Programação reúne 34 obras que destacam papel pioneiro da cineasta franco-guadalupense na história dos cinemas negros e de mulheres
Entre os dias 5 e 24 de março, a retrospectiva O Cinema anticolonial de Sarah Maldoror garante uma programação gratuita na Sala de Cinema Walter da Silveira, equipamento da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb), reconhecido como um dos principais espaços de difusão e formação audiovisual do estado. Após estrear no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) Rio de Janeiro e São Paulo, a mostra chega a Salvador consolidando o circuito nacional da obra da cineasta. A realização conta com o apoio da Diretoria de Audiovisual (Dimas/Funceb), que acompanha e viabiliza a execução do evento em todas as suas etapas.
A presença da mostra na Bahia também evidencia o papel da Dimas na política pública para o audiovisual no estado. Ao apoiar a realização do evento, a diretoria contribui para a circulação de obras fundamentais da história do cinema mundial, promove a formação de público e estimula o debate em torno de temas como memória, colonialismo, identidade e representatividade. Ao sediar a programação na Sala de Cinema Walter da Silveira, a Funceb reafirma seu papel como agente de preservação, difusão cultural e estímulo à reflexão crítica por meio do cinema.
“O Cinema anticolonial de Sarah Maldoror” tem curadoria conjunta de Lúcia Monteiro, Izabel de Fátima Cruz Melo e Letícia Santinon. A abertura do evento acontece no dia 05 de março (quinta-feira), às 18h, com a exibição de “Monangambé” (1968) - primeiro filme da diretora. Às 19h, acontece a segunda sessão do dia com a versão restaurada de “Sambizanga” (1972), premiado no Festival de Berlim e considerado o título mais conhecido da cineasta. Baseada em uma novela de Luandino Vieira, a história acompanha um homem que é preso injustamente e torturado, suspeito de pertencer a um grupo revolucionário.
A programação traz, ainda, filmes em que Maldoror trabalhou como assistente, como o célebre “A Batalha de Argel” (1966), de Gillo Pontecorvo, e o documentário "Elas", do argelino Ahmed Lallem, que ganha sua primeira exibição na cidade. Haverá também exibições de documentários de Chris Marker, como “Sem sol” (1982) e o episódio 7 da série “A herança da coruja” (1989), que contêm imagens filmadas por Maldoror. Também entra na programação filmes que tem uma proximidade estética e política com a obra de Maldoror.
A retrospectiva propõe alguns paralelos entre o cinema de Maldoror e a obra de cineastas negras da América Latina. Nesse sentido, a cineasta baiana Safira Moreira dirigirá a leitura dramática do roteiro de “As garotinhas e a morte”, um dos mais de quarenta projetos inacabados de Sarah Maldoror, dia 6, às 19h. A mostra também exibirá quatro curtas-metragens de Safira Moreira.
Sobre Sarah Maldoror
Nascida na França, filha de pai guadalupense, Sarah Maldoror (1929-2020) foi uma figura central do cinema anticolonial. A cineasta construiu uma filmografia de mais de quarenta títulos que documentam e ficcionalizam as frentes de libertação em Angola, Guiné-Bissau e Cabo Verde, além de tratarem de temas como a imigração, o engajamento político e o pensamento decolonial. Sua estética diferencia-se por fundir o rigor político à sensibilidade poética, deslocando o olhar para a subjetividade humana e, fundamentalmente, para o protagonismo feminino nas insurgências africanas.
"Faz dez anos que planejamos uma retrospectiva da obra de Sarah Maldoror. Os filmes dela falam da luta contra o colonialismo, o racismo, o preconceito. Ela se interessou pelos imigrantes na França e por intelectuais precursores do pensamento decolonial, como Aimé Césaire e Léopold Senghor. São discussões extremamente necessárias em nosso contexto atual", diz Lúcia Monteiro, uma das curadoras.
“Esta mostra faz parte de uma movimentação mais ampla, que nos últimos anos tem reposicionado a figura e a produção de Sarah Maldoror na história do cinema. Por isso, acreditamos que iniciativas como essa colaboram tanto para o conhecimento do público em geral, quanto para o aprofundamento e reflexão dos críticos e pesquisadores”, assinala Izabel de Fátima Cruz Melo, também curadora.
