25/11/2010
A Corte Celestial, como o pernambucano Abelardo Rodrigues chamava a sua coleção de arte sacra - a terceira maior desse gênero no Brasil e a maior coleção particular do país - será apresentada ao público com nova expografia a partir do próximo dia 25 de novembro, às 19h, no Centro Cultural Solar Ferrão (Pelourinho). A exposição de longa-duração As Imagens da Fé – Coleção Museu Abelardo Rodrigues apresenta cerca de 800 peças da coleção adquirida Estado da Bahia após disputa com o Governo de Pernambuco, em 1975. Agora, toda a riqueza e a diversidade do acervo que expressa a religiosidade e a fé do povo brasileiro estão à disposição do público, ao lado das outras coleções expostas no Centro Cultural Solar Ferrão, que se consolida como o principal centro cultural do Pelourinho e o maior complexo expositivo da cidade.
Na exposição As Imagens da Fé – Coleção Museu Abelardo Rodrigues, realizada pela Diretoria de Museus do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (DIMUS/IPAC), unidade da Secretaria de Cultura do Estado, o público poderá conhecer os crucifixos, oratórios, maquinetas, imagens, pinturas e fragmentos de talha adquiridos pelo colecionador Abelardo Rodrigues ao longo de sua vida. Seu gosto apurado e sua paixão pelas imagens religiosas cristãs o fizeram compor uma das coleções de arte sacra mais prestigiada do país.
Para Daniel Rangel, Diretor de Museus do IPAC, a Coleção de Arte Sacra do Museu Abelardo Rodrigues representa o legado cristão, católico, do povo brasileiro. “Esta é uma herança marcante, principalmente na Bahia. Basta lembrar o ditado que diz que Salvador tem 365 igrejas, ou pensar na força da tradição das nossas festas populares, quase todas ligadas a santos católicos. Com a exposição desta coleção, estamos tratando estas imagens pelo seu valor estético, como fenômenos artísticos e culturais, propondo uma nova iconografia para as peças desta coleção”, disse Daniel, organizador da mostra que tem expografia do arquiteto paulista André Vainer, responsável também pelas montagens das outras coleções expostas no Ferrão – a de arte africana, de arte popular e de instrumentos e plásticas sonoras de Walter Smetak.
O projeto expográfico que ocupa o andar superior do Solar Ferrão tem como objetivo valorizar tanto o conjunto da coleção de Abelardo Rodrigues, quanto o próprio prédio do século XVIII que a abriga. “Os acervos estão expostos quase em sua totalidade, de maneira simples, democrática, possibilitando que o visitante tenha uma visão geral do conjunto, tanto das obras, quanto do espaço onde elas estão - que não é um espaço qualquer, mas um prédio histórico belíssimo”, explica André. Foi criado um mobiliário mínimo e discreto, e realizada a abertura de passagens e de arcos anteriormente fechados, possibilitando uma visão panorâmica e geral das obras e do prédio. “Este é o espaço nobre do Solar Ferrão. Com esta nova montagem, valorizamos os grandes salões, as colunas retorcidas, dando destaque não apenas às obras da coleção, mas ao próprio patrimônio edificado”, completa o diretor da DIMUS.
Com a exposição As Imagens da Fé – Coleção Museu Abelardo Rodrigues, o Centro Cultural Solar Ferrão oferece cinco andares livres para a visitação - três deles, novos espaços e coleções abertos ao público de 2009 a 2010, como a Sala Claudio Masella (com a exposição de arte africana Panáfrica); a sala Lina Bo Bardi (com exposição de arte popular Fragmentos: artefatos Populares - o Olhar de Lina Bo Bardi) e a Sala Walter Smetak (com a exposição de plásticas sonoras e instrumentos Smetak – O Alquimista do Som). O encontro entre estas diferentes expressões artísticas possibilita um diálogo único entre as matrizes identitárias que colaboraram para a formação do povo brasileiro: a portuguesa, a africana e a indígena. E o Solar Ferrão possui ainda um espaço dedicado a mostras temporárias - a Galeria Solar Ferrão -, que expõe a produção atual de artistas da Bahia e do Brasil.
SOBRE O ACERVO
Representativas de várias épocas, escolas e materiais, as peças que compõem o acervo de Abelardo Rodrigues são a expressão do trabalho erudito e popular realizado por artesãos, entre os séculos XVII e XX, no Brasil, sobretudo no Nordeste. Retratam, ainda, a riqueza e a diversidade da arte sacra brasileira, demonstrando as varias tendências e o fortalecimento das identidades regionais.
Nas palavras do museólogo da Diretoria de Museus, Guilherme Figueirêdo, responsável pela pesquisa dessa coleção:
“Abelardo Rodrigues, advogado pernambucano e colecionador, movido por uma forte paixão pela arte cristã, busca na expressão material da arte sacra a força da religiosidade, percorrendo o Brasil e o resto do mundo, especialmente o Nordeste, adquirindo peças em diversas localidades para modelar o seu universo.
Além de encontrar a beleza de formas manifestadas pela Igreja Católica, Abelardo se valeu da ênfase do aspecto devocional, do amor e da compaixão visualmente estimulados pela diversas representações dos momentos da história cristã. Assim, na coleção do Museu Abelardo Rodrigues abundam cruzes e crucificados, Virgens, mártires e Madonas, santos homens e santas mulheres recheados por uma doutrina religiosa; cabeças de imagens de roca ou de vestir com corpo de madeira tosca de estrutura aparente que um dia foram encharcadas de perfume, usando perucas de cabelos humanos e vestes reais, levados em procissões solenes e feéricas, em que não faltaram lágrimas e pecados confessos em alta voz.”
