Foto: André Souza
O tradicional desfile de emoção e civismo ocupou o Centro Histórico de Salvador, nesta quinta-feira, 2 de Julho, dia da Independência do Brasil na Bahia. Fazendo parte da trilha sonora desse movimento, 10 bandas filarmônicas que foram contempladas via edital da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb), mais uma agremiação convidada, executaram seus característicos hinos, dobrados e marchinhas para celebrar a memória de populares, negros libertos, indígenas e mulheres que, há 203 anos, expulsaram as tropas portuguesas da Bahia, consolidando a separação definitiva do Brasil de Portugal.
"É uma alegria encerrar essa gestão ampliando. Ampliamos os valores de pagamento de cachê, o auxílio transporte e atualizamos a forma de contratação, isso facilitou tudo. Todas que estão aqui receberam o recurso e isso facilita toda a logística de quem vem de longe. Encerrar a gestão considerando um percurso de melhoria pra gente é muito importante porque a filarmônica é um símbolo, é um patrimônio imaterial da Bahia, da Independência da Bahia e, portanto, do 2 de Julho", valorizou Gabriela Sandyeggo, diretora das Artes da Funceb.
Da concentração no Instituto Central de Educação Isaías Alves (Iceia) até o Largo do Terreiro de Jesus, passando pelo Santo Antônio Além do Carmo e Pelourinho, as bandas eram saudadas por quem passava e também por moradores em suas fachadas e ruas decoradas de verde, amarelo, azul, vermelho e branco.
Primeira a desfilar, a Instituição Filantrópica e Recreativa Terpsícore Popular levou os dobrados próprios da cidade de Maragogipe para celebrar a data cívica com seus integrantes vestidos de vermelho e branco. “É muito gratificante estar aqui, é um grande incentivo às filarmônicas e a gente fica sempre esperando por esse momento que é muito importante para todos nós”, disse o regente Roque Adson. Já no final do desfile, em um momento de emoção, a filarmônica fez a tradicional parada em frente à Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e tocou para as senhoras da Irmandade da Boa Morte e para o capelão padre Lázaro da Silva Muniz.
Em seguida, foi a vez da Filarmônica 5 de Março de Muritiba, que passou pelo circuito em seu uniforme de gala azul chamando atenção do público e atraindo interações. “Para nós é sempre prazeroso estar aqui, não é a primeira vez e espero que não seja a última. Ficamos quatro anos de fora, dessa vez fomos contemplados no edital e viemos com toda alegria e satisfação para abrilhantar muito mais essa festa maravilhosa que é o 2 de Julho”, disse o presidente Alfeu Fraga. Os músicos tocaram um repertório tradicional na intenção de preservar a cultura musical das filarmônicas.
A Filarmônica Lyra Popular de Belmonte levou três músicas novas no repertório, além do Hino ao 2 de Julho e o hino do Esporte Clube Bahia, ambos em marcha militar. Como sempre acontece nas festas populares do estado, os torcedores tricolores puxaram o canto e saíram acompanhando a banda pelo restante do percurso. “Pra gente é sempre uma alegria, uma satisfação imensa voltar a esse evento maravilhoso que é o 2 de Julho. A gente já vem há uns 10 anos direto e é sempre como se fosse o primeiro ano”, reforçou o maestro João Reis de Jesus Fontes.
De volta ao desfile após 12 anos de ausência, a Filarmônica Lira de Santo Antônio de Caravelas viveu um momento especial porque a maioria dos integrantes não conhecia a capital baiana. “É bastante emocionante e satisfatório participar. Estivemos aqui em 2013 e 2014, então tem 12 anos que a gente não vem a Salvador. Acho que 80% da geração atual não conhece a capital, independente de vir para a filarmônica ou não, e nós estávamos muito ansiosos. Ficamos muito felizes por termos sido contemplados nesse edital”, contou o maestro Samuel Oliveira Paixão, à frente de mais uma homenagem ao futebol, ao reger o tema da Copa do Mundo “Coração Verde Amarelo” para incentivar a Seleção Brasileira.
Depois, veio a estreante Filarmônica União dos Ferroviários Bonfinense. Muito emocionados pela novidade, também foram aplaudidos pelo público e tocaram em frente à Igreja do Rosário dos Pretos. “A emoção é grande. Viemos com um repertório bastante eclético, com dobrados, com música popular, principalmente muito axé, um pouquinho de forró, porque nossa cidade é considerada a capital baiana do forró", contou o maestro e presidente Élber César. Como uma carta na manga, ele e os músicos apresentaram uma versão do sucesso "Baianidade nagô" e conquistaram quem acompanhava. “É a mais especial do repertório”, disse.
