O primeiro Anuário ISPE, produzido pelo Instituto de Segurança Pública, Estatística e Pesquisa Criminal da Polícia Civil da Bahia (ISPE), já está à disposição. A publicação reúne os principais indicadores de 2024 e inaugura uma nova fase no modo como o estado lida com os números da segurança: não apenas como estatística, mas como ferramenta estratégica de gestão pública e insumo valioso para a produção acadêmica.
O documento vai além da contagem de ocorrências. Ele analisa séries históricas, organiza mapas e interpreta tendências para compreender como, onde e por que a violência se manifesta. A leitura crítica transforma os dados em um mapa estratégico para políticas públicas e em fonte de pesquisa para universidades, especialistas e sociedade civil.
“O anuário mostra que a Bahia aprendeu a usar seus dados como instrumento de transformação. Não olhamos apenas para o passado, mas para o futuro, orientando nossas estratégias e oferecendo subsídios para que a sociedade e o poder público construam juntos soluções mais duradouras”, afirmou o delegado Omar Andrade Leal, diretor do ISPE.
Queda consistente nos crimes letais
O anuário traz uma das notícias mais significativas para a segurança pública baiana: a redução contínua dos Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLI). Em 2024, foram 4.461 vítimas, número 8,3% menor que os 4.863 de 2023.
A trajetória de queda vem desde 2021, quando foram registrados 5.594 CVLI. Em 2022, o número caiu para 5.164, uma redução de 7,7%. Em 2023, foram 4.863 (-5,8%) e, em 2024, 4.461 (-8,3%). Em quatro anos, houve 1.133 mortes a menos, equivalente a 20,25% de redução.
A taxa estadual caiu de 34 para 30 vítimas por 100 mil habitantes, sinalizando uma estabilização em patamares menos críticos. Salvador reduziu os registros em 11,9% e
a Região Metropolitana alcançou queda de 13,7%, desempenhando papel decisivo no resultado estadual.
Investigação mais produtiva e resolutiva
A queda da violência letal foi acompanhada de maior produtividade investigativa da Polícia Civil. Em 2024, foram instaurados 45.782 inquéritos, contra 43.235 em 2023, um crescimento de 5,9%.
A taxa de esclarecimento também avançou, passando de 34,7% em 2023 para 38,2% em 2024. Isso significa que quase 4 em cada 10 inquéritos concluídos identificaram os autores dos crimes, índice superior à média nacional.
“Esse é um dado de enorme relevância: significa que estamos investigando mais e melhor. A população precisa confiar que, ao registrar um crime, haverá resposta. E o anuário mostra que essa resposta está sendo cada vez mais efetiva”, destacou Leal.
Crimes patrimoniais: quedas e migração para o digital
Nos crimes contra o patrimônio, a Bahia obteve resultados expressivos. Os roubos caíram 22% e os furtos, 6%, reflexo de operações de inteligência e maior presença policial em áreas críticas. Entretanto, os estelionatos cresceram 13% e se tornaram o crime patrimonial mais numeroso em 2024, superando os furtos.
Apropriação indébita (+31%) e extorsão (+30%) também registraram aumento. O anuário aponta que a criminalidade está migrando para o ambiente digital.
Violência de gênero: avanços e retrocessos
A violência contra a mulher é tratada com destaque. Em 2024, a Bahia registrou 111 feminicídios, contra 115 em 2023, tendo uma queda de 3,5%. No entanto, as tentativas cresceram 31%, atingindo 235 mulheres.
Em Salvador, os feminicídios caíram de 20 para 9 (-55%). No interior, porém, houve aumento de 9,2%. Isso revela que as políticas de proteção estão mais consolidadas nos grandes centros urbanos, mas ainda encontram barreiras em cidades menores.
Outros indicadores também cresceram: violência psicológica (+6,5%), moral (+6,2%), patrimonial (+5%), sexual (+5,1%) e física (+3,9%). Os pedidos de medidas protetivas subiram 5,9%.
A rede de proteção à mulher na Bahia conta atualmente com 15 Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs), distribuídas em 14 municípios, incluindo Salvador (que possui duas unidades), além de cidades como Feira de Santana, Juazeiro, Ilhéus, Itabuna e Vitória da Conquista. Complementando a estrutura, existem 13 Núcleos Especiais de Atendimento à Mulher (NEAMs), um em Salvador e outros 12 no interior, em locais como Brumado, Jacobina, Serrinha e Santo Antônio de Jesus.
Em 2023, houve avanços importantes: foi criada a Casa da Mulher Brasileira em Salvador, que passou a abrigar a DEAM de Brotas, e instituído o Departamento de Proteção à Mulher, Cidadania e Pessoas Vulneráveis (DPMCV), responsável por coordenar de forma integrada as ações de investigação e atendimento. Já em 2024 e 2025, novas unidades foram implantadas, como os NEAMs de Lauro de Freitas, Eunápolis, Itapetinga e Santa Maria da Vitória, ampliando a cobertura da rede de acolhimento e especialização da Polícia Civil no combate à violência de gênero.
Um marco para a academia e para a gestão pública
Mais do que uma ferramenta técnica, o anuário se consolida como documento de Estado. Fruto de uma cultura estatística iniciada em 2008, o ISPE hoje conta com equipe multidisciplinar com economistas, estatísticos, sociólogos, geógrafos e antropólogos. Além disso, mantém parceria com o Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva e Segurança Pública (NEESP/Uneb).
A publicação, além de apoiar o planejamento das polícias, também serve de base para gestores estaduais e municipais, permitindo alinhar políticas de segurança, saúde, educação e assistência social. Para a academia, representa um banco de dados sólido, transparente e atualizado, que possibilita compreender a violência em sua complexidade e propor soluções mais efetivas.
“O ISPE é um centro de conhecimento. Recebemos pedidos de prefeituras, como a de Juazeiro, que solicitou nossos dados para planejar políticas locais. Estudantes de graduação e pós-graduação nos procuram para teses. Isso mostra que os dados que produzimos servem não só à polícia, mas à sociedade como um todo”, afirmou Omar Leal.
Perspectivas para o futuro
Os dados preliminares de 2025 reforçam a tendência de queda. De janeiro a julho, foram registrados 2.383 CVLI, contra 2.551 no mesmo período de 2023, uma redução de 6,6%.
A meta do governo é encerrar o ano dentro desse patamar, com índices atrelados ao Prêmio por Desempenho Policial (PDP), que recompensa policiais da ativa quando as metas de redução são atingidas.
“Esse é o nosso maior ganho: usar a ciência de dados para construir soluções reais. A Bahia dá um passo firme ao transformar estatística em política pública, e esse é um caminho sem volta”, concluiu o delegado Omar Andrade Leal.
Versão PDF: https://www.ba.gov.br/policiacivil/sites/site-pcba/files/2025-09/Anuario%20PCBA.pdf
Versão Flip: https://online.fliphtml5.com/cudtf/kjoy/