Finalizando a série de bate-papos com escritorxs LGBTQI+, a Fundação Pedro Calmon (FPC/SecultBA) entrevista Nay Rosário. A graduanda em psicologia é autora do romance Nossa forma de amar e já participou das antologias Isso também é preconceito, Correspondência, O Lado Obscuro da Lei, Orixás, Histórias de Nossos Deuses e Toda Forma de Amor. Mediadora do Clube Lesbos de Salvador e cofundadora da LGBTECA, Nay vê na escrita uma forma de “transformar sentimentos e prover encantos”.
Como surgiu sua relação com a literatura?
Começou na infância. Minha mãe gostava de ler e escrever poemas em um caderno. Quando eu comecei o processo de alfabetização, ela me presenteou com livros de contos de fadas. Posteriormente, conforme crescia, meu gosto literário se aprimorava. Comecei a escrever em um diário pequenos contos e pensamentos. Só em 2007, tive contato com a literatura lésbica em alguns sites. Meu primeiro texto publicado foi um poema e com o incentivo de algumas amigas escritoras, lancei meu primeiro romance ambientado na capital baiana. Criei o blog Escritos da Noite ainda sob o pseudônimo Dama da Noite pelo receio da exposição, pois naquela época ainda estava engatinhando nesse mundo literário aliado à minha própria aceitação sexual.
O que é literatura lésbica?
A explicação genérica é: literatura feita por mulheres que se relacionam afetivamente com mulheres para mulheres que se relacionam amorosamente com outras mulheres. A meu ver, a literatura lésbica não se resume a essa explicação. É um meio de entendimento e aceitação através da representação propiciando a libertação das amarras sociais e convencionais. Obviamente, a intenção não é chocar, mas trazer a luz do dia que há sim relacionamentos homoafetivos e mostrá-los o mais verosímil possível. É um meio de dizer: Ei! Existimos e resistimos. E dar visibilidade a ela é contribuir para a informação e educação a respeito das diversidades e suas formas de amar.
Como é a representação da mulher lésbica na literatura? Você se sente bem representada?
Eu, enquanto mulher negra e lésbica, tenho observado no cenário da literatura lésbica uma busca maior pela representatividade dentro das histórias. Enquanto leitora, ainda sinto falta de mais protagonistas negras. Já a escritora que habita em mim vem trabalhando não apenas a questão racial, mas a quebra de outros padrões e estigmas. Em literaturas mais antigas, uma característica quase que fundamental das personagens era que sempre havia a mais masculinizada que geralmente se apaixonava ou iludia a mocinha feminina, que era mais delicada em gestos e atitudes. Graças ao universo, mudanças ocorreram. Dentro da literatura lésbica teve um avanço gigantesco na representação. Em uma literatura voltada para o público heterossexual ainda tem aqueles que resumem a mulher lésbica aos estereótipos clichês e há quem busque trazer para mais próximo da realidade.
Você tem uma atuação forte na visibilidade da literatura lésbica. Com diversas obras disponíveis online, é uma das fundadoras de uma plataforma que disponibiliza literatura LGBT de forma gratuita e ainda é mediadora no Clube Lesbos Salvador. Qual a importância e potência desse tipo de iniciativa?
Necessária. É dar vida, vez, rosto e voz através da literatura. Faço parte da sociedade e da comunidade que a alguns tentam por a margem. Não é obrigatório fazer parte de uma das letras da comunidade LGBT para apoiar a causa. Basta ter ciência e consciência de que todos devem ter seus direitos assegurados. Quando comecei a mediação do clube, escutei de muitas moças a queixa de não termos um lugar nosso, um espaço voltado para nós com a possibilidade de nos reunirmos para conversas. Essa luta pela visibilidade da nossa literatura não foi iniciada por mim, a conheci quando comecei a ler os textos de Cassandra Rios e procurei conhecer mais dela. Mas sei que é meu dever, como escritora, reverberar e ecoar esse grito em busca do reconhecimento da nossa vida/arte.