Alinhados ao propósito de representar o simbolismo das filarmônicas, que representam a vitória nas batalhas pela independência, os músicos da Filarmônica Lítero Musical 25 de Dezembro tocaram dobrados antigos e hinos, como o Hino ao 2 de Julho. “Participar é tão importante porque relembra tudo que foi feito pelo Brasil na Bahia e as filarmônicas representam isso. Elas vieram para o Brasil trazidas pela família real e depois foram inseridas principalmente nos interiores. Então, participar nos recorda do que já fazemos em nossas cidades que é falar desse momento histórico, da nossa liberdade, da nossa cultura”, comentou o regente Levi Maia.
A Filarmônica Guerreiros do Sol de Dias D’Ávila apostou no repertório acumulado e transmitido pelos mestres antepassados da região. A promessa do maestro André Carlos de transportar o público a outra época foi cumprida, emocionando quem seguia e aplaudia a agremiação. “Estamos aqui prestigiando essa data magna da nossa terra baiana e podendo trazer as nossas tradições em resposta e homenagem aos nossos heróis que foram responsáveis pela nossa Independência. A filarmônica trouxe todos os dobrados dos nossos antepassados, nossos mestres, que deixaram essa carga de herança pra gente. Vamos curtir isso e a turma toda vai voltar o tempo”, antecipou.
Reativada em 2023, a Filarmônica Lyra Popular de Mucugê remontou às obras do maestro idealizador da primeira lira no século XIX, Júlio César, com o dobrado “Bode Preto” e peças de outros compositores do Recôncavo como Heráclio Paraguassu Guerreiro (1877-1950). “É fundamental estar aqui porque a nossa filarmônica é um resgate histórico que remonta a um contexto ainda do século XIX. A primeira filarmônica de Mucugê foi reativada no ano de 2023 por músicos da própria comunidade, então fazer parte desse momento, 203 anos desse marco histórico da Independência do Brasil na Bahia, é fundamental para concretizar essa história que vem direto da Chapada Diamantina”, observou o maestro Rodrigo Reis. Mas ele foi além e o público vibrou com versões de “Andar com fé”, de Gilberto Gil, “Lucro”, do Baiana System e “Abertura na levada”, do maestro Fred Dantas.
Bem humorado, o presidente da Sociedade Filarmônica Lyra Popular de Castro Alves, Ednaldo dos Santos Mello, resumiu o sentimento da agremiação. “Não tem nada mais gratificante do que participar da bagunça mais organizada que eu já vi na minha vida que é o desfile ao 2 de Julho. Quando eu chamo de bagunça é que eu nunca vi desfile igual em lugar nenhum do mundo”, justificou. Nesse clima, ele passou o percurso com um repertório de peças originais do Recôncavo como os dobrados e as marchas de compositores como Amando Nobre.
Convidada a desfilar, a Sociedade Filarmônica Euterpe Cruzalmense não escondia a empolgação por estar entre tantas coirmãs de diversas regiões da Bahia, algumas mais jovens, outras mais antigas, todas guardiãs da história da independência brasileira. “Pra gente é importantíssimo, é sempre o evento mais esperado do ano porque estamos comemorando a Independência do Brasil que aconteceu aqui na Bahia. Também é onde nós conseguimos mostrar o nosso trabalho para toda a comunidade baiana”, resumiu Pedro Barbosa, presidente da entidade, que desfilou o repertório de dobrados e marchinhas típico desta modalidade de grupo musical.
Última a atravessar o percurso do Barbalho até o Terreiro de Jesus, a Filarmônica União Sanfelixta passou pela multidão tocando dobrados cívicos imponentes. Nem o pequeno atraso por conta do trânsito engarrafado, antes da chegada à concentração no Iceia, tirou a disposição de maestro e componentes de se apresentar na festa cívica. "É um marco para a história do nosso estado, então, participar desse encontro, não só com as filarmônicas, mas juntamente com as fanfarras, é de grande valia para nossa entidade e para nossa cidade pois estamos representando o Recôncavo e o estado da Bahia”, ressaltou o maestro André Luís.