16/12/2010
Em cartaz no Palácio da Aclamação a partir do dia 21 de dezembro (terça), a exposição Evento, do artista carioca Marcos Chaves, abre o calendário da segunda edição do Programa Ocupas - uma premiada realização da Diretoria de Museus do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (DIMUS/IPAC), reconhecida com o Prêmio Bravo Bradesco Prime de Cultura de Melhor Exposição em 2010. Nesta nova edição, o Programa mantém a proposta que alcançou grande repercussão junto à mídia e à crítica nacional, estimulando artistas brasileiros que são expoentes na cena contemporânea a criar projetos de sites specifics em relação direta com o Palácio da Aclamação. Agora, chega a vez de a DIMUS apresentar a primeira mostra individual na Bahia de Marcos Chaves, um dos mais atuantes e reconhecidos artistas da sua geração.
Na exposição Evento, Marcos Chaves transforma o elemento ar em protagonista, montando um site specific que cria diferentes efeitos do vento em sua relação com o espaço. “Evento é o acontecimento de uma ação no Palácio que se desenvolve a partir de três situações nas quais o vento é o principal elemento, interagindo com o espaço desse museu e seu acervo”. Na mostra, que fica em cartaz até o dia 27 de fevereiro de 2011, o artista utiliza os móveis que fazem parte do acervo deste antigo museu casa para a obra. “Não quis trazer elementos de fora. Por que não mostrar esses móveis, sob uma nova perspectiva? Quero fazer com que sejam vistos”, conta o artista, que além de criar objetos e instalações é também um fotógrafo sensível e se encantou com o Palácio e seu acervo.
Recentemente, seu trabalho foi exposto em mostras coletivas em galerias de Nova Iorque e Santiago do Chile, e no Instituto Tomie Ohtake e Sesc-Interlagos, ambas em São Paulo. Na Bahia, Marcos participou da mostra Escultura Plural, apresentada no MAM em 1996, e de duas edições consecutivas do Salão da Bahia, em 1997 e 1999, nesta última, Marcos recebeu Menção Honrosa.
Para Daniel Rangel, diretor de Museus do IPAC, curador do Programa Ocupas, o Palácio da Aclamação sempre se apresenta como um desafio para os artistas. Com Marcos Chaves, não foi diferente. “Os artistas se sentem estimulados, se empolgam com a proposta do Programa de realizar exposições a partir do diálogo com a história, o acervo, a arquitetura e/ou o entorno desse prédio, que é um lugar fantástico, aberto a mil possibilidades de intervenção. Além disso, o Programa ainda possibilita que eles façam projetos inusitados, arriscados, como criar um móbile com os móveis do acervo. Tudo isso é muito desafiador”, afirma Daniel, que dessa vez é também curador da exposição. Ele acredita que estes aspectos, inclusive, são responsáveis pela repercussão do Programa na imprensa nacional, através da qual Marcos Chaves conheceu a iniciativa.
Marcos conta que viu uma matéria sobre Roteiro para Visitação, a exposição de Carlito Carvalhosa, num jornal carioca. “Achei aquilo incrível! O lugar é lindo e a proposta muito interessante. Quando pouco tempo depois eu recebi o convite de Daniel Rangel para participar do Programa, já sabia do que se tratava. Meu intuito, a partir de então, foi criar uma situação escultórica que possibilitasse aos visitantes um olhar diferenciado deste prédio histórico. Ao observar as instalações - e através delas - cada pessoa poderá descobrir a riqueza do espaço que as abriga. Evento é, sem dúvida, uma das maiores e mais desafiadoras exposições da minha carreira”, disse o artista.
SOBRE A EXPOSIÇÃO
Evento destoa um pouco das obras anteriores de Marcos Chaves, onde o humor e a ironia eram mais evidentes. “Talvez eu esteja substituindo o humor por uma coisa mais lúdica mesmo, como no caso de ver esses móveis voando, por exemplo. Em Evento tudo é mais sutil. Mas tenho certeza de que aqui, na Bahia, é mais fácil fazer esse trabalho do que seria em Curitiba ou em São Paulo. A Bahia tem mais coragem de fazer coisas, não se assusta, até porque está mais longe da Europa conservadora.”
