17/12/2010
Visitação | de 16/12 (2010) a 02/03 (2011)
[Sala Contemporânea do Palacete das Artes Rodin Bahia]
Materiais diversos, como chumbo, malhas de ferro, feltro, parafina, entre outros, reunidos e transformados em objetos que ganham significados distintos dos convencionais, compõem as obras da exposição Correm Turvas as Água Deste Rio, que fecha a primeira edição do Programa Quarta Dimensão. Agora, o público baiano vai poder conhecer um pouco mais da obra e da trajetória de José Resende, na montagem inspirada pela obra literária de um dos mais representativos poetas lusitanos, Luis Vaz de Camões – de onde o artista retirou o seu título.
O Programa Quarta Dimensão - uma realização da Secretaria de Cultura do estado (SecultBA), através da Diretoria de Museus do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (DIMUS/IPAC) - apresentou na Sala Contemporânea do Palacete das Artes Rodin Bahia mostras de alguns dos mais importantes artistas visuais do país, como Tunga, Waltercio Caldas e Mario Cravo Neto. Todos eles, artistas de uma mesma geração, reconhecidos nacional e internacionalmente, tendo a tridimensionalidade contemporânea e expandida como característica comum. O Programa busca provocar a relação entre o trabalho destes artistas e as obras de Auguste Rodin, mestre da escultura moderna, expostas no Casarão do Palacete das Artes Rodin Bahia.
Para o diretor de Museus do IPAC e curador do Quarta Dimensão, Daniel Rangel, visitar a exposição de Resende no Palacete é uma oportunidade única para entrar em contato com uma obra que se tornou uma das principais referências na arte contemporânea nacional. “José Resende é um artista que produz desde os anos 60 e uma de suas principais características é justamente a apropriação de materiais comuns e re-significação deste em instalações com uma forte densidade poética e grande potência visual. Em Correm Turvas as Águas Deste Rio o artista revisita sua própria trajetória, e apesar de não serem obras que foram criadas especialmente para a Sala Contemporânea do Rodin,. são instalações que vão ter uma versão única neste local. Apresentar esse tipo de trabalho para a cidade é, também, ampliar o repertório visual e cognitivo do público, colocando-o em contato com a estética particular de Resende”, explica o Daniel.
Sobre a sua exposição, Resende comenta: “É desta fluidez turva da expressão [refere-se ao título] que eu retiro minha inspiração. Da fluidez que dá caráter aos gestos que moldam diferentes materiais, que são manipulados em estado líquido, e, ao se solidificarem, também retém o momento do gesto que os conformou”. O artista ainda aponta outras referências presentes em sua obra. “Neste trabalho também está o mar, uma reposição do mesmo, cada vez mais diverso e surpreendente, como o próprio [mar]”, complementa.
SOBRE A EXPOSIÇÃO
Para dialogar com o Projeto Quarta Dimensão, que pretende estabelecer a relação entre a obra de Auguste Rodin e as exposições contemporâneas, José Resende aponta para um caminho que se estende na noção de área externa de suas esculturas, propensa ao toque. “Quando pensei nesta relação proposta pelo Programa, a minha escolha foi me deter na superfície da obra de Rodin, no registro da expressão, da memória, na idéia de fixar o fluxo do tempo no momento da espontaneidade do gesto”.
Pensando justamente nestas superfícies, José escolheu apresentar uma nova versão de uma importante obra sua (apresentada em 1992, na Capela do Morumbi, São Paulo), em uma versão especialmente concebida para a Sala Contemporânea do Palacete: uma película fina de parafina é aplicada sobre a extensão grande de talagarça estendida e presa no teto (neste espaço, com cerca de dez metros de comprimento). Um outro objeto de igual proporção estará exposto próximo a esta obra principal, feito de rolos de papeis imersos em tinta azul, também relacionado à superfície expressiva de Rodin.
Outras peças ocuparão as salas menores, anexas à sala principal, e o primeiro andar. Na composição delas, a presença de mais materiais, a exemplo de nylon, parafina, chumbo, correntes de ferro, papéis absorventes e tinta, que juntos formam superfícies extensas e particularmente expressivas, onde um material líquido se funde a outro, dando-lhe estrutura sólida, ao esfriar.
