Funceb fechou a 7ª edição do Novembro das Artes Negras em Itapuã, na sede do Malê Debalê

02/12/2024
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Centenas de pessoas prestigiaram a 7ª edição do Novembro das Artes Negras da Funceb durante o mês de novembro. Pela primeira vez, a programação do projeto aconteceu de forma descentralizada e itinerou por bairros da capital baiana. O Espaço Cultural Alagados, no Uruguai, a Associação de Moradores de Plataforma, em Plataforma, o Colégio Estadual Barros Barreto, em Paripe, o Cine Teatro Solar Boa Vista, no Engenho Velho e Brotas, e a sede do Malê Debalê, em Itapuã, receberam ações gratuitas de música, poesia, dança, teatro e artes visuais, fortalecendo o diálogo entre artistas negras baianos e as comunidades. 

Com o tema “Travessias Culturais: Artes Negras em movimentos”, o Novembro das Artes Negras da Funceb encerrou sua 7ª edição no último final de semana na sede do Malê Debalê, em Itapuã. No sábado (30), a programação começou com a mostra da Oficina de Teatro e Dança ofertada pela Funceb durante o mês de outubro através do projeto. No palco, a Revolta dos Malês foi tema central da peça que trouxe teatro, música e dança para a sede do bloco afro que homenageia a Revolta. 

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Mostra da Oficina de Teatro e Dança

Um dos professores da Oficina, Renê Oliveira destacou: “a gente buscou retratar a Revolta dos Malês, que está para completar 190 anos, então fazer esse espetáculo na sede do Malê Debalê é muito representativo, um bloco afro de muita resistência, que há 45 anos homenageia também essa revolta”. Tainá Silva, de 25 anos, foi uma das participantes da Oficina: “Foi muito gratificante ter feito essa oficina de teatro. Eu já tive vivência com a dança afro, mas com teatro foi a primeira vez. A peça une dança, canto, capoeira, está lindo e foi uma experiência incrível.”

Concomitantemente, durante os dois dias de evento, a multiartista, designer e ilustradora, Alessandra Paes, produziu o Live Paint ‘Visão negra do sertão/urbano’. “O Live Paint é um processo e as pessoas têm curiosidade de saber como é feito aquilo, quais são os passos, isso é interessante, chama atenção. Trabalho com arte de rua desde 2010, sempre trago mulheres nas minhas representações, e como a gente está nesse espaço, trouxe a personalidade Luísa Mahin, uma das líderes da Revolta dos Malês”, relatou Alessandra.

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Seguindo a programação, o projeto Paredão Ancestral, formado por Opanijé, Fúria Consciente, Aspri RBF e Mr Dko, levou beats do Hip-Hop com canções de blocos afros que reverberaram nos carnavais de Salvador nas últimas décadas. “O Paredão Ancestral é um projeto realizado pelo coletivo Ancestralidade Musicalizada, que acontece com quem está aqui hoje e mais alguns parceiros. Somos um coletivo de hip-hop conectado com a cultura baiana, com a cultura da cidade. Nosso primeiro Paredão Ancestral foi na Mudança do Garcia, em 2020. Temos essa ideia de cantar músicas de blocos afros, músicas antigas baianas, com os beats de eletrônico, como rap, ragga e reggae”, explicou Lázaro Erê, do grupo Opanijé. 

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Paredão Ancestral

Aspri RBF também deu a voz: “Nós da Ancestralidade Musicalizada estamos juntos desde 2017, mas ainda não tínhamos produzido algo nosso. E o Paredão Ancestral trouxe essa visão de ter o hip-hop no carnaval como um circuito alternativo, na rua, que a galera pudesse curtir a junção do rap, do hip-hop feito com música afro. O Dj é quem comanda a festa, ele solta um beat e a gente improvisa em cima disso”. 

Finalizando a programação, a Banda Cativeiro foi a última a subir no palco na noite de sábado. Com mais de 20 anos de história, a banda que se consagrou com o hit ‘Me Namora’, segue se reinventando, unindo reggae e rap para produzir algo único, levando músicas que falam de paz, coletividade e questões do cotidiano.