A montagem é composta por três obras que surgiram a partir da ideia de criar um circuito do vento dentro do Palácio, como se ele estivesse passando pelas salas, causando um efeito diferente em cada uma delas. Marcos Chaves realiza seu desejo de exibir as peças do mobiliário do Palácio logo no hall de entrada, onde cria uma espécie de móbile em que mesas, cadeiras e camas “flutuam”, formando uma espécie de efeito de furacão.
Na Sala de Banquetes, o artista cria um clima de devastação, como se depois de levantar os móveis o vento tivesse passado pelo ambiente e deixado tudo fora do lugar. A pretensão do artista é mostrar “o registro da devastação ou do equilíbrio precário”, e que o público poderá observar apenas pelo lado de fora “quase como se fosse uma foto”.
Por fim, no Salão Nobre, ventiladores criam a sensação física do ar, como se o vento estivesse “aprisionado” no espaço vazio. “Além de tudo, é verão na Bahia, faz um calor danado. Se eu puder, proporciono algum conforto também para as pessoas, que poderão se refrescar”, brinca Marcos, que além dos móveis do Palácio, utilizou ainda o lustre que fica no Salão Nobre para criar a trilha sonora da mostra, a partir da manipulação dos seus cristais.
De acordo com o curador Daniel Rangel, Evento é um trabalho que não tenta dissimular o seu processo de criação, mas, ao contrário, tem seu efeito estético potencializado ao expor os artifícios e estruturas por trás das instalações. “Você tem a sensação da presença do vento, mas também vê a presença do artista ali. Não existem truques. Está tudo ali, ventiladores, cabos de aço... Tudo exposto. E isso potencializa o efeito visual da criação”, conta
Para Marcos, essa montagem ofereceu ainda a possibilidade de trabalhar com obras de grandes dimensões. “Mas o fato de estar usando uma escala muito maior do que se eu trabalhasse com o objeto, não quer dizer que quero fazer nada mirabolante. Estava com saudade de trabalhar com grandes dimensões, com o espaço, mas faço isso usando o mesmo procedimento de simplicidade que eu uso pra objetos pequenos”, explica o artista, formado em arquitetura pela Universidade Santa Úrsula, do Rio de Janeiro.
SOBRE O ARTISTA
Marcos Chaves nasceu em 1961, no Rio de Janeiro. É bacharel em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Santa Úrsula, do Rio de Janeiro; estudou na Escola de Artes Visuais, no Parque Lage e no Bloco Escola, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.
Bastante conhecido pelos seus trabalhos com ready-made, utiliza diversa mídias (objetos, fotografias, vídeos, desenhos, palavras e sons), mas se dedica constantemente ao exercício de ressignificação de elementos cotidianos através de apropriações e intervenções. “Marcos Chaves surpreende significados e valores imersos nas coisas vulgares, dissimulados no hábito ou na convenção. Faz deslocamentos imprevisíveis e produz assemblages em tom de paródia, destilando aí a sua aguda observação sobre o mundo, da tecnologia ao lixo”, afirma a crítica e curadora Ligia Canongia.
O artista apresentou individuais em espaço como Galeria Sopro (Lisboa, Portugal), Museu da Imagem e do Som (São Paulo), Butcher’s, (Londres, Reino Unido), Zeppelin University (Friedrichshafen, Alemanha), Galeria Blanca Soto (Madrid, Espanha), Geraldine Lantieri (Buenos Aires, Argentina), Museu Vale do Rio Doce (Vitória), Paço das Artes (São Paulo), Paço Imperial (Rio de Janeiro), Galeria Artur Fidalgo (Rio de Janeiro), Galeria Bolsa de Arte de Porto Alegre (Porto Alegre), Oi Futuro (Rio de Janeiro), Centro Cultural São Paulo (São Paulo), Galeria Nara Roesler (São Paulo), Laura Marsiaj Arte Contemporânea (Rio de Janeiro), Centro Universitário da USP (São Paulo), Galeria Arte Futura (Brasília), Galeria Sérgio Porto (Rio de Janeiro) e Galeria Macunaíma (Rio de Janeiro).
