Esperado com grande expectativa pelo público, com pessoas vindas dos municípios do Território do Sisal e de outras partes da Bahia, o escritor Itamar Vieira Júnior, autor de obras premiadas como Torto Arado e Salvar o Fogo, participou, neste sábado (10), do último dia de programação da II Feira Literária Internacional de Serrinha. A FELIS teve início no dia 6 de maio, com mais de 100 atrações culturais, e encerra com apresentação do Ilê Aiyê, primeiro bloco afro do Brasil.
A Conversa Literária "A Terra que nos sustenta: Os Territórios na obra de Itamar Vieira Júnior" contou com a mediação do diretor-geral da Fundação Pedro Calmon, instituição vinculada à Secretaria de Cultura, que, juntamente com a Secretaria de Educação, coordena o Programa Bahia Literária, que irá realizar 81 eventos literários no estado.
O mediador da mesa e diretor-geral da FPC, Sandro Magalhães, perguntou sobre a importância da iniciativa do Bahia Literária na territorialização da política do livro e da leitura. Por sua vez, Itamar Vieira disse: “Assim como a FELIS, inúmeras outras feiras irão acontecer no estado. Essas feiras são importantes não só para movimentar a economia local, mas um programa dessa natureza promove o encontro dos escritores com os leitores e demonstra o compromisso com a difusão da cultura literária, do livro.”
No evento, a juventude foi protagonista e marcou presença, a exemplo da jovem de 16 anos, Jade Maria, do município de Teofilândia. Ao escritor, ela perguntou sobre territórios na perspectiva dos povos quilombolas do país e por que é importante debater a temática em ambientes como as escolas e nos livros.
Itamar Vieira ressaltou que a questão tem relação direta com a construção da história brasileira, que precisa ser reescrita.
“A história do nosso país é da diversidade, e é importante lembrar que o Brasil foi fundado sob a égide da violência contra os povos originários. Carregamos o peso da diáspora, algo que precisamos debater, pois durante muito tempo as artes, a literatura, celebraram a elite, que contou a sua versão da história. E o Brasil hoje quer contar essa história de uma forma mais diversa, exaltar a importância de todos que fizeram parte desse processo de construção, falar da ancestralidade. A nossa desigualdade tem relação com nossa origem social. Enquanto vidas estiverem em risco, a gente precisa exaltar isso — e ainda há vidas em risco pela sua origem.”
O escritor também falou, durante sua apresentação, sobre a influência dos territórios na construção de suas obras.
“A relação com a terra e o território é vital! Não há vida sem o chão que a gente pisa. E isso nos atravessa, principalmente quando observamos o movimento da diáspora africana, onde pessoas tiveram que carregar no corpo o seu próprio território e, aqui, nesse lugar onde chegaram sem nada, tiveram que recriar. A gente vê que o espírito humano não tem limites. Mesmo com toda violência que possa existir, atravessa com integridade. E é essa história de pessoas que perdem tudo, mas não se vergam, que busco trazer.”
Durante a interação com o público, o mediador Sandro Magalhães questionou se o escritor se sentia provocado a escrever sobre as disputas urbanas.
Sobre isso, Vieira sinalizou que o tema "especulação imobiliária" pode ser trabalhado em sua próxima obra.
Ao final, uma grande fila de admiradores de Itamar Vieira se formou para a sessão de autógrafos.
Ainda hoje, na II Feira Literária Internacional de Serrinha, acontece a Conversa Literária com a jornalista da Rede Globo e escritora Aline Midlej, sobre o tema "Resgatando Identidades — A experiência do Favela 3D no combate às desigualdades", com mediação da chefe de gabinete da Secretaria de Cultura da Bahia, Nadjane Estrela.
À noite, a programação encerra com as apresentações musicais da CORIF, Grupo Pavão Dourado, Afrojamaica e Ilê Aiyê.
Fonte: Ascom/FPC
Foto: Tainan Rangel/Harley Barros