#FPCEntrevista - O trabalho do historiador na preservação da memória do estado

04/08/2020
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No mês em que celebra o dia nacional do historiador, a Fundação Pedro Calmon (FPC/SecultBA) conversa com 3 historiados sobre temas discutidos em agosto. No texto de abertura da série, Walter Silva aborda o direito à memória enquanto direito humano, rememorando o dia nacional dos direitos humanos, celebrado em 12 de agosto. O historiador entrou na FPC como estagiário e já soma 17 anos de serviços prestados ao órgão. Atualmente, é diretor do Centro de Memória da Bahia (CMB), que tem como missão recolher e disponibilizar ao público, conteúdos de acervos privados de reconhecido valor histórico, além de desenvolver e apoiar iniciativas de pesquisas sobre a história da Bahia e promover a difusão do conhecimento histórico sobre o estado e sua memória.

 

Pelo ponto de vista do CMB, qual o papel do historiador na preservação da memória do estado?

A memória se configura enquanto um dos mais importantes elementos na constituição das identidades individual e coletiva, sine qua non para a consolidação da cultura em seu amplo espectro. A importância e urgência com que deve ser pautada a preservação da memória nos impinge a ter atitude, obstinação e protagonismo, para que possamos desempenhar da melhor forma nosso papel no sentido de conscientizar a sociedade da importância da preservação de nossa memória, pois sem memória, somos seres perdidos no tempo e no espaço.

 

Qual a importância de assegurar o direito à memória?

A questão do direito à memória para o Brasil e a América Latina está diretamente relacionada ao desejo de verdade, ou de assegurar uma outra narrativa dos acontecimentos, quer sejam históricos e coletivos, ou pessoais e privativos. Isso inevitavelmente está atrelado ao período ditatorial ao qual o Brasil e demais países da américa latina sofreram. Seguramente, a garantia do direito a memória é preponderante e fundamental a toda sociedade, para que consiga encontrar na sua história elementos que lhe permita um balizamento, vislumbrando esse desdobramento no seu futuro, seja no intuito de não repetir erros antigos, ou numa perspectiva de por luz a acontecimentos que não se acompanham da narrativa original dos acontecimentos. Contudo, o direito à memória traz consigo uma importância histórica da possibilidade da compreensão do passado, e rememorar algo deixa de ser uma simples vontade para se tornar um direito reconhecido com um status fundamental.

 

Como que o acervo do CMB contribui com a preservação da memória local?

Atuando em duas principais frentes: na Difusão, através da realização de atividades como palestras, seminários, colóquios e publicações acerca do acervo documental histórico que guarda; e propriamente na preservação através da salvaguarda de acervos privados, realizando levantamento dos acervos e possíveis doadores, atuando na conscientização da importância histórica da preservação desse legado histórico documental, na higienização, organização, catalogação e disponibilização do acesso dessas fontes a sociedade.

O acervo salvaguardado pelo CMB é composto por fundos arquivísticos de personalidades que tiveram importante atuação na esfera política com forte representação nas esferas dos poderes Legislativo e Executivo não apenas do estado da Bahia como no País. É uma importante documentação que versa sob os diversos interesses sociais, desde questões relacionadas ao segmento da Saúde Pública a investimentos em Habitação. Mas temos o interesse em contribuir não apenas na salvaguarda de acervo da seara política, nesse sentido, a partir de 2015 na gestão do nosso diretor geral Zulu Araújo, temos atuado fortemente no setor cultural, fruto disso recebemos os acervos Lia Robatto e Silvio Robatto, expoentes da Dança e Fotografia, respectivamente.

 

Quais são os maiores desafios na preservação da memória da Bahia Republicana?

Penso que a preservação da memória se constitui enquanto um grande desafio por várias motivações. Elencando como, talvez, a mais severa a falta de investimento que reverbera nas diversas ações pensadas e nas mais distintas etapas do processo para o efetivo alcance desse objetivo. Uma segunda questão, se refere a não sensibilização da importância da preservação da memória. No entanto, a partir de considerações no campo da práxis historiográfica, considero a preservação da memória não documentada em suportes palpáveis como de extrema importância, me refiro a oralidade, às práticas e conhecimentos que são passados de geração em geração através dos nossos “mais velhos”, dos griôs, daqueles que acumulam uma “bagagem” informacional incalculável, memórias perpetuadas justamente pela sensibilidade à importância da preservação. Nesse sentido a Fundação Pedro Calmon tem atuado através do CMB com a realização do projeto Memórias Contemporâneas, que objetiva a formação de uma banco de dados audiovisual a partir do registro de memórias dos mais diversos segmentos da cultura baiana com o fito de possibilitar o acesso através de plataformas virtuais a esse legado.

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