A professora Graciela Natanshon discute a atuação online das mulheres
A luta pelos direitos das mulheres é documentada desde o final do século 19. De lá para cá, as conquistas têm avançado por diversos territórios, entre eles a disputa de narrativa no espaço da internet. No dia 8 de março, Dia Internacional das Mulheres, a Fundação Pedro Calmon (FPC/SecultBA) aborda o ciberfeminismo como marco dos novos tempos.
Segmento dominado pelos homens, assim como outros setores da comunicação, o meio digital vem ampliando a sua participação feminina através de iniciativas gradualmente inclusivas.
Professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas e da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Graciela Natanshon vem colaborando na alteração desta realidade. Dedicado às mulheres, a pesquisadora coordena o grupo de Pesquisa em Gênero, Tecnologias Digitais e Cultura (GIG@/UFBA).
“Oriento pesquisas de graduação e pós-graduação nas amplas temáticas que envolvem as tecnologias digitais e os modos de vida, trabalho, saúde, educação, etc. Com perspectivas feministas antirracistas”, explica a pesquisadora.
Ciberfeminismo
Responsável por desenvolver pesquisas que estimulem a conexão entre a cultura, comunicação e as tecnologias digitais, o grupo atua com foco nas relações de gênero e nas consequências dentro da produção, circulação e consumo.
“Ampliamos o conceito de feminismo para todas as sujeitas políticas do feminismo (mulheres cis, trans, brancas, negras, indígenas, não binárias, lésbicas) e nos apropriamos do hacktivismo, do fazer hacker com perspectiva feminista e antiracista”, pontua a pesquisadora.
O termo Ciberfeminismo surge entre o final dos anos 1980 e início dos anos 1990, e vem colaborando com essa ascensão através da sua atualização de concepções. Nascido no norte europeu e com raízes da Austrália, na Oceania, o termo refere-se a uma etapa de ativistas digitais, onde a internet prometia democratizar e globalizar vínculos.
“Claro que a palavra ciberfeminismo conserva essa mítica que nós gostamos e por isso continuamos a usar essa palavra. Mas a internet não é a mesma dos 90 e as palavras precisam dar conta dessas transformações”, avalia. Para Natanshon, apesar do sucesso das iniciativas e avanço dos direitos das mulheres dentro do contexto digital, os problemas se tornaram gradativos.
Discurso de ódio online
“Os avanços resultam da organização coletiva feminista que as plataformas de redes têm permitido. Campanhas como #elenão, #metoo #meuamigosecreto e tantas outras deram visibilidade ao machismo, racismo e outras injustiças. Os retrocessos têm a mesma origem: essas plataformas precisam ser reguladas, pois permitiram os discursos de ódio, a vigilância e o assédio das ativistas”, sinaliza Nathanson.
Para a professora o mapeamento do discurso de ódio contra as mulheres é fundamental para a execução de medidas jurídicas. “A violência digital misógina e racista não pode andar pelas redes como se nada estivesse acontecendo. A partir deste momento, surge a necessidade de regulações democráticas, colegiadas, debatidas com parlamentares e sociedade civil”, completa.
Indagada sobre a necessidade de criação de maiores alternativas para a ascensão do feminismo dentro da área digital e tecnológica, segundo a orientadora, é necessário um processo de encorajamento, além de alternativas subsidiadas pelo poder público.
“Há vários caminhos, entre eles, o estimulo ao ingresso de mulheres (cis, trans, negras, brancas, indígenas, etc) aos cursos de computação, que adquiram competências para não dependermos das multinacionais da tecnologia; exigir dos governos a implementação de políticas públicas que estimulem a soberania tecnológica: redes próprias, servidores próprios, livres de vigilância”, destaca.