Adquirida pelo Governo do Estado da Bahia no ano de 1975 - após longa disputa com o Governo do Estado de Pernambuco, conhecida na época como “Guerra Santa” - a coleção foi mantida na integra em solo brasileiro, como assim pretendia o seu colecionador, inaugurando, em 1981, o Museu Abelardo Rodrigues.
ABELARDO RODRIGUES
Advogado, dentista, paisagista, poeta e pintor, Abelardo Rodrigues tornou-se colecionador por vocação. Nascido em Pernambuco, no ano de 1908, herdou do pai, Augusto Rodrigues, o gosto pela aquisição de objetos que lhe tocassem a alma. Empenhado em reunir material representativo da escultura religiosa cristã, começou por volta de 1930, sua peregrinação pelo Brasil, em especial, pelo Nordeste, dedicando sua vida à pesquisa e à aquisição de exemplares para sua coleção.
Aos poucos, o colecionador de gosto apurado conseguiu formar um acervo cuja riqueza estava na diversidade das peças e imagens dos séculos XVII ao XX. Ele fez de sua casa o seu mundo, lugar de suas coleções. Com ajuda da família, promovia a conservação, a imunização, a catalogação e o registro das obras. Um trabalho conjunto para construir e preservar um patrimônio artístico a ser legado à posteridade.
Abelardo participou do movimento de renovação estética da década de 1930, ao lado de artistas como Portinari, Goeldi, Heitor dos Prazeres, Dacosta e Pacetti. Além de criar o Museu de Arte Popular de Pernambuco, ao lado do artista Aloísio Magalhães, participou da criação do Museu de Arte Popular de Caruaru, em 1961 e fundou e presidiu a Escolinha de Arte do Recife. Em 1971, ao liderar a Campanha Popular contra a demolição da Igreja do Bom Jesus dos Martírios, em Pernambuco, sofreu um enfarte, morrendo em dezembro do mesmo ano.
Uma de suas grandes preocupações era o destino de suas coleções. Abelardo temia que os objetos que adquiriu ao longo da vida se dispersassem, ou pior, fossem levados para fora do país. Com seu falecimento, o patrimônio adquirido pelo colecionador ficou a cargo de seus familiares, os quais respeitaram e atenderam seu anseio. Em 1975, a família Rodrigues vende ao Governo do Estado da Bahia o seu acervo. Em 1981, foi inaugurado em Salvador o Museu Abelardo Rodrigues, implantado no Solar Ferrão, Pelourinho, garantindo com isso a integridade da coleção e o acesso do público à mesma.
IMAGENS DA FÉ
De acurado espírito crítico, Abelardo conseguiu reunir em sua coleção peças representativas de várias épocas e escolas, produzidas nos mais diferentes materiais tais como: barro, madeira, marfim e pedra-sabão, permitindo uma análise da arte sacra e suas peculiaridades. A Corte Celestial, como foi batizada pelo próprio Abelardo Rodrigues, tornou-se fonte de estudos e pesquisas sobre estilos artísticos – especialmente o barroco – além de temas como estética religiosa, iconografia, e religiosidade popular nas artes plásticas.
No acervo, crucifixos, oratórios, maquinetas, imagens, pinturas e fragmentos de talha servem de registro do trabalho erudito e popular realizado por artesãos brasileiros, entre os séculos XVII e XX, especialmente no Nordeste. A diversidade da coleção remete ao multiculturalismo e a miscigenação ocorrida no Brasil, além de evidenciar a forte presença da religiosidade na formação do povo brasileiro. O olhar atento do colecionador prezava não só pelo precioso e o raro, na escolha dos objetos era levado em consideração o inusitado das propostas, as tendências regionais e o histórico das peças.
CENTRO CULTURAL SOLAR FERRÃO
Considerada a “casa nobre” do Pelourinho, o Centro Cultural Solar Ferrão, desde setembro de 2008, tornou-se um espaço dinâmico, aberto ao público. É o maior e mais importante monumento da poligonal do Centro Histórico de Salvador, instalado num casarão do século XVIII, tombado como patrimônio brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em 27 de junho de 1938. O edifício de seis andares remonta à época em que os sobrados e solares eram símbolos de prestígio dos grupos sociais economicamente mais favorecidos. Foi construído em um grande declive que vai da Praça da Sé até a Avenida José Joaquim Seabra, antiga Rua da Vala, mais conhecida, local e nacionalmente, como Baixa dos Sapateiros.
Atualmente, o Centro Cultural abriga uma galeria de arte contemporânea e quatro importantes coleções (três delas, do Estado), expostas em salas distintas: a de arte sacra, do Museu Abelardo Rodrigues; a de arte africana, da coleção Claudio Masella; a de arte popular, da coleção Lina Bo Bardi; e a de instrumentos e plásticas-sonoras, da coleção Walter Smetak (de posse da família do músico, sob a salvaguarda da Secretaria de Cultura), além de uma galeria de arte, para mostras temporárias de curta duração, a Galeria Solar Ferrão.
SERVIÇO
O que: Exposição “As Imagens da Fé – Coleção Museu Abelardo Rodrigues”
Onde: Museu Abelardo Rodrigues - Centro Cultural Solar Ferrão (Rua Gregório de Mattos, 45, Pelourinho). Tel (71) 3117-6357
Quando: Abertura dia 25 de novembro (quinta-feira). Exposição de longa duração. Visitação: terça a sexta, das 10h às 18h. Fins de semana e feriados, das 13h às 17h.
Entrada gratuita
Realização: DIMUS/IPAC