06/10/2010
No mesmo período em que a 29ª Bienal de São Paulo está em cartaz estimulando a discussão sobre a relação entre a Arte & Política, o projeto iniciado por oito artistas baianos em 2008 é finalmente apresentado ao público de Salvador abordando esse mesmo tema. Opinyon resgata a atitude e a produção artística interessadas em provocar reflexões e questionamentos, apresentando obras de arte contemporâneas que buscam o dialogo com a arte conceitual e de vanguarda. O projeto Opinyon tem a participação e curadoria do artista visual e cineasta Henrique Dantas (diretor do documentário sobre os Novos Baianos, Os Filhos de João), que reuniu os polêmicos Adriano Castro e Wiliam A., o premiado Vinícius S.A., além de Erivam Morais, Fábio Magalhães, Flávio Lopes e Maurício Alfaya para realizar uma exposição de mesmo nome, na Galeria do Conselho Estadual de Cultura, e intervenções urbanas pelas ruas da cidade, registradas em vídeo. A abertura acontece no dia 08 de outubro (sexta), às 19h, com a presença de todos os artistas e lançamento do catálogo da exposição.
Opinyon (opinião, em crioulo haitiano) é uma exposição que reúne propostas independentes, opiniões políticas colocadas nas ruas durante as eleições de 2010, dividindo o espaço com a enxurrada de propagandas políticas. Juntos, Adriano Castro, Erivam Morais, Fábio Magalhães, Flávio Lopes, Henrique Dantas, Maurício Alfaya, Wiliam A. e Vinicius S.A. vão apresentar obras com técnicas diferenciadas, como gravura, instalação, objeto, colagens, fotografia, vídeo e outras.
“Nas obras expostas, é possível identificar aspectos sociais, religiosos, tecnológicos e comportamentais abordados através de propostas artísticas, sem, no entanto, desprezar os seus aspectos formais ou estéticos”, explica Henrique Dantas, que também apresenta trabalhos na exposição e, como curador, procurou apenas facilitar o caminho da exposição, tendo cuidado para não interferir nos trabalhos dos artistas.
“A importância desta proposta reside na força da expressão coletiva, na soma das individualidades. Acreditamos que a postura política do artista deve ser algo constante. Devemos estar sempre atentos, em estado de vigília com o nosso entorno, o qual, numa sociedade cada vez mais paralisada, sentimos a necessidade visceral de provocar”, finaliza.
A exposição Opinyon foi viabilizada graças ao Edital Matilde Matos de Apoio à Curadoria e Montagem de Exposições, da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia – SECULT-BA, através da Fundação Cultural do Estado da Bahia - FUNCEB.
COMENTÁRIOS DOS ARTISTAS SOBRE AS SUAS PROPOSTAS
ADRIANO CASTRO - Gravura Urbana
"Acredito que uma das principais funções da arte é questionar. É levar o indivíduo a ter uma opinião crítica sobre algum tema. E nada melhor do que uma exposição de arte urbana para que isso seja levado a um maior número de pessoas. A arte urbana tem a característica de não aceitar controle e nem censura. Terreno fértil para a disseminação de idéias, seja em Salvador ou em Havana. Existem países como Cuba, Venezuela, Irã, Coréia do Norte, onde a liberdade de expressão não existe. Pessoas são presas apenas por discordarem do regime. Em minhas gravuras mostro essas pessoas, como Orlando Zapata, preso político morto enquanto protestava contra as prisões de consciência, e Guillermo Fariñas, também preso político em greve de fome, deportado para a Espanha pela ditadura cubana. Este trabalho é uma homenagem a todas as pessoas que não podem se expressar livremente".
ERIVAM MORAIS - Privando Olhares
"Privar ou privatizar uma paisagem é a proposta. A minha intervenção urbana busca integrar o público de maneira perspicaz e alertar de forma irônica e indireta as disposições do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano da cidade. Uma paisagem plástica dificulta a vista dos transeuntes para as paisagens naturais da cidade. Indica um problema que já é uma constante na Salvador de Todos os Empreiteiros - a exclusão das minorias e do natural em detrimento de um desenvolvimento duvidoso, mal planejado e destrutivo”.
FÁBIO MAGALHÃES - Trouxas
"Como deslocar a pintura da tela e levá-la para a rua? Para solucionar tal impasse, entre tradição da técnica a óleo e as novas estéticas urbanas, assumi o risco recorrendo ao aparto dos álbuns infantis, as figurinhas autocolantes. Passeando pela ficção, com uma imagem brutal do meu próprio corpo esquartejado e envolto em uma trouxa plástica, busco subsídio para chacoalhar o estado amorfo em que nos encontramos. Minha ‘figurinha’, portanto, não pretende levantar nenhum questionamento acerca da banalização da violência, nem tão pouco retratá-la ou representá-la. Seu caráter latente é simplesmente promover um choque estético aos olhares que esbarrarem sobre ela”.
FLÁVIO LOPES - Procurando Emprego?
“Ainda que as relações entre arte e política postas em ação nesta mostra façam parte de uma extensa tradição do campo das artes, no Brasil, em função do obscurantismo desencadeado pelos governos militares, estas relações passaram a ser percebidas como manifestações absolutamente estranhas à arte. Os tipos ‘ideais’ elencados em ‘Procurando Emprego?’ podem ser observados, de modo geral, no panorama moral de muitas corporações, não sendo, de maneira alguma, predicado exclusivo do campo das artes. Contudo, esta performance tenta sistematizar as características comuns aos vários personagens que impregnaram a cena do ‘balcão de negócios’ em que se transformou por um tempo as relações entre a Secretaria de Cultura do Estado e o setor das artes visuais. É preciso reafirmar o espaço da arte como lugar, também, de reflexão política, resistindo de maneira incisiva às tentativas de sua domesticação”.
MAURICIO ALFAYA - Quem é contra?
“Este país tem uma dívida histórica para com a população negra! Fico perplexo com a incapacidade de muitos entenderem esta lógica, que me parece óbvia, de implantação do regime de cotas raciais nas universidades públicas do Brasil. Em que mundo vivem estas pessoas? Em que país vivem estas pessoas? O que mais se ouve, daqueles que são contra, é: ‘Defender as cotas é racismo’. Ora, dizer que a política de cotas institui o racismo num ‘país onde esta prática não existe’ é, no mínimo, ingenuidade, e, no máximo, hipocrisia. Penso que estas pessoas vivem num país de faz-de-conta. Não só o Estado, como toda a sociedade civil e fundamentalmente as instituições de ensino, têm uma dívida secular que, paga, trará avanços para fazermos deste país uma verdadeira nação”.
VINICIUS S.A. – Opinião
“Como poderíamos fazer um trabalho de caráter panfletário e político dentro da Galeria do Conselho? Qual seria o nosso público alvo? Uma galeria, a meu ver, não se configura como um espaço de discussão. Estamos diante de um problema espacial e de fluxo. Precisamos potencializar nossos espaços. (...) Nos últimos anos, avançamos bastante no acesso ao patrocínio público, nos libertamos da política que beneficiava apenas meia dúzia de artistas e da cultura voltada ao turismo, que dava ênfase a uma Bahia estereotipada, em detrimento de uma cultura contemporânea e globalizada. Porém, ainda temos graves problemas que precisam ser corrigidos e o contato entre nós, artistas do ‘Opinyon’, ao longo destes dois anos, foi bastante produtivo para debater e explicitar estas questões”.