A manhã desta terça-feira (25) foi cercada de arte, poesia e a revelação de sonhos na Colônia Penal de Simões Filho, Região Metropolitana de Salvador (RMS). Dois grupos de internos mostraram o resultado da oficina de teatro ministrada por Leno Sacramento que ocorreu durante um mês, às terças-feiras, no qual aprenderam aulas de interpretação e jogos teatrais proporcionadas pelo projeto Novembro das Artes Negras, da Fundação Cultural do Estado (FUNCEB/SecultBA), que está em sua 8ª edição.
Com o tema "Aquilombar-se: Resistência, Arte e construção coletiva”, o projeto convidou o ator baiano, que já aborda em seus textos e encenação experiências e temáticas fortes, envolvendo questões políticas, antirracistas e contra a violência, para facilitar a vivência. Ele contou que adaptou sua narrativa especialmente para essa oficina, suscitando a reflexão dos participantes acerca dos seus próprios sonhos. Cada um pode dar voz e vez aos seus anseios mais profundos através da encenação.
“Nunca pensei em ter uma experiência como essa. Eu tenho uma linguagem que chega próximo desses meninos e faz com que eles sejam como eu, e eu como eles. Acho muito importante esse projeto existir também em outras unidades, com outras pessoas, de outros gêneros e idades, pois a arte salva. A prova é que hoje vimos sonhos”, destacou Leno Sacramento. Cerca de 30 rapazes e homens integraram grupos nos turnos da manhã e da tarde, onde puderam expressar seus sonhos por meio das palavras e da poesia declamada.
Muitos deles tiveram contato pela primeira vez com a arte de interpretar e viram na oficina a possibilidade de seguirem em frente, como foi o caso de L. G. S., de 27 anos. “Foi muito legal ter participado, pois gostei de todas as cenas e falas. Meu maior sonho é ser um artista, não importa a arte. Se eu focar e seguir em frente, eu chego lá”, celebrou.
A professora e gestora do Colégio Estadual Doutor Berlindo Mamede de Oliveira, Irilene Santana, ressaltou que “a inclusão da oficina é de grande importância, pois faz com que as pessoas que estão nesse espaço privado de liberdade entendam que, apesar deles estarem aqui, podem pensar em realizar seus sonhos quando saírem, abrindo um novo horizonte, uma nova perspectiva de vida para si e seus descendentes”.
O participante M. M., de 29 anos, afirmou que “essa oficina tem sido um divisor de águas na minha vida, por que tem mudado completamente aquilo que achei que um dia eu já não conseguiria mais. Depois desse processo, consigo não enxergar somente logo ali, mas enxergar lá na frente. Sou bom em escrever e compor, e isso pode me trazer um futuro”.
A psicóloga da unidade prisional de Simões Filho, Nivia Cristina Santos, avaliou que “o projeto é de grande valia para a promoção da saúde mental, oferecendo um espaço de expressão e reflexão. A arte funciona como um processo de ressignificação de traumas e tensões decorrentes do racismo estrutural e bullying, estabelecendo conexões, fortalecendo a identidade, autoestima, pertencimento e representatividade, além de auxiliar no trabalho preventivo em possíveis transtornos como depressão e ansiedade, ofertando o bem-estar psicológico da população negra no sistema prisional”.
Muitos se surpreenderam com as atividades e as próprias capacidades, como relatou A. A., de 42 anos. “Pra mim foi surpreendente, porque eu não sabia que tinha tal capacidade de atingir a arte. Aprendi que ela faz com que a gente supere os limites e os preconceitos impostos pela sociedade. Leno é um professor maravilhoso e fez com que pudéssemos expressar o que nós sentimos na realidade, que é falarmos sobre o sonho”.
A 8ª edição do Novembro das Artes Negras propõe um mergulho nas potências criativas dos quilombos rurais e também dos urbanos, territórios onde corpos pretos transformam ausência em presença, silêncio em palavra e opressão em linguagem estética. Neste conceito, a programação conta com atrações que dialogam com a cultura afro-brasileira nas linguagens de Artes Visuais, Circo, Dança, Literatura, Música, Teatro e Audiovisual.
A propostas artísticas que integram a 8ª edição do Novembro das Artes Negras foram selecionadas por meio de edital elaborado com base na Lei nº 14.399/2022 (Lei PNAB), Decreto nº 11.740/2023 (Decreto PNAB), com recursos da Política Nacional Aldir Blanc Bahia, direcionada pelo Ministério da Cultura - Governo Federal.
Este ano o projeto conta com o apoio da Fundação da Criança e do Adolescente (FUNDAC), a Secretaria de Administração Penitenciária (SEAP), do Coletivo Bahia Pela Paz de Águas Claras, do Quilombo Pitanga dos Palmares e do Centro de Direitos Humanos Franco Pellegrin (CEDHU).