MAM-BA recebe obras da 29ª Bienal Internacional de São Paulo

16/03/2011
“Há sempre um copo de mar para um homem navegar”. O verso da obra Invenção de Orfeu, do poeta Jorge de Lima, remete à ideia de que a arte pode se encontrar dentro de suas próprias dimensões e não fora ou além dela . Esta é a linha filosófica utilizada para reafirmar a estreita ligação entre arte e política e que permeia a curadoria da 29ª Bienal de São Paulo, cujo projeto de Itinerância chega a Salvador no dia 25 de março, quando ocorre abertura às 19h no Museu de Arte Moderna da Bahia. Com curadoria de Moacir dos Anjos e Agnaldo Farias, a 29ª Bienal de São Paulo – Obras Selecionadas (Salvador) ocupará todos os cinco espaços expositivos do MAM-BA com 54 obras de 14 artistas entre brasileiros e estrangeiros. A visitação é gratuita e ocorre sempre de terça a domingo, das 13h às 19h e aos sábados das 13h às 21h, até o dia 29 de maio. Segundo Moacir dos Anjos, a mostra em Salvador traz “uma seleção de obras que demonstram as várias maneiras pelas quais a arte tece, nela mesma, uma política. Desde exemplos históricos, como a documentação do Tucumán Arde, evento de protesto que artistas argentinos realizaram em seu país contra a violência sofrida por campesinos em finais da década de 1960, até obras recentes como a do albanês Anri Sala, que comenta, com certa melancolia, o fim de uma era recente em que a música teve  papel transformador entre os jovens”. Entre as obras que integram a mostra itinerante, o curador destaca o filme do artista espanhol Miguel Rio Branco que retrata o Pelourinho no final da década de 1970 e a presença de dois artistas africanos, Andrew Asiebo e David Goldblatt, escolhidos para este recorte dada a forte conexão entre a Bahia e a África. “O público certamente se surpreenderá com a espetacular instalação do artista inglês Douglas Gordon, que ocupará o espaço da Capela do MAM com dezenas de monitores de TV, cada um exibindo um trabalho diferente, além da videoinstalação do tailandês  Apichatpong Weerasethakul, artista vencedor do último festival de cinema de Cannes”, complementa Moacir dos Anjos. Ações Educativas Às 19h de 24 de março (quinta-feira), noite que antecede a abertura da mostra, acontece a mesa-redonda Bienais da Bahia: década de 1960 e perspectivas que vai contar com a participação do Secretário de Cultura do Estado da Bahia, Albino Rubim; do artista visual, Chico Liberato; poeta, artista visual e arquiteto, Almandrade e do professor da UFRB e artista visual, Ayrson Heráclito. O evento é aberto ao público e a mediação será feita pela diretora do MAM, a artista visual Stella Carrozzo. No sábado (26/03), às 15h, será a vez do público participar de um encontro com o curador geral da 29ª Bienal de São Paulo, Moacir dos Anjos. As duas ações integram a programação educativa da mostra e acontecem no auditório do MAM-BA. Com o principal objetivo de difundir a arte contemporânea e aproximá-la dos mais diversos públicos, foi elaborada uma programação educativa que acontece paralelamente à mostra. As atividades têm início logo nos dias 14, 15 e 16 de março, quando ocorre a Formação para Mediadores. O minicurso pretende formar educadores que estarão atuando como mediadores durante o período da exposição e será ministrado pelos educadores da Fundação Bienal de São Paulo: Carlos Barmak, Pablo Talavera e Tiago Athayde. Também visando a formação de educadores, acontece, no dia 25 de março, o curso Formação para Professores, com a curadora educacional do educativo permanente da Bienal, Stela Barbieri. O objetivo é fazer com que as propostas educativas tenham continuidade em sala de aula. Além dos minicursos, o Núcleo de Arte Educação do MAM-BA (NAE) preparou o Ciclo de Conversas sobre Arte, no qual serão discutidos os temas “Computação e Eletrônica como Expressão Artística”, “Poéticas e Políticas da Alteridade”, “’Há sempre um copo de mar para um homem navegar’. Navegar é preciso? Leituras poéticas na contemporaneidade” e “Abordagens sobre o novo paradigma ético e estético”. O NAE também estará realizando a inscrição de propostas para a realização de Encontros Teórico-práticos. A ideia é oferecer a possibilidade de participação da comunidade com a apresentação de propostas em artes visuais – ensino, história da arte, poéticas visuais, museologia, filosofia e áreas afins. Mais informações através do telefone (71) 3117 6141. “As ações educativas forma pensadas a partir de propostas de compartilhamento