvalhal, Vércio Gonçalves, Enzo Iroko, Benjamin Patury,  Jaqueline Gomes de Jesus, Viviane  Vergueiro, Fran Demétrio, Amora Moira,  Maria Leo,  Maria Clara Araújo, Yuna Vitória, Linn da Quebrada... e tantas outras pessoas transativistas que seguem produzindo vida e arte de várias formas possíveis. Eu indico a coleção 2018 da Padê editorial que foi pensada especialmente para dar voz a literatura LGBTQI negra brasileira.

 

Como é ter um corpo trans e negro em Salvador? Isso se reflete nos seus textos?

 

Para responder essa pergunta vou citar um dos trechos do meu artigo “Pensando as transmasculinidades Negras”:

“A maneira como o homem negro trans vivencia a sua transmaculinidade é diferente, enquanto homem negro trans e pobre, por exemplo, tenho especificidades que outros homens brancos trans não têm. Embora ambos soframos em algum momento o machismo, a misoginia e a transfobia, o homem branco trans não vivenciará o racismo, ele não irá experimentar ou perceber a sua passabilidade cis porque alguém o olhou como um potencial assaltante ou a polícia o parou em determinado contexto”. (SANTANA,2019, p.99).

O racismo e a transfobia não dormem e andam lado a lado. Se ser apenas negro no brasil já era difícil, imagina ser negro e trans? Carregamos dois marcadores que nos sentencia a morte diariamente. O racismo estrutura nossas existências, basta olhar as estatísticas, o genocídio da população negra não me deixa mentir. O Brasil segue sendo o país que mais mata pessoas trans no mundo. O racismo e a transfobia não dormem, ser um homem trans negro é viver sempre em estado de alerta.

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