23/12/2010
Fonte: Jornal A Tarde
O ano chega ao fim com um importante retrospecto para a cena teatral. Mais de 60 espetáculos locais inéditos estrearam no circuito, impulsionados por editais baianos e nacionais. Mas, se o aumento da•produção é comemorado por gestores e artistas, ele também intensifica um antigo problema denunciado pelos produtores: a falta de espaços para as montagens.
A situação se agrava com a notícia de fechamento do Teatro Jorge Amado em 2011. Em meio a uma disputa judicial, o espaço fecha suas cortinas em janeiro, sem previsão de retomar as atividades.
"Nós tínhamos uma autorização para manter o teatro em caráter emergencial. Chegamos ao fim do ano sem uma solução definitiva e sem autorização para planejar as pautas de 2011", revela a diretora do espaço, Fernanda Tourinho.
De acordo com o Desenbahia, que detém a posse do imóvel, um processo judicial impede a venda do espaço. Em maio, o prédio foi leiloado para quitar o empréstimo de R$ 20 milhões e dívidas trabalhistas do curso de idiomas UEC, que administrava o prédio.
Mas uma nova ação trabalhista pede a suspensão do leilão para que a dívida com os antigos funcionários seja revista. Em função desta disputa, o Tribunal de Justiça (TJ), que havia demonstrado interesse na aquisição do prédio, não pôde concluir a compra do imóvel.
"Não existe a possibilidade do teatro continuar funcionando pelo menos até que haja uma decisão judicial", explica Marco Aurélio Cohim, diretor administrativo do Desenbahia.
A expectativa é que o processo seja finalizado em 60 dias. Mas o diretor reconhece que o trâmite pode se estender. "A nova contestação é absurda, mas ainda está em julgamento e ainda cabem recursos, o que pode levar a uma demora maior. Só nos cabe aguardar", completa Cohin. Mesmo após a conclusão da compra, ainda não há certeza sobre o destino do teatro. "O Tribunal é quem pode decidir como o espaço será ocupado, se vai desativar o teatro, se vai assumir a gerência ou repassar à Secretaria de Cultura (Secult)", explica Cohim.
Fechados
Diante do impasse, produtores de teatro, artistas e gestores buscam alternativas para driblar a falta de pautas para os espetáculos. Além do Jorge Amado, também o Teatro Atbeu, no Corredor da Vitória, está fechado desde maio à espera de reformas emergenciais.
Com capacidade para cerca de 400 lugares cada um, os dois teatros deixam uma lacuna para peças de médio porte na cidade. O efeito direto é a superlotação de outros espaços e o cancelamento de espetáculos.
"Foi um ano bom para o teatro, houve muitas novas produções por meio de editais. Tanto que, entre maio e agosto, não existia pauta em nenhum teatro da cidade, todos estavam ocupados. Tínhamos um espetáculo com patrocínio garantido e não pudemos montá-lo. Seguramos até hoje esperando por um espaço adequado", revela a produtora Fernanda Bezerra.
A nova temporada da peça Caso Sério, de Claudio Simões, por exemplo, só acontecerá no segundo semestre de 2011. Os espaços com maior capacidade, como o Teatro Sesc Casa do Comércio, já têm pautas agendadas até dezembro de 2011.
Para evitar o risco de não encontrar pauta disponível, o produtor Fred Soares antecipou o planejamento da temporada de 20 espetáculos nacionais que trará à cidade em 2011. "Já fiz reservas para o período de marco a dezembro. Tenho um projeto aprovado em edital e patrocínio definidos, não poderia correr o risco de quebrar o contrato", afirma o produtor.
2011 é o ano em que a ocupação dos teatros terá que ser repensada
Quem melhor resume a atual situação enfrentada pela cidade é Fernanda Tourinho. "Hoje, Salvador é a terceira cidade em demanda de eventos culturais, atrás apenas do Rio e de São Paulo. Isso é muito importante, mas nos dá uma grande responsabilidade para repensar a estrutura que temos". O secretário de Cultura da Bahia, Márcio Meirelles, admite que a situação "faz repensar as políticas de apoio à produção". Para ele, embora as montagens ainda precisem de incentivos, uma alternativa seria "investir nos teatros, para que eles coproduzissem peças ou fossem os demandantes".