de experiências dos sentidos e de reflexão, em atividades que busquem abrir espaços para artistas, pensadores e pesquisadores em artes, filosofia, museólogos e áreas afins, tendo a produção contemporânea de artes visuais como enfoque”, explica a coordenadora do Núcleo de Arte Educação do MAM-BA, Roseli Amado. Participam da itinerância no MAM-BA os artistas e grupos Andrew Esiebo, Anri Sala, Antonio Dias, Apichatpong Weerasethakul, David Goldblatt, Douglas Gordon, Enrique Jezik, Gil Vicente, Jean Luc Godard, Mário Garcia Torres, Marta Minujin, Miguel Rio Branco, Sophie Ristelhueber , Grupo de Artistas de Vanguardia. A 29ª Bienal de São Paulo esteve em cartaz no Pavilhão da Bienal Parque Ibirapuera, entre 25 de setembro e 12 de dezembro de 2010 e reuniu 850 obras de 159 artistas dos mais variados países. Artistas Andrew Esiebo 1978 Lagos, Nigéria | Vive e trabalha – Ibadan, Nigéria Andrew Esiebo realiza projetos fotográficos que articulam uma abordagem documental com referências estéticas à fotografia do cinema ficcional contemporâneo. Sua obra não visa a observação pura ou distanciada do tema, mas antes a dependência recíproca entre a criação e o envolvimento genuíno com o contexto. Ao mesmo tempo, estabelece atmosferas, paletas de cor e pontos de vista marcados e saturados, criando composições que remetem a imagens ora cinematográficas, ora publicitárias. Em God Is Alive, Esiebo documenta a dinâmica de vários campos religiosos situados ao longo da via Lagos-Ibadan, na Nigéria, onde a massa de fiéis se reúne para a celebração do Espírito Santo. O artista examina os códigos e os excessos rituais praticados, assim como as estratégias comerciais impulsionadas durante esses encontros. Os cultos noturnos pentecostais, nos quais os fiéis acreditam encontrar solução para seus problemas espirituais e sociais, caracterizam-se, na Redeem Christian Church of God, por louvores, orações e transe. Constituem, ao mesmo tempo, uma oportunidade para fomentar as finanças da igreja, a partir de oferendas diretas ou outros compromissos monetários ali estabelecidos. Anri Sala 1974  Tirana, Albânia | Vive e trabalha - Paris, França O início do trabalho de Anri Sala em vídeo e cinema registra resquícios e urgências da experiência comunista da Albânia e atualiza-se em ensaios dedicados à memória coletiva daquele país, direta ou indiretamente. Em trabalhos mais recentes, Anri Sala testa o modo como o som, a luz, a cor e a arquitetura fundam lugares sociais, espaços de ação e de lembrança. A narrativa está sempre presente, ainda que em grau mínimo de eventos e numa cadência contrastante à das velozes mídias contemporâneas. O interior de uma casa de shows de punk rock desativada em Bordeaux, na França, converte-se na fonte amplificada de trechos da canção Should I Stay or Should I Go?, da banda inglesa The Clash, que dá nome à obra. Os anos se passaram, mas a música, agora suavizada e nostálgica, prossegue repercutindo no prédio e nos moradores da cidade. Na Bienal, a ideia de uma memória suspensa num lugar e naqueles que o habitam ganha delicado dispositivo de ativação. Uma pequena caixinha de música instalada sobre a vidraça do Pavilhão ecoa baixinho as mesmas notas entoadas no vídeo. O resultado sonoro é sutil, demanda a aproximação do corpo, mas a metáfora acústica toma a exposição por inteiro. Antonio Dias 1944 Campina Grande, Brasil | Vive e trabalha - Rio de Janeiro, Brasil; Milão, Itália Antonio Dias põe em evidência o que habita os interstícios de campos de significação precisos e o que mina de lugares que se supunham vedados. Esse lugar de possibilidades diversas é tratado de maneira propositiva no trabalho Faça você mesmo: Território liberdade, diagrama construído no piso que sugere a existência de um espaço simbólico para a experimentação e o invento. Esse espaço possui o caráter autoral dos mapas, construções feitas a partir do que o cartógrafo assinala como marcos que orientam seu percurso sobre um certo território. É nesse espaço de afirmação das singularidades que Antonio Dias finca a bandeira de O país inventado (Dias-de-Deus-dará), pano vermelho que ostenta a mais recorrente marca de sua obra: a ausência do canto superior direito do que seria um retângulo. Índice de aspecto central da produção de Antonio Dias, essa marca remete a uma falta absoluta, irreparável e difusa; à inexistência de uma totalidade que resuma e explique uma obra em mutação constante, assim como o próprio lugar