"É uma grande alegria apresentar ao público brasileiro esse panorama da obra de Sarah Maldoror, em diálogo com atividades que fortalecem a difusão de seus filmes. Inaugurar a primeira mostra de cinema no CCBB Salvador torna este momento ainda mais especial", declara Leticia Santinon, produtora executiva que também responde pela curadoria.
Com patrocínio do Banco do Brasil, “O Cinema anticolonial de Sarah Maldoror” é uma produção da Vasto Mundo, com a idealização de Lúcia Monteiro, coordenação geral e produção executiva de Leticia Santinon. A programação está disponível em bb.com.br/cultura. A mostra acontece também no CCBB Rio de Janeiro, de 19/02 a 16/03, e em São Paulo, de 21 de fevereiro a 22 de março.
Programação
5 de março (quinta-feira)
18h – Monangambé – Direção: Sarah Maldoror
(Monangambeee, 1968, 17 min, Angola/França. Classificação: 14 anos)
Sinopse: Os abusos dos traficantes de escravos portugueses em sua colônia de Angola são retratados por meio da tortura de um prisioneiro, fundamentada na ignorância e na incompreensão.
18h – Alma no olho – Direção: Zózimo Bulbul
(Alma no olho, 1973, 11 min, Brasil. Classificação: 14 anos)
Sinopse: Metáfora sobre a escravidão e a busca pela liberdade por meio da transformação interna do ser, em um jogo de imagens de inspiração concretista.
19h – Sambizanga – Direção: Sarah Maldoror
(Sambizanga, 1972, 97 min., Angola/França. Classificação: 14 anos)
Sinopse: Domingos é membro de um movimento de libertação africano, preso pela polícia secreta portuguesa, após eventos sangrentos em Angola. Ele não trai seus companheiros, mas é espancado até a morte na prisão, e sem saber que ele morreu, sua esposa percorre diversas prisões, tentando em vão descobrir o seu paradeiro.
6 de março (sexta-feira)
17h - Uma sobremesa para Constance – Direção: Sarah Maldoror (Un dessert pour Constance, 1981, 63 min, França. Classificação: 14 anos)
Sinopse: Nos anos 70, Bokolo e Mamadou, varredores na cidade de Paris, buscam uma maneira de custear o retorno para casa de um de seus companheiros doentes.
19h - Leitura dramática do roteiro inédito “As garotinhas e a morte”
Direção: Safira Moreira
7 de março (sábado)
16h30 – Sessão Carnaval
Fogo, uma ilha em chamas – Direção: Sarah Maldoror
(Fogo, l'île de feu, 1979, 23 min, Cabo Verde/França. Classificação: 14 anos)
Sinopse: A Ilha do Fogo, em Cabo Verde, é o cenário deste documentário dos anos 70 produzido pelo governo revolucionário do novo país, no qual a diretora optou por uma abordagem antropológica. O filme lança um olhar belíssimo sobre uma nação no início de sua independência.
Carnaval no Sahel – Direção: Sarah Maldoror
(Un carnaval dans le Sahel, 1979, 23 min, Cabo Verde. Classificação: 14 anos)
Sinopse: O Carnaval é um evento e uma festividade em que os limites podem ser transgredidos em um contexto repleto de música, sensações e texturas. Neste filme, ele é também o ponto de partida para uma abordagem sobre a história da cultura negra e do colonialismo, com conceitos de identidade e negritude ocupando o centro da cena.
Em Bissau, o carnaval – Direção: Sarah Maldoror
(Carnival en Guinée-Bissau, 1980, 13 min., Guiné-Bissau. Classificação: 14 anos)
Sinopse: Um curta-metragem documental que aborda como os habitantes da Guiné-Bissau enxergam sua identidade e cultura negra, tendo como pano de fundo a celebração anual do Carnaval.
18h - Debate: Sarah Maldoror e os cineastas africanos
Convidadas: Amaranta César e Annouchka
10 de março (terça-feira)
17h - Curso de preservação: Restaurar arquivos em vídeo da televisão com Nathanaël, Debora Butruce, Eduardo Morettin e Marcelo Ribeiro
19h - Poesia em Movimento: Louis Aragon, uma máscara em Paris, René Depestre, poeta haitiano e Léon G. Damas, com comentários de Nathanael Arnould
11 de março (quarta-feira)
19h - A batalha de Argel – Direção: Gillo Pontecorvo
(La battaglia di Algeri, 1966, 121 min., Argélia/Itália. Classificação: 14 anos)
Sinopse: Nos anos 1950, o medo e a violência aumentam à medida que o povo da Argélia luta pela independência do governo francês. Sarah Maldoror foi assistente de Pontecorvo nas filmagens.