Como a manutenção dos teatros é a parte mais cara do setor, o apoio do Estado é uma antiga demanda dos gestores. De acordo com dados da Secult, nos últimos anos, R$ 5,9 milhões foram destinados a incentivos à montagem dos espetáculos, mas os R$ 5 milhões destinados à manutenção de novos espaços não foram executados.
"Fizemos um edital de apoio à produção continuada que pedia aos espaços que estabelecessem metas anuais de público e espetáculos, mas nenhum deles se inscreveu", afirma Márcio Meirelles. Os teatros Vila Velha e XVIII já são contemplados por esse modelo.
Segundo Fernanda Tourinho, os teatros baianos não se encaixam nas exigências destes editais. "São espaços que não são mantidos por entidades sem fins lucrativos, e que têm um perfil comercial", explica.
Incentivos privados
Atualmente, o custo diário das pautas varia de R$ 100, para espaços públicos, a R$ 1.200, para os maiores teatros da capital. Muitas casas também cobram um percentual da bilheteria, como forma de ampliar a arrecadação.
Com esse formato, os teatros tendem a optar por espetáculos já consagrados, com garantia de retorno. A solução para baratear o custo das pautas seria a parceria com entidades privadas. É o que acontece com o Teatro Sesc Casa do Comércio. Reaberto em 2009 após três anos em reformas, o espaço assumiu um papel determinante na oferta de pautas da cidade.
"Por ser subsidiado pela rede Sesc, ele consegue baratear as pautas. Mas os teatros locais não conseguem apoio privado por já serem vinculados a instituições de ensino", avalia a produtora Marlucia Morais.
Novos espaços
Um alento para a produção local foi a reabertura dos teatros Molière e Xisto Bahia, fechados desde 2009 devido a problemas estruturais. Ambos receberam recursos da Secult para a realização de reformas. Com capa cidade para receber 100 e 150 pessoas, respectivamente, os espaços atendem a produções menores. Segundo Kátia Costa, diretora do Espaço Xisto, o teatro já recebeu diversos pedidos de pauta. "Mas não vamos conseguir atender toda a demanda", diz.
Outro caso é o do Teatro Eva Herz, da Livraria Cultura. Inaugurado em novembro, ele fica no Shopping Salvador, mas ainda não tem uma programação definida. Uma solução encontrada pelos diretores de teatro para atender à demanda por pautas foi segmentar os horários de exibição, oferecendo espetáculos infantis, comédias e dramas em horários diferentes. "Isso é algo que já existe em São Paulo e no Rio. Para cada horário, há um perfil e se o espetáculo for bom, ele enche", avalia Marlucia.
A opção já vinha sendo adotada nos teatros Módulo e Sesi Rio Vermelho, e agora também será implementada no Xisto Bahia. "Em janeiro, teremos dois horários nos finais de semana, além de ocupar espaços como salas de ensaio e o foyer. Queremos oferecer programação diversificada e atender à demanda", explica Kátia Costa.
Mas a medida ainda encontra resistência de alguns diretores. "Com a programação ocupada, não sobra tempo para testar a luz e às vezes a peça estréia sem ter sido ensaiada naquele palco", reclama Claudio Simões.
Editais garantem novas montagens, mas público ainda é pequeno
Apesar de comemorar o aumento do número de montagens, alavancadas pelos editais de fomento, muitos diretores e produtores divergem quanto a um efetivo crescimento no público freqüentador dos espetáculos.
O secretário Márcio Meirelles questiona as políticas de fomento exclusivo à produção. "Muitas vezes essa lógica do patrocínio fez com que o produtor não se preocupasse em conquistar um público pagante, uma vez que a peça já estava paga antes da cortina abrir".
Para Fred Soares, os espetáculos que produziu tiveram, em média, 70% de ocupação, o que representa um aumento em relação a outras temporadas. "Há cada vez mais pessoas interessadas no teatro, pois há boas peças com preços competitivos em relação ao cinema. Trabalhamos para trazer bons espetáculos que conquistem o público e faça com que retornem numa próxima peça", explica.
"Acho que hoje a Bahia vive de teatro. Por mais que venham espetáculos de fora, as peças produzidas aqui se mantêm. Nós temos que ter orgulho de viver dessa cultura", avalia Marlúcia Morais.