em que é feita e que simbolicamente tematiza. Apitchatpong Wellrasetchakul 1970 Bangcoc, Tailândia | Vive e trabalha - Bangcoc e Chiang Mai, Tailândia Apichatpong Weerasethakul é arquiteto de formação, mas foi no campo audiovisual, tanto como no da arte, que encontrou suas formas construtivas. Para ele, a luz é um meio expressivo através do qual pode proficuamente tecer ficções no tecido da realidade. Mediante a imaginação e a recriação de ambientes, por meio de um fragmentário trabalho de edição, o artista subverte o inconsciente coletivo e translada o lugar da memória. Suas produções rompem com a linearidade e os padrões narrativos confortáveis ao organizarem temas que expõem as fronteiras entre o rural e o urbano, bem como a aproximação com o prosaico e o popular na Tailândia. Em Phantoms of Nabua, o artista filma um grupo de jovens da região de Nabua. Enquanto os meninos jogam futebol à noite com uma bola de fogo, cenas de relâmpagos são projetadas numa tela atrás deles. Os clarões ocorrem também fora da tela, e todas essas fontes luminosas são colocadas em contraposição e destaque. Por meio de diálogos improvisados e da sobreposição de tempos distintos no filme, o artista cria alegorias da experiência humana, alimentando-se do contexto. David Goldblat 1969 Kortrijk, Bélgica | Vive e trabalha - Antuérpia, Bélgica A experiência do tempo é um elemento estrutural na obra de Claerbout, veiculada por meio da associação sistemática da imagem instantânea da fotografia com a construção, em vídeo, de narrativas lentas, inertes e sugestivas. The Algiers’ Sections of a Happy Moment apresenta um grupo de jovens alimentando as gaivotas que voam sobre a cobertura de um edifício argelino. É uma animação em que cada fotograma revela diferentes enquadramentos e detalhes, múltiplos pontos de vista de um mesmo instante congelado. Na obra de Claerbout, os sentimentos e pensamentos intuídos comprovam-se apenas na imaginação do espectador, potencializando a emergência de novas histórias e temporalidades. Sunrise documenta o trabalho silencioso e concentrado de uma mulher que, chegando de bicicleta a uma luxuosa casa modernista ainda de madrugada, limpa e arruma os cômodos sem acender luz alguma, enquanto seus patrões dormem. Quando termina seu trabalho e parte pedalando por uma bucólica estrada, despertam os primeiros raios de sol e ouve-se Vocalise, de Rachmaninov, preenchendo o escuro e o silêncio que até então dominavam a narrativa. Douglas Gordon 1966 Glasgow, Escócia | Vive e trabalha - Berlim, Alemanha; Nova York, EUA e Glasgow, Escócia O trabalho de Douglas Gordon é autorreferencial e desdobra-se como uma exposição de transformações do corpo e da obra do artista, explorada a partir da fotografia, do vídeo e da escultura. A utilização de elementos como crânios e espelhos expressa um desejo narcísico que coincide com uma tendência ao registro autobiográfico. A busca biográfica também é argumento para o artista debruçar-se sobre momentos das vidas de outras figuras midiáticas como Zinedine Zidane, jogador de futebol sobre quem realizou um filme em colaboração com Philippe Parreno. Pretty Much Every Film and Video Work from 1992 until Now. To Be Seen on Monitors, Some with Headphones, Others Run Silently, and all Simultaneously, 1992 – ongoing reúne cerca de setenta filmes e vídeos, quase todos os seus títulos realizados nos últimos dezoito anos. Trata-se de uma obra monumental e também de uma exposição retrospectiva, uma instalação em progresso contínuo que faz confluir em uma coleção e genealogia artística. Enrique Jezik 1961 Córdoba, Argentina | Vive e trabalha - Cidade do México, México Entre pequenos dispositivos urbanos de controle de segurança e ferramentas análogas utilizadas em contextos de guerras civis, Enrique Ježik costuma observar as formas em que a violência se mostra. O artista pratica poéticas escultóricas utilizando maquinários pesados, como escavadeiras, empilhadeiras e martelos hidráulicos, e efetiva processos de invasão de espaços expositivos e institucionais. Talhando, construindo e demolindo, Ježik ironiza a matéria de que ambientes formais são constituídos e dá-se como exemplo para indagações coletivas equivalentes. Em Estreno de La OTAN, o artista elaborou uma cartografia dos bombardeios aos aeroportos sérvios ocorridos em 1999. Montados sobre cavaletes e esculpidos em baixo-relevo em placas de gesso, os mapas dos aeroportos encontram-se ao lado do respectivo vídeo do