Conferências Territoriais chegam a etapa final

24/10/2011
[caption id="attachment_14751" align="alignleft" width="491" caption="Caravana Carne Seca / Foto: Alex Oliveira"]Caravana Carne Seca [/caption]

Jornalistas contam a experiência de percorrer a Bahia

As Conferências Territoriais de Cultura chegam a etapa final com a realização do último encontro nos dias 29 e 30 de outubro, em Lauro de Freitas. A realização das Conferências Territoriais envolveu uma dinâmica própria. Durante um mês, duas caravanas percorreram as várias regiões do estado. A Caravana Camarão passou pelas cidades banhadas por rios e também as que se encontram na parte litorânea do estado. Já a Caravana Carne-Seca andou por parte do sertão e do agreste do estado. Cada caravana envolveu uma equipe de 12 pessoas da Secretaria de Cultura do Estado (SECULT), responsável pela realização das conferências, além dos representantes dos territórios. Mas este ano, as Conferências Territoriais foram acompanhadas de perto por duas equipes de jornalistas e fotógrafos que tiveram o desafio de registrar as discussões destes encontros e, ao mesmo tempo, lançar um olhar sobre a diversidade cultural da Bahia. O resultado pôde ser acompanhado quase em tempo real através do Blog da Conferência (http://culturabahia.com) e superou as expectativas. Na Caravana Camarão, a dupla Katherine Funke (jornalista) e Ronaldo Silva (fotógrafo) e na Caravana Carne-Seca, Rodrigo Sombra (jornalista) e Alex Oliveira (fotógrafo). Uma experiência que também marcou estes profissionais, como eles contam agora. Depoimento Katherine Funke Jornalista Caravana Camarão "Gabriel Garcia Marquez recomenda que o jornalista, o escritor, o roteirista, vá à campo "caçar a boa". Foi bem por isso que aceitei a ideia de trabalhar para a Secult, imediatamente depois de ter passado seis meses escrevendo um livro de crônicas (bolsa Funarte de criação literária) em que a caçada da boa história se tornou meu esporte favorito. No cotidiano com a Caravana Camarão, a rotina de trabalho tem sido ao mesmo tempo cansativa e gratificante. O pó da estrada acumulando no tênis, a roupa cada vez mais amarrotada, o balanço da van pelas curvas das rodovias, a saudade de casa depois de quase trinta dias fora, tudo isso é compensado pelo potencial realizador reunido nos locais onde acontecem as conferências territorais. O mais bonito de tudo tem sido o brilho no olhar dos participantes, que chegam com muito gás para fazer propostas e apresentar resultados de projetos em andamento, como Ponto de Leitura, Ponto de Cultura, museus, revitalização de espaços e equipamentos culturais e assim por diante. É bonito entrevistar uma pessoa como a jovem Eliene Macedo Silva, 19, que mora na zona rural de Amargosa e estuda filosofia na UFRB. Ela acordou bem cedo no segundo dia da conferência para nos levar para conhecer um sonho que se tornou realidade. No ano passado, Eliene imaginou um projeto de Ponto de Leitura para a Associação de Agricultura Familiar do Tamanduá. Não se intimidou com a burocracia, foi atrás da papelada, escreveu ela mesma o projeto, e conseguiu ganhar o edital da Fundação Pedro Calmon. Agora os livros, as estantes, o computador, a filmadora, já estão em uso constante. Eliene conta essa história com a certeza de que sua ação afeta positivamente a realidade de uma porção de crianças, jovens e adultos da vizinhança. É bonito ver que ela não está preocupada com fama, sucesso, reconhecimento nacional, projeção política, cargo ou salário, mas com as oportunidades de acesso a bens culturais de toda uma comunidade, com o crescimento coletivo. Essa é uma atitude proativa, que pude encontrar em todos os territórios por onde passei, o que é muito gratificante. Não fosse a oportunidade de viajar com a Caravana Camarão por metade do Estado, eu jamais conheceria pessoas que, além de toda essa ação regular nas comunidades onde moram, às oito da