Lavagem de Itapuã: celebração une religiosidade e folia há 118 anos

09/02/2023
Foto: Lázaro Roberto 1993

Fotógrafo criador do acervo Zumvi, Lázaro Roberto, discute transformações da tradicional Lavagem de Itapuã

Responsável por anteceder o Carnaval de Salvador, a Festa de Itapuã integra o grupo de festejos populares do calendário baiano, na quinta-feira anterior a festa momesca.

Mais que uma comemoração, o evento celebra a resistência dos povos originários do tradicional bairro da capital, como os indígenas, pescadores e as ganhadeiras, mulheres escravizadas ou libertas, que prestavam serviços em troca de lucro financeiro.

Iniciada durante a alvorada, a festa segue durante três dias, sendo finalizada oficialmente apenas na segunda-feira, com a entrega de uma oferenda a deusa Iemanjá.

Foto: Raimundo Monteiro 1991

Uma Bahia que não se vê

Um dos criadores do Grupo Zumvi, o fotógrafo Lázaro Roberto possui dentro do seu acervo registros da festa de Itapuã. Curador da exposição: “Lentes Negras: festas, festejos e celebrações”, disponível em exposição virtual na Biblioteca Virtual Consuelo Pondé (BVCP), para o documentarista, além de catalogar, a fotografia apresenta outras funções ao longo do tempo.

“Constato a negritude através da minha fotografia. Eu sempre aprendo com a minha fotografia, pois através dela eu obtenho consciência social. Ao longo dos anos, vamos percebendo algumas coisas que vão sumindo e outras vão aparecendo, como o trio elétrico na festa de Itapuã”, destaca.

Natural de Salvador, para o documentarista, alternativas como exposições virtuais possibilitam alternativas como a expansão da arte para outros públicos, antes não alcançados e a possibilidade de visualizar a sociedade.

“Desde que eu comecei a fotografar eu registro festas populares e foi através destas festas que eu comecei a ver realmente como Salvador é negra, comecei a ver o povo de Salvador em suas particularidades, como em procissões católicas, em religiões de matriz africana, a expressão do povo da Bahia. Para mim, fotografar festas populares é traduzir a Bahia. Essa Bahia que muitas vezes a gente enxerga, mas não vê”, explica.

Foto: Raimundo Monteiro 1991

Lavagem e sincretismo

Um dos pontos altos da celebração, a lavagem com água de cheiro das escadarias da igreja da Paróquia Nossa Senhora da Conceição de Itapuã, realizada por baianas vestidas a caráter após o trajeto iniciado em Piatã, na Praça Dorival Caymmi, representa um dos importantes signos do sincretismo baiano, a partir da união da fé e religiões dos seguidores.

Santa católica correspondente a Iemanjá, o culto religioso reúne representantes do catolicismo, e crenças de matriz africana, como a umbanda e o candomblé. Para além dos seguidores fiéis, a festa também conta com o cortejo de importantes grupos do cenário cultural baiano, como o afoxé filhos de Gandhy e o grupo Malê Debalê, bloco-afro de Carnaval da Bahia em Salvador fundado por moradores do bairro.    

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