seu bombardeio, editado a partir de imagens capturadas pela OTAN. Nessa instalação, os mapas e as imagens dos bombardeios são transformados em dados impessoais da operação bélica e ocultam em si a crua face do terreno de combate. Gil Vicente 1958 Recife, Brasil | Vive e trabalha - Recife, Brasil A obra de Gil Vicente traduz um incômodo perante os modos de representação política vigentes. Transporta uma desilusão profunda sobre a possibilidade de mudanças realizadas por meio de lideranças formalmente constituídas, denunciando um esgotamento que, em muitas ocasiões, tem levado ao confronto violento. Em seu trabalho, Gil Vicente não busca a confusão entre arte e crime, mas antes a substituição do crime como ato pela criação de sua imagem explícita. Em Inimigos o artista assume, em desenhos realistas feitos em carvão sobre papel em escala natural, o papel de assassino de diversos dirigentes políticos, os quais, atuando em âmbitos geográficos diversos, são portadores de visões distintas, quando não conflitantes, do mundo. Gil Vicente representa o momento imediatamente anterior àquele em que “mata”, com faca ou revólver, de frente ou pelas costas, o presidente Lula, Fernando Henrique Cardoso, o Papa Bento XVI e a Rainha Elizabeth, entre outros. O amplo espectro de orientações ideológicas dos retratados sugere que o que está em jogo é menos a afirmação de uma causa específica e mais o repúdio simbólico a qualquer forma de exercício institucionalizado de poder. Jean-luc Godard 1930 Paris, França | Vive e trabalha - Rolle, Suíça Desde a produção de filmes publicitários até a crítica de cinema, passando por musicais, comédias e filmes-ensaio, a obra de Jean-Luc Godard atravessa inúmeros campos da realização audiovisual. Sua formação filosófica e política faz-se, sobretudo, durante e através dessa prática, seja pelos seus filmes de ficção que partem das aspirações, frustrações e ideais da juventude parisiense; pelas cartas políticas elaboradas nos vídeos realizados com o Grupo Dziga Vertov; ou pela monumental leitura do século 20 apresentada na colagem audiovisual Histoire(s) du cinéma. Ao longo desse percurso, amadureceu um provocativo conjunto de ideias e intrincados modos de pensamento, reproduzidos por meio de imagens e sons concatenados. O vídeo Je Vous Salue Sarajevo articula alguns pensamentos de Godard acerca da história e da política, apresentando a arte como a exceção que pode ser musicada, pintada ou vivida, e que se contrapõe às normas definidoras da cultura. A partir de uma única foto do conflito de Sarajevo, a edição constrói uma sucessão de enquadramentos e cenas, enquanto a voz de Godard murmura um discurso que sugere a indistinção entre produção artística e luta política. Mario Garcia Torres 1975 Moclova, México | Vive e trabalha - Cidade do México, México A prática de Mario Garcia Torres repensa as estruturas e negociações que fazem e têm feito a arte existir do modo como a conhecemos. Recontextualizar certas narrativas esquecidas ou negligenciadas relacionadas à arte é uma estratégia empregada pelo artista não apenas para examinar a historiografia da arte, mas também para desafiar e ampliar o significado e as implicações de um único evento, situado em lugar e momento específicos. Em Las variables dimensiones del arte, o trabalho produzido para a Bienal, Garcia Torres revê uma série de repercussões da exposição Cien años de pintura francesa, realizada no início da década de 1960 no México e na Venezuela, especificamente a remoção de algumas pinturas neste último local pela guerrilha urbana daquele país. A retórica da ausência, do deslocamento e do reencontro é usada e explorada com o objetivo de trazer de volta ao contexto da arte as narrativas em torno da exposição original. E, então, uma nova história se inicia. Marta Minujin 1943 Buenos Aires, Argentina | Vive e trabalha - Buenos Aires, Argentina Minujín é uma das artistas que melhor corporificam a importância e a popularização do happening e da arte efêmera na Argentina, tendo canalizado para a sua ação criativa o ímpeto destrutivista que, para ela, caracterizava os anos 1960 na América Latina. La destruccíon, realizado em Paris em 1963, foi seu primeiro autodenominado happening, para o qual convocou artistas e amigos incumbidos de queimar e destruir os seus próprios objetos expostos. Peças e ambientes utópicos e efêmeros, de grande dimensão e impacto, pensados para circulação e participação massivas, identificam a sua