“Ao proporem os trabalhos para esse Programa, os artistas se voltam para as suas trajetórias, revisitando suas produções e ressignificando as suas próprias obras. Dessa experiência, vimos um resultado comum em todas as montagens: o confronto dos trabalhos novos com os trabalhos antigos. Ou seja, em cada uma das exposições, foi possível conhecer muito mais do que um momento específico de suas carreiras, ou o trabalho mais atual de cada um deles”, conclui Daniel Rangel.
SOBRE O ARTISTA
Nascido em 1945, em São Paulo, José Resende formou-se em arquitetura pela Universidade Mackenzie, em 1967. Resende possui, ainda, em seu currículo acadêmico, uma bolsa de pesquisa da John Guggenheim Memorial Foundation, recebida em 1984, e a atuação como professor na ECA-USP, FAAP e Mackenzie.
Estudou gravura na Fundação Armando Álvares Penteado e teve aulas de desenho com Wesley Duke Lee, com quem funda, em 1966, ao lado de Nelson Leirner, Geraldo de Barros, Frederico Nasser e Carlos Fajardo (1941), o Grupo Rex. Em 1981 concluiu seu mestrado no Departamento de História da FFLCH-USP. Em 1970, fundou, juntamente com Carlos Fajardo, Frederico Nasser e Luis Baravelli o Centro de Experimentação Artística Escola Brasil, onde lecionou até 1974. Ainda na década de 1970 editou com outros artistas e críticos a revista de artes "Malasartes" e em 1980 foi um dos editores do jornal "A Parte do Fogo".
José Resende participou de inúmeras exposições coletivas, dentre as quais se destacam várias edições da Bienal de São Paulo (1967, 1983, 1989, 1998), Brasil 500, Mostra do Descobrimento (1999), Bienalle de Paris (1980, menção especial), Arte Brasileira do Século XX (1987, Musée d''Art Moderne de la Ville de Paris), Bienal de Veneza (1988), ArteCidade (1994 e 2002), Bienal do Mercosul (2001 e 2004), Documenta (1992), Latin American Artists of XX Century (1993, the Museum of Modern Art of N. York ) e Arte Contemporânea: uma história em aberto, Gabinete de Arte Raquel Arnaud, São Paulo(2004), além de várias individuais no Brasil, Paraguai e Estados Unidos.
Dentre as mostras individuais, destacam-se as do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e do MASP-SP, na década de 70; as do Gabinete de Arte Raquel Arnaud, em 80; nos anos 90, destacam-se a exposição no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-RJ), duas em galerias dos EUA (Galeria Bergamin e Joseloff), as mostras no Gabinete Raquel Arnaud, na Galeria Camargo Vilaça e Museu de Arte Moderna de Recife (MAMAM0. Mais recentemente, entre as várias exposições individuais realizadas pelo artista, em 2006 abre “Pequenos Formatos” na Galeria de Arte Marilia Razuk, São Paulo, e em 2007 a “Acasalamento”. Faz duas exposições na Galeria Paulo Fernandes, uma em 2008, e outra em 2009, e em 2010 expõe na Paulo Darzé Galeria de Arte.
Em 2003, a editora Cosac & Naify lançou um livro sobre sua obra.
Serviço
O que: Exposição Correm Turvas as Água Desse Rio | José Resende (Programa Quarta Dimensão)
Onde: Sala Contemporânea do Palacete das Artes Rodin Bahia (Rua da Graça, 284, Graça, Salvador, Bahia)
Quando: Abertura: dia 15 de dezembro (quarta-feira) de 2010, às 19h. Visitação de 16 de dezembro de 2010 a 03 de março 2011 (terça a sexta, das 10 às 18h, fins de semana e feriados, das 13 às 17h).
Gratuito.
Realização: Diretoria de Museus do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia / Secretaria de Cultura do Governo do Estado da Bahia.