Secretário de Cultura fala sobre I Encontro das Culturas Negras

06/11/2012

Um encontro das culturas negras

Antonio Albino Canelas Rubim *

Novembro se transformou em um mês emblemático para o Brasil, a Bahia e sua população afrodescendente. O luta do movimento negro possibilitou um expressivo deslocamento simbólico: em lugar de comemorar a abolição da escravatura assinada pela Rainha Isabel no dia 13 de maio, a nova tradição construída passou a celebrar a consciência negra no dia 20 de novembro, em homenagem à Zumbi e à luta, passada e presente, de todos contra racismo, desigualdade e discriminação étnicas. Além desta vitoriosa reescritura da história, dois acontecimentos, dentre outros, conformam o novembro negro. No dia 08 de novembro de 1799, quatro dos cinco maiores líderes da Revolta dos Búzios, todos eles populares, foram executados. A Revolução dos Búzios foi uma das primeiras e mais importantes revoltas com cunho nitidamente social e participação popular no Brasil. Hoje suas lideranças são consideradas heróis nacionais. Mais recentemente em novembro de 2011, aconteceu o Encontro Ibero-Americano do Ano Internacional dos Afrodescendentes, que em seu documento final propôs Salvador como a capital ibero-americana dos afrodescendentes. A ONU, depois do ano, resolveu ampliar o tempo dedicado ao tema e estabeleceu a “década afrodescendente”. O Encontro das Culturas Negras ocorre e ganha sentido no contexto do novembro negro, que vem sendo celebrado pelo governo estadual desde o início da gestão do governador Jaques Wagner. O Encontro das Culturas Negras pretende realizar anualmente, em Salvador e no Recôncavo Baiano, uma grande reunião das culturas negras do Brasil, das Américas e do mundo, envolvendo as mais variadas manifestações destas culturas. Ele busca: possibilitar um maior e melhor conhecimento das culturas negras; ampliar o diálogo e o intercâmbio entre as culturas negras nacionais e internacionais; criar redes de cooperação entre agentes das culturas negras; estimular reflexões e estudos sobre as culturas negras, incentivar a difusão das culturas negras; posicionar e consolidar a Bahia como lugar de referência das culturas negras e contribuir para o desenvolvimento de políticas para as culturas negras na Bahia. Todos estes objetivos pretendidos estão expressos na programação de sua primeira edição, que acontece nos dias 8, 9 e 10 de novembro em Salvador e 12 em Santo Amaro. Ela está composta de mesas-redondas, plenárias, mostras e apresentações artísticas, dentre outras modalidades. As mesas-redondas, com importantes convidados internacionais e nacionais, tratam temas como “Culturas negras no mundo contemporâneo”, “Carnavais negros das Américas”, “Culturas negras no Brasil hoje” e “Diversidade das culturas negras da Bahia”. As plenárias visam estimular o desenvolvimento de redes de cooperação e intercâmbio entre estudiosos, criadores e produtores das culturas negras. As mostras, realizadas em diversos espaços expositivos da cidade, dão visibilidade a expressiva plasticidade das culturas negras. As apresentações reúnem inúmeros espetáculos culturais – música, teatro, dança, capoeira etc. – em performances de artistas internacionais e brasileiros, nomes relevantes da cena cultural negra. O processo de construção do encontro foi caracterizado pela busca de um diálogo amplo e intenso com secretarias estaduais, ministérios, instituições, grupos e coletivos culturais. Foram muitas conversas e consultas locais, nacionais e internacionais. A articulação da plural comunidade cultural envolvida com as culturas negras sempre apareceu como uma condição essencial para a construção de um projeto, que não se configure apenas como um mero evento, mas que possibilite a conformação de um processo, coletivo e potente, que possa contemplar a riqueza e a diversidade das culturas negras. Elas, de modo substantivo, têm marcado no mundo e no Brasil as tradições e as contemporaneidades culturais. Um dos mais relevantes objetivos do encontro das culturas negras é consolidar a Bahia como um lugar mundial de referência das culturas negras. Ele só pode ser alcançado através de um processo de construção dialógico, agregador e plural, que congregue democraticamente estado e sociedade na construção de políticas para as culturas negras. *Secretário de Cultura do Estado da Bahia.