manhã aparecem no local dos debates da conferência para planejar a cultura do território e do Estado, e ali persistem atuantes até o fim do dia, para participar da plenária e eleger delegados. E ficam ali sorridentes, ativas, falantes, atentas e participantes, a ponto de discutir e rediscutir detalhes das propostas com uma força argumentativa bastante sólida e criativa. A continuidade do sucesso das conferências de cultura dependerá dos resultados alcançados nos próximos anos. O que vai acontecer vai depender do engajamento de todos os interessados, de todas as esferas do poder público e da sociedade civil. Nesse processo, será bem importante que haja um acompanhamento independente feito pelos veículos de comunicação. O blog http://culturabahia.com já está subsidiando boas bases para essa cobertura continuada." Depoimento Ronaldo Silva Fotógrafo Caravana Camarão Chegamos ao final de uma primeira etapa do trabalho de cobertura das conferências territoriais de cultura, como sou um dos responsáveis pela captação de imagens que informem e ilustrem os caminhos em 12 cidades por nós percorridas, faço agora um breve balanço e observações sobre esses 30 dias que começaram em Conceição do Jacuípe dia 24 de setembro. Depois de uma breve apresentação da nossa equipe liderada pela simpática e competente  Renata Camarote, iniciamos nossos trabalhos, de cara já ficou bem claro que os próximos dias seriam, como de fato foram, muito intensos de trabalho, já que o formato definido pela organização de 2 dias para cada cidade realmente fica bastante corrido, por outro lado também a correria trouxe uma  dinâmica que logos fomos tomando pé. Tive sorte de formar dupla com Katherine Funke, uma profissional repórter experiente e interessada em conseguir boas matérias para nossa cobertura, nos afinamos e logo já pegamos o ritmo do trabalho, de cidade em cidade os caminhos foram nos levando, horas por paisagens rústicas, hora por verdadeiros oásis de vida em cidades cujo ritmo e beleza fomos percebendo, nessa primeira etapa eu destacaria Macaúbas, pela simplicidade beleza e naturalidade, Bom Jesus da Lapa, pela força da presença da religiosidade que representa, sendo comovente ver pessoas tão rústicas  vindas de lugares tão distantes em busca de um conforto pela fé, Santa Maria da Vitória também foi especial pela sua beleza e tranqüilidade, cidades muito agradáveis e interessantes. Para minha dupla o que ficou de mais insatisfatório na logística do trabalho foi o fato de não dispormos de um veiculo a nossa disposição para que pudéssemos visitar e descobrir mais pontos interessantes e importantes para pesquisar e divulgar, já que nos municípios menores de cada território se encontram muitos pontos de cultura apoiados pela Secult, além de grupos e atividades interessantes que dariam boas imagens e matérias, muitas das quais ficamos impossibilitados de visitar, espero que numa segunda oportunidade essa logística possa existir. Tivemos então a mudança de equipe na metade do percurso, agora liderada pelo descontraído e falante Igor Souza, essa etapa iniciou com nossa única folga em Rio de Contas com direito a banho de cachoeira que deu um novo gás necessário  recarregando as baterias para seguirmos em frente, fomos então realizar a outra metade do percurso, já com o ritmo de trabalho bem definido. Nessa segunda etapa eu destacaria a visita a Reserva Indígena da Jaqueira em Porto Seguro onde tivemos um interessante contato com os índios Pataxós, já em Jequié o encontro com o grupo de Terno de Reis de Manoel Vitorino e as Pastorinhas trouxe o colorido e a alegria das manifestações que estávamos desde o inicio esperando encontrar, outro momento especial foi a visita a um ponto de leitura recém construído no distrito de Tamanduá na  linda zona rural de Amargosa, onde encontramos uma gestora de cultura de 19 anos que cursa filosofia na Universidade Federal do Recôncavo, essa