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Banda Cativeiro

As vozes da banda, Nanashara Vaz e Tulipa Negra, falaram um pouco da apresentação: “Hoje apresentamos o nosso álbum ‘Pega a Visão’, que é a junção entre reggae e hip-hop e rap, que traz letras sobre racismo e reflexões do cotidiano”, disse Nanashara. Tulipa completou: “A gente traz diversas letras que têm a ver com o evento que a gente está participando hoje, o que é muito representativo. Trazemos canções em que as pessoas vão se reconhecer, que falam de vivências negras na cidade, união, força e representatividade”. 

Cláudia Fonseca foi prestigiar o Novembro das Artes Negras no último sábado e destacou a importância de eventos como esses na cidade: “Minha filha participou da apresentação, vim pra vê-la mas me surpreendi com a programação apresentada aqui hoje. A gente sabe que o mês de novembro é muito significante porque representa a nossa luta, então é importante trazer esse aspecto cultural da data, trazer música ancestral para as pessoas”. 

Já Manu Casaldi entrou na dança e seguiu os ritmos da noite: “Trabalho com produção de eventos de dança afro. Sou italiana mas resido no Brasil há 12 anos, esse tipo de evento tem que chegar nas pessoas, fiquei muito encantada com tudo, adorei a peça de teatro, todos os shows, me diverti muito”. 

Último dia

A sede do Malê Debalê, em Itapuã, teve um domingo (02) mais que especial para moradores do bairro e soteropolitanos. É que a última atração musical da 7ª edição do Novembro das Artes Negras da Funceb, em celebração ao mês da Consciência Negra, foi ninguém menos que o Bloco Afro Malê Debalê, que completou 45 anos de fundação em 2024, emocionando os admiradores do maior bloco afro do mundo. O Grupo Anarkas foi convidado e o cantor Dja Luz abriu a edição apresentando seu trabalho autoral “Minha Pele Preta”.

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Dja Luz

O cantor e compositor baiano fez as honras da casa em um repertório que uniu canções próprias de herança africana e identidade afro-baiana, samba reggae, ijexá, afrobeat e samba de roda. O artista também fez releituras de grandes sucessos da música baiana. Destaque para a participação do seu pai, Djalma Luz que, segundo ele, foi compositor da música ‘Coração Rastafari’, conhecida na voz de Lazzo Matumbi. “É muito gratificante poder tocar aqui para o meu povo, falando do meu povo. Quando fui contemplado no edital fiquei feliz demais e quando soube que tocaria aqui, foi uma festa total”, declarou Dja Luz.

Em seguida, os Anarkas subiram ao palco levando sua variedade musical, mesclando músicas da axé, pop e autorais. O trio de jovens formado por Ruiva, Osiris e Philipe Neri é fruto de um projeto musical desenvolvido no Colégio Estadual Governador Lomanto Junior, em Itapuã, como forma de incentivar o empreendedorismo da juventude preta e periférica nas escolas públicas. Além do Malê Debalê, eles já dividiram palco com atrações consagradas como Ilê Ayê, Negra Cor, Jau e Cortejo Afro.

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Grupo Anarkas

O Bloco Afro Malê Debalê encerrou a noite com a formação completa, satisfazendo seu tão aguardado público com a banda percussiva, os dançarinos e seus trajes esplendorosos, representando a majestade e a ancestralidade afro-baiana. O rei e a rainha do Concurso Negro e Negra do Malê 2024 e os Malêzinhos, vencedores do Concurso Negro e Negra do Malezinho 2023 e 2024 marcaram presença no espetáculo. Para Morenah Moara, 10 anos, Rainha Malêzinha 2023, “foi emocionante participar do concurso pela primeira vez e já ser escolhida. Minha mãe me botou pra ser modelo e depois do Malêzinho, fui dançar e agora só quero dançar”, explicou a menina entusiasmada.

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Malê Debalê

“Tenho muito a agradecer à Funceb e toda a equipe. Estar celebrando um projeto como esse, em que pauta dança, teatro, depois fazer uma mostra gratuita para a comunidade, percebendo que vocês têm esse olhar voltado para a cultura, com essa sensibilidade, me deixa muito feliz”, celebrou Cláudio Araújo, presidente do Malê Debalê. Os shows musicais intercalaram com o processo de finalização da pintura da caricatura de Luísa Mahin – considerada heroína da Revolta dos Malês em 1835 e mãe de Luís Gama -, na sede do bloco pela artista, Lelé Paes, embelezando ainda mais o espaço e o encontro.

Fotos: Felipe Martins