Com coletivas, o artista levou seu trabalho até lugares como Mori Art Museum (Tóquio, Japão), Martin-Gropius-Bau, Neuer Berliner Kunstverein (NBK) e Ludwig Museum (Alemanha); Fri-Art – Centre d’Art Contemporain de Fribourg (Suíça); Espace Topographie de L’Art (Paris, França); Vantaa Art Museum, Helsinki (Finlândia); Northern Gallery (Reino Unido); Iziko South African National Art Gallery (África do Sul); Centro per l’Arte Contemporânea Luigi Pecci (Prato, Itália). Também participou das seguintes bienais: Manifesta7 - The European Biennal of Contemporary Art, (Bolzano, Itália); 25ª Bienal Internacional de São Paulo; 1ª e 5ª Bienais do Mercosul (Porto Alegre, Brasil), 4ª Bienal de Havana (Cuba); 3ª Bienal de Lulea (Suécia).
Marcos tem trabalhos premiados pela Universidade Estácio de Sá e pelo XVI Salão Nacional de Artes Plásticas, recebeu também Menção Honrosa no IV Salão da Bahia, além do prêmio da TV Record, como artista carioca do ano de 2009. Publicou o livro Chaves (2008, Editora Oi Futuro; Aeroplano) com texto de Alberto Saraiva. Sobre sua obra, Adolfo Montejo Navas, Ligia Canongia e Luisa Duarte publicaram Marcos Chaves (2007, Editora Casa da Palavra).
PROGRAMA OCUPAS
O Programa Ocupas, que durante o ano de 2010 apresentou no Palácio projetos de site specifics de importantes artistas contemporâneos do país como José Rufino, Carlito Carvalhosa e Eder Santos, estimula a criação de exposições pautadas delo diálogo da obras com os elementos que caracterizam o Palácio da Aclamação que, recentemente, alcançou o status de Patrimônio Cultural do Estado da Bahia.
Para Daniel Rangel, Diretor de Museus do IPAC, idealizador e curador do Ocupas, a iniciativa alcançou excelentes resultados, abrindo ao público esse importantíssimo prédio histórico e dinamizando o museu, atraindo mais de 16 mil pessoas apenas nestes primeiros eventos. “Conseguimos abrir mais um espaço que estava fechando, transformando o Palácio da Aclamação em um dos mais importantes locais de exposição da cidade. Um espaço com uma proposta diferente, dedicado a experiências inovadoras, que começa agora a se consolidar, obtendo grande repercussão na mídia, tanto local quanto nacional, vencendo inclusive um prêmio (da Revista Bravo, para a exposição Faustus, de José Rufino)”, comemora Daniel.
Para ele, os artistas se sentem desafiados e estimulados pelo tamanho do espaço e pelas diversas formas com que ele pode ser explorado. “Acaba acontecendo uma competição saudável entre estes artistas, que buscam superar as experiências anteriores. Montar essas exposições é também uma aposta que nós fazemos no trabalho desses artistas. Todas as respostas que tivemos foram muito positivas, tanto pelo resultado das obras quanto pela repercussão e visibilidade que as mostras alcançaram”, finaliza.
No entanto, o que aconteceu foi que, na semana anterior a abertura, numa quarta-feira (que descobri depois que era o dia dedicado a este orixá), Daniel chegou à DIMUS me dizendo que teve um sonho, no qual Iansã aparecia no Palácio, comandando os ventos, e no qual apareciam também dois chifres, que são os objetos usados no culto para chamar esta divindade. Na hora, não acreditei, pois eu tenho guardado até hoje um par de chifres que comprei há 25 anos e, desde então, tenho tentando usar nas minhas mostras, sem conseguir! Agora, além do pedido de licença, acabamos incorporando este elemento ligado a Iansã na exposição. Mais uma intuição, mais uma coincidência, do tipo que só é possível acontecer aqui, na Bahia.
Serviço:
O que: Evento| Marcos Chaves (Programa Ocupas)
Onde: Palácio da Aclamação, 1330, Campo Grande, Salvador-BA
Quando: Abertura, dia 21 de dezembro, às 19h – Visitação até 27 de fevereiro, de terça a sexta das 10h às 18h, sábados, domingos e feriados, das 13h às 17h.
Gratuito
Realização: Dimus/IPAC