universidade mantém também um importante ponto cultural chamado Casa do Duca na cidade, atividade que fomenta e cria atividades e eventos culturais gratuitos para comunidade. Seguimos então administrando o tempo e controlando a ansiedade que a essa altura  já batia, alem daquela saudade de casa e das pessoas queridas com quem convivemos. Considero que nos saímos bem, as duas equipes não tiveram nenhum problema maior de convivência e o trabalho fluiu com responsabilidade e competência sem nenhum contratempo nas próximas cidades, a derradeira parada em Gandu ainda nos surpreendeu com uma boa participação e inusitadas apresentações.  Foi muito bom poder descobrir muitas pessoas atuantes em atividades culturais, o contato com pessoas do interior traz uma sensação boa de perceber que a simplicidade, sinceridade e inocência, embora pouco, ainda existam, as conferências foram bem movimentadas, embora ache que ainda poderia ser melhor em termos de participações dos artistas dos territórios, cabendo talvez ai um trabalho de comunicação mais enfático com as comunidades na preparação para realização das conferências. Vamos todos agora tomar um novo fôlego recarregar as baterias em casa e retornar para as etapas setoriais  e para o grande final estadual em Vitória da Conquista, parabéns a todos que direta ou indiretamente participaram dessa maratona em prol da cultura, amem. Depoimento Rodrigo Sombra Jornalista Caravana Carne-Seca Cobrir as conferências foi como fazer uma viagem de autodescobrimento, foi percorrer o movimento inverso à da migração habitual e olhar para o interior. Foram trinta dias viajando sem descanso, cruzando com uma procissão de personagens, histórias e culturas que se confundiam com nossa própria memória afetiva. Dia sim, dia não, estávamos na estrada e os encontros se sucediam, revelando cada vez mais o legado e a história de cada território. Viajei na Caravana Carne Seca, avançamos sertão adentro cobrindo 13 conferências territoriais. Repentistas sexagenários batalhando a elaboração de projetos nas conferências ou os editais vencidos pelo grafiteiro Maurício Mir (todos eles de Serrinha) são exemplos importantes de artistas capazes de atuar politicamente no fomento à cultura. A insubordinação do trio de rap Terceiro Motivo (de Saúde) e a beleza das animações feitas a mouse nos locutórios de Mariri sinalizam as tensões de uma paisagem cultural que se transfigura rapidamente. Um sertão capaz de abrigar, num povoado de 500 habitantes, a “maior biblioteca rural do mundo”, a Biblioteca Maria das Neves, em São José do Paiaiá (distrito de Nova Soure); e ser o habitat de um fotógrafo erudito como Marcos Cesário, cuja notável carreira é construída em passos silenciosos. Sertão também do aboio, do baião e do cordel, da resistência de baluartes da cultura popular como os repentistas Zé Pedreira e Manoelzinho (de Serrinha), o grupo de samba de roda Nossas Raízes (também de Serrinha) ou o Samba de Véio (de Juazeiro). Grande parte das propostas eleitas em um território repetia-se na plenária da conferência seguinte. A cultura do interior partilha de necessidades das mais básicas – evidência de (quase) um estado inteiro que durante décadas viveu à margem das políticas de cultura. Capacitação de gestores, festivais culturais, mapeamento de artistas locais, criação de espaços de cultura, resgate e valorização da cultura popular figuravam em quase toda plenária. A inclusão de deficientes físicos em atividades artísticas, proposta na Chapada Diamantina, e o projeto voltado à valorização dos falares da zona rural de Irecê merecem destaque pela urgência e originalidade das questões que invocam. A presença de um enviado da representação do Minc na Bahia e o diálogo com membros da Secult aproximavam aos inscritos na conferência da questão dos planos de cultura – tema ainda incipiente, mas que alcançou avanços durante as conferências territoriais.