produção ao longo das décadas. La Menesunda foi uma instalação idealizada em conjunto com Rubén Santantonín para o Centro de Artes Visuales do Instituto Torcuato Di Tella. Dividida em dezesseis zonas, com diferentes ambientes e situações ativáveis, a obra proporcionava uma experiência lúdica e sensorial a uma enorme audiência que inesperadamente tornava-se espectadora de si própria. É apresentada na Bienal de São Paulo por meio de um documentário de época. Miguel Rio Branco 1946 Las Palmas de Gran Canaria, Espanha | Vive e trabalha - Rio de Janeiro, Brasil Munido de uma lente filtrada pelo cromatismo quente e saturado do Brasil, o olhar de Miguel Rio Branco é atraído pela realidade e pela vivência mundanas em lugares degradados. Figuras e ambientes simultaneamente grotescos e sedutores são temas dos filmes e das fotografias que o artista realiza desde o final dos anos 1960, abrindo mão de meios técnicos muito avançados. O bairro do Pelourinho (Salvador, Bahia) é o cenário do filme Nada levarei qundo morrer aqueles que mim deve cobrarei no inferno, no qual o artista revela o tempo marcado em cicatrizes nos corpos nus e nas construções em ruína. Sem ater-se a um formato de narrativa convencional, Miguel Rio Branco constrói imagens da convivência entre prostitutas, crianças, famílias, traficantes, vendedores e outros habitantes do bairro através da justaposição de excertos de filme, imagens fotográficas e trechos musicais, com a intensidade e a fragmentação variáveis próprias de um diário. Sedutora e maliciosa, a obra expõe a surpresa dos encontros fortuitos e da intimidade gerada pela provocação empática entre observador e observado, anulando, e ao mesmo tempo dignificando, a sua diferença. Grupo de Artistas de VanguardiaTucumam Arde” 1968 Rosário e Buenos Aires, Argentina Paradigma da ação artística revolucionária, Tucumán Arde foi um projeto promovido por um coletivo de artistas argentinos. Nasceu como insurreição contra a “Operação Tucumán” promovida pelo ditador Juan Carlos Onganía que, incentivando uma política de privatizações, extinguiu várias pequenas plantações de cana-de-açúcar da região de Tucumán e provocou um aumento do desemprego e das precárias condições de trabalho. Os artistas visitaram Tucumán, travaram contato com sindicatos locais e organizações culturais, recolheram documentos e produziram imagens das plantações e fábricas abandonadas, bem como dos novos ricos locais. Como resultado dessa pesquisa, organizaram a 1ª Bienal de Arte de Vanguarda, uma exposição-protesto que ocorreu na sede do sindicato em Rosário e depois viajou para Buenos Aires, onde foi censurada e encerrada horas depois da abertura. Recortes de notícias nas paredes, filmes e materiais em áudio documentavam as injustiças vividas em Tucumán. O chão da entrada foi coberto com o nome dos novos proprietários das plantações, denunciando as suas ligações ao poder. Aos convidados, mais de 3 mil na inauguração, foi servido café sem açúcar. Sophie Ristelhulber 1949 Paris, França | Vive e trabalha - Paris, França Ristelhueber acompanha os noticiários que informam sobre conflitos civis e guerras internacionais. Reúne recortes de jornais, notícias e fotografias e reflete sobre cada contexto de luta antes de se deslocar até ele. A artista não viaja como repórter de guerra: tem obsessão pelos indícios, cicatrizes e erosões que conectam a destruição recente com a temporalidade dilatada do território. As suas notícias acontecem ao ritmo dos movimentos tectônicos e dos acontecimentos históricos, e manifestam-se como acidentes “naturalizados” pelo tempo geológico, que testemunha os processos de ocultação e as ruínas de conflitos seculares. Em WB, Ristelhueber viaja à Cisjordânia, onde procura marcas menos explícitas do conflito e da separação entre israelenses e palestinos que o muro construído em 2004. Escolhe fotografar as barreiras realizadas pelo exército de Israel para impedir a circulação de automóveis palestinos – construções de pilhas de pedra, semiencobertas por relva, que interrompem a passagem e integram a paisagem rodoviária da região. Impressas em papel de parede, as fotografias infiltram-se, como o próprio tema fotografado, em espaços e perspectivas improváveis da exposição. Serviço Exposição: 29ª Bienal de São Paulo – Obras Completas (Salvador) Abertura: 25 de março, 19h Local: Museu de Arte Moderna da Bahia Endereço: Av. Contorno, s/n, Solar do Unhão Período: 26 de março a 29 de maio Entrada Franca