12 de março (quinta-feira)
19h - O hospital de Leningrado – Direção: Sarah Maldoror
(L'hôpital de Leningrad, 1983, 58 min, França. Classificação: 14 anos)
Sinopse: Uma história de prisão política ambientada em um hospital psiquiátrico, onde a polícia estatal de Stalin colocava seus opositores. A narrativa é fiel ao texto original, um conto do escritor russo Victor Serge.
13 de março (sexta-feira)
17h - E os cães se calavam – Direção: Sarah Maldoror
(Et les chiens se taisaient, 1976, 13 min., França. Classificação: 14 anos)
Sinopse: Peça teatral cuja narrativa foca na rebelião de um homem contra a escravização de seu povo, filmada no interior do Musée de l'Homme, em Paris. Com atuações de Gabriel Glissant e Sarah Maldoror.
17h - Aimé Césaire, a máscara das palavras – Direção: Sarah Maldoror
(Aimé Césaire, the mask of words, 1987, 47 min., Estados Unidos/Martinica. Classificação: 14 anos)
Sinopse: Dez anos após realizar seu primeiro filme em torno do poeta surrealista, dramaturgo, ativista e político martinicano Aimé Césaire, Sarah Maldoror volta a esta figura na ocasião em que recebe uma importante homenagem nos EUA. Ideólogo do conceito de "negritude", na entrevista que concede a Maldoror, Césaire fala de sua trajetória, reflete sobre história, colonialismo, preconceitos e sobre o papel da poesia.
18h30 - Sem Sol – Direção: Chris Marker (Sans soleil, 1983, 104 min., França. Classificação: 14 anos)
Sinopse: Uma mulher narra os escritos contemplativos de um viajante do mundo experiente, com foco no Japão contemporâneo.
14 de março (sábado)
17h – Sessão Sarah Assistente
Elas – Direção: Ahmed Lallem
(Elles, 1966, 22 min, Argélia. Classificação: 14 anos)
Sinopse: No período pós-independência, estudantes argelinas do ensino médio falam sobre suas vidas e comentam como vislumbram o futuro, a democracia e o seu lugar na sociedade. Sarah Maldoror foi assistente de Lallem nas filmagens.
O legado da coruja – Episódio 7 – Direção: Chris Marker
(L'héritage de la chouette - "Logomachie ou Les mots de la tribu", 1990, 27 min., França. Classificação: 14 anos)
Sinopse: Cineastas ensaístas como Marker e Godard adoram jogos de palavras. Aqui, conforme as imagens mostram como vocábulos de origem grega permeiam a nossa mídia, as placas de rua e até mesmo os grafites, mergulhamos, sob uma perspectiva semiótica, nas bases da própria fala.
18h30 - Prefácio a Fuzis para Banta – Direção: Mathieu Kleyebe Abonnenc
(Préface à Des fusils pour Banta, 2011, 28 minutos, França. Classificação: 14 anos)
Sessão comentada por Emi Kode
Sinopse: Uma elegia ao filme perdido de Sarah Maldoror, "Fuzis para Banta", filmado em 1970 na Guiné-Bissau, durante a guerra de independência e confiscado durante a montagem, na Argélia. Abonnenc estrutura seu filme em torno das fotografias de cena, das anotações do roteiro e de conversas com Sarah Maldoror.
17 de março (terça-feira)
19h - Sessão Poesia em Movimento: Louis Aragon, uma máscara em Paris; René Depestre, poeta
Haitiano; Léon G. Damas. Sessão comentada por Lecco França
18 de março (quarta-feira)
19h – Sessão Retratos de Mulheres, Retratos da Negritude
Abertura do teatro negro em Paris – Direção: Sarah Maldoror
(L'ouverture du théâtre noir à Paris, 1980, 6 min, França)
Sinopse: Reportagem de Sarah Maldoror sobre um novo centro cultural de Paris, dedicado ao teatro negro.
