#BatePapo A interdisciplinaridade da poesia de Alex Simões

17/06/2020
FPC_AutoresLGBTQI_GERAL3
Foto: Rafael Martins / SECOM

O terceiro convidado da série especial no mês do orgulho LGBTQI+ se considera um artista transdisciplinar e indisciplinar. Essa semana o FPC entrevista Alex Simões. Graduado em Letras, atuou como professor no ensino formal durante 20 anos, e atualmente é professor de português para estrangeiros e revisor, em paralelo a sua carreira de poeta e performer.

 

Autor de 4 livros publicados, Simões cresceu na Fazenda Grande do Retiro e tem o dia 28 de junho duplamente marcado em sua vida. Nascido no 4° aniversário do episódio de Stone Wall, o poeta teve que enfrentar questões ligadas a masculinidade ainda na infância, e viu a literatura como uma grande aliada em seus desafios.

 

Criado pela avó paterna, Alex conta que teve uma infância solitária, com uma criação muito rígida e uma relação conflituosa com as figuras masculinas da família, sobretudo com seu pai. “Eu era uma persona non grata para ele (pai). Uma criança que veio de um acaso e que era afeminada. Ele e meus tios me lembravam que eu não podia falar fino nem desmunhecar de formas não muito gentis, digamos assim. A única lembrança de figura masculina da família que nunca me agrediu fisicamente é de meu tio Adilson”.

 

O escritor conta que, mesmo tendo contato com outras crianças da vizinhança e da escola, passou a maior parte da infância sozinho com os livros, o que, para ele, foi uma questão de sobrevivência e o ajudou a criar um novo ethos masculino. “Eu lia e vivia intensamente aquilo que lia. E tinha o desejo de ser diferente do que o mundo masculino em geral me ensinava. Eu não queria ser aquilo que eu os via sendo e agindo comigo e com suas esposas”.

 

A realidade de Alex não só o levou a escrever, como também está presente em seus escritos. Para ele, não existe a possibilidade de não discutir raça, classe, gênero e sexualidade pois são questões que sempre lhe foram impostas, mas se diz avesso ao essencialismo e conta que tende a não pensar nas questões da arte, da literatura e da política como questões de representação do ponto de vista do discurso estético literário.

 

Alex ainda fala sobre como os sujeitos são representados nas diversas linguagens estéticas e destaca que é urgente a criação de formas de distribuir, o mais equitativamente possível, os modos de ser e estar em sociedade. “Uma literatura produzida por pessoas negras, por mulheres, por LGBTQ+ é uma literatura que diz mais coisas para a sociedade porque a sociedade é feita por pessoas que não só homens (percebidos como ou efetivamente) brancos de classe média e alta”.

 

O artista revela que uma série de escritores modernistas e pós-modernistas foram fundamentais para sua escrita, e conta que o livro Devassos no Paraíso, de João Silvério Trevisan, foi muito importante em sua trajetória. Mas ele acredita ser imprescindível ler os conterrâneos e contemporâneos. “É imprescindível saber o que preocupam os artistas e os cientistas que vivem no meu tempo e habitam o mesmo espaço que eu [...] temos a Revista Organismo, Jade Bittencourt, Louise Queiroz e Débora Gil Pantaleão...”

 

Com o 5° livro em andamento, Alex transita entre diversas estéticas artísticas e traça estratégias para trabalhar a poesia para além do suporte papel/livro. “Fui entendendo que a poesia precisa ser dita de modos diversos e que meu corpo é um instrumento que pode ser trabalhado para ressoar a poesia”. Para ele, a performance é um procedimento de apresentação da poesia expandida, que não se contenta com um único suporte.

 

“você tem seda?” e “a cappella de Waly”, as duas performances que o artista vem realizando com mais frequência, são construídas a partir do cruzamento de estéticas. Alex explica que o objetivo é trazer a poesia para o aqui-agora, ao mesmo tempo em que cruza essa linguagem com outras artes, uma com as artes gráficas/visuais, sem saber desenhar e a outra com a música, sem saber cantar.

Galeria: