Um olhar, uma história: Salvador e a Consciência Negra que precisamos

20/11/2020
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Foto: Rafael Martins / SECOM

Salvador e a Consciência Negra que precisamos.

Zulu Araújo

Salvador é cantada em prosa e verso, como a Roma Negra dos trópicos e de que por aqui um pedaço da África continua vivo e que o sentimento de liberdade pulsa em nossos corações e mentes. Por isso mesmo, é cada vez mais intrigante as razões pelas quais essa mesma população tem chancelado nas urnas, ao longo dos anos, as lideranças mais conservadoras da nossa cidade.

Mais intrigante ainda, é que recentemente, em pesquisa nacional, Salvador pontuou como a cidade que o Governo Federal possui o maior índice de rejeição (62%), revelando de forma clara a reprovação dos soteropolitanos aos métodos e práticas autoritárias, ao menos para os de fora.

E para coroar esse enigma político, se fizermos a linha do tempo daqueles que comandaram essa cidade ao longo dos seus 470 anos e buscarmos identificar os mais aplaudidos por nossa população, encontraremos, curiosamente, os velhos e novos representantes do conservadorismo e do racismo.

Portanto, não basta fazer análises históricas e sociológicas para compreender esse fenômeno. É algo mais profundo e que desafia a todos aqueles que lutam e sonham com uma Salvador democrática, igualitária e com seu povo sendo tratado com dignidade e respeito.

Ao meu ver, o escravismo e a subalternidade deitaram fundo suas raízes em nossa cidade. E muito ainda terá que ser feito para que consigamos superar esse estágio de dependência quase masoquista em que a maioria da população, que é negra e pobre, possui para com seus algozes. É nossa “Síndrome de Estocolmo”

Por isto mesmo, não podemos cair na armadilha de colocar a culpa no povo ou na sua falta de consciência política, mas sim, de entender que a mesma consciência negra que alcançou a população pela via dos blocos afros, dos seus terreiros e da arte mandinga da capoeira e que se faz presente em gestos, falas e movimentos dos soteropolitanos, ainda não foi traduzida para o mundo da política.

Esse é um desafio que as lideranças do movimento negro, assim como os nossos aliados, precisam enfrentar, se quiser produzir as transformações que Salvador precisa. O resultado das eleições de 2020, revela que política não é a soma de dois mais dois, nem muito menos que apenas o discurso identitário é capaz de sensibilizar a nossa população.

Podemos até nos regozijar com uma ou outra excentricidade que obteve êxito eleitoral, mas o poder da cidade continua na mão dos mesmos, para produzir mais do mesmo, ou seja, exclusão, pobreza, violência e insensibilidade.

Repensar e alterar profundamente a nossa prática, nossos métodos, assim como nossa organização política para fazer com que a consciência negra que tanto vocalizamos, seja a ferramenta para a melhoria de vida de nosso povo, é mais que um desafio, é um imperativo. Traduzir consciência negra em participação democrática, consciência política e transformação social é o nosso caminho.  

E, Viva o Dia 20 de Novembro – Dia Nacional da Consciência Negra.

Toca a zabumba que a terra é nossa!

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