Retrato de uma mulher africana – Direção: Sarah Maldoror
(Portrait d'une femme africaine, 1985, 3 min., França. Classificação: Livre)
Sinopse: Reportagem televisiva a respeito da imigração de senegaleses para a França. A cineasta acompanha uma jovem cozinheira senegalesa, que trabalha em um centro de acolhimento para trabalhadores estrangeiros.
Christiane Diop – Direção: Sarah Maldoror
(Christiane Diop, 1985, 6 min, França)
Sinopse: Reportagem dedicada a Christiane Diop, que comanda a livraria e editora Présence Africaine desde a morte de seu companheiro, Alioune Diop, em 1980.
Primeiro encontro internacional das mulheres negras – Direção: Sarah Maldoror
(Première rencontre internationale des femmes noires, 1986, 6 min., França)
Sinopse: Reportagem sobre o encontro ocorrido em novembro de 1986, em Paris.
Assia Djebar – Direção: Sarah Maldoror
(Assia Djebar, 1987, 7 min, França)
Sinopse: Reportagem televisiva sobre a escritora argelina Assia Djebar, por ocasião do lançamento de seu livro "Sombra sultana". A autora reflete em voz alta sobre as mulheres no mundo árabe, sobre sua relação com o medo, o cerceamento no espaço doméstico e a esperança de ganhar a luz do exterior.
Ana Mercedes Hoyos – Direção: Sarah Maldoror
(Ana Mercedes Hoyos, 2009, 13 min, França/Colômbia)
Sessão comentada por Kenia Freitas
Documentário dedicado à pintora e escultora colombiana Ana Mercedes Hoyos. Atenta à multiculturalidade colombiana e em especial à presença negra e à história da escravidão na Colômbia, a artista desenvolveu uma relação especial com a população do Palenque de São Basílio, quilombo próximo de Cartagena, considerado o primeiro povo livre das Américas.
19 de março (quinta-feira)
19h – Sessão Curtas de Sara Gomez
Na outra ilha – Direção: Sara Gómez
(En la otra isla,1968, 41 minutos, Cuba. Classificação: 14 anos)
Sinopse: Sara Gómez entrevista habitantes da Ilha da Juventude, em Cuba (então conhecida como Ilha de Pinos), capturando suas perspectivas sobre diversas questões sociais.
Uma ilha para Miguel – Direção: Sara Gómez
(Una isla para Miguel, 1968, 22 minutos, Cuba. Classificação: 14 anos)
Sinopse: Miguel, um de 12 filhos oriundos de um bairro pobre de Havana, é enviado pela família para a "Isla de Pinos", para se tornar um novo homem. Gómez aponta a sua câmara para este território, para onde os marginalizados (jovens, negros, pobres, homossexuais, religiosos, hippies) eram enviados para trabalho e reeducação forçados.
Ilha do tesouro – Direção: Sara Gómez
(Isla del tesoro, 1969, 9 minutos, Cuba. Classificação: 14 anos)
Sinopse: Uma curta evocação poética de Sara Gómez sobre a Ilha de Pinos, a ilha onde Fidel Castro foi preso por Batista e onde a revolução constrói uma nova sociedade. O filme apresenta uma justaposição da prisão Presídio Modelo com a produção de cítricos
20 de março (sexta-feira)
18h – Monangambé e Alma no Olho – Direção: Sarah Maldoror
19h - Uma sobremesa para Constance – Direção: Sarah Maldoror
21 de março (sábado)
19h – Sambizanga – Direção: Sarah Maldoror
24 de março (terça-feira)
19h – Sessão Sarah Assistente: Elas – Direção: Ahmed Lallem e O legado da coruja – Episódio 7 – Direção: Chris Marker
Serviço
Retrospectiva “O Cinema anticolonial de Sarah Maldoror”
Quando: 5 a 24 de março de 2026 (quinta a sábado, a partir das 15h)
Onde: Sala de Cinema Walter da Silveira - Rua General Labatut, 27, Barris, Salvador/BA
Quanto: Entrada gratuita (ingressos disponíveis na bilheteria)
Classificação indicativa: 14 anos
Mais informações: bb.com.br/cultura | instagram.com/ccbbsalvadorbahia