Identidade, cooperação e reconhecimento foram temas de debate no I Encontro das Culturas Negras

09/11/2012

“A música da vitória há de acordar todos os povos”, dizia o poema Mandela, de Márcio Barbosa, declamado pelo ator Ângelo Flávio, na abertura das atividades do segundo dia do I Encontro das Culturas Negras, nesta manhã (9), no Auditório da faculdade de Medicina – Pelourinho.  Logo de início um questionamento fora lançado: Como pensar o Brasil sem pensar as memórias e as ressignificações da diáspora africana? “Um elemento essencial é criar espaço para o diálogo e a interação entre as culturas negras da Bahia, do Brasil e do mundo”, afirma o secretário de Cultura do estado da Bahia, Albino Rubim. A mesa de discussão  “Culturas Negras no Brasil de Hoje”, contou com a presença do mestre em Artes Visuais, artista e pesquisador do Grupo de Ensino, pesquisa e Extensão em Arte e Patrimônio da Universidade Federal do Recôncavo, Aryson Heráclito, do cantor, compositor e atual secretário de Cultura da Paraíba, Chico César, o jornalista, sociólogo e professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Muniz Sodré e do doutorando em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Paulo Sérgio da Silva.

Expressão através da arte -  Responsável por abrir o debate, Aryson Heráclito apresentou ao público que lotava o auditório exemplo de artistas que conseguem utilizar como matéria-prima de trabalho os elementos e características de identificação do povo negro. Foram citados nomes como o do bailarino Luiz Abreu, Rodrigo Bueno, Nádia Taquary, Alexandre Volger, entre outros. São artistas plásticos, criadores, intervencionistas que se inspiram na cultura afro-brasileira e em seus processos históricos. O pesquisador denomina o artista brasileiro como “cidadão afro-diáspora-politano”, conceito resultante do termo “afropolitano”, que significar deixar de ser negro e tornar-se um cidadão do mundo. América Latina - “ A África possui uma visão idealizada do Brasil”, diz Chico César no início de sua fala ao relembrar a visita de um amigo vindo do continente africano. A frase se encaixa em outros questionamento que o mesmo já teria recebido em relação ao local dos negros no Brasil e, sobretudo, na Paraíba, onde ocupa o cargo de secretário da Cultura. Ao longo da palestra, trouxe à tona as discussões sobre identidade, pertencimento e reconhecimento, chamando atenção para o posicionamento do Brasil diante dos países vizinhos. “Há uma dificuldade de nos reconhecermos com América Latina. Quando encontrarmos as conexões e estabelecer a cooperação, os negros serão recolocados a partir de um sentido verdadeiramente latinoamericano, o sentido de uma revolução feita por baixo, pelos trabalhadores e que nada tem a ver com as divisões em blocos econômicos”, completa. Movimento longo e intenso - Em seguida, foi a vez do professor Sodré, o qual arrancou aplausos dos participantes em diversos momentos, em função de suas colocações bastante palatáveis. Logo no início, criticou produções de determinados veículos de comunicação jornalística, que retratam a atual inserção social, educacional e econômica do povo negro como resultado unicamente de ações governamentais. “  Aqui – matéria publicada no jornal o Globo – está omitido o protagonismo dos negros e pardos no processo de reconhecimento e inserção desta camada populacional na sociedade. O movimento negro é o mais longo da história do Brasil”, chama atenção o professor. Sodré passou ainda pela definição dos conceitos de minoria e cultura, relação pela qual é possível expressar o significado do termo culturas negras. Chamou ainda atenção para a questão identitária e dos cultos afro-brasileiros. “Identidade não pré-existe a nenhum sujeito ou grupo social. Ela se constrói e se mobiliza nas interações, seja de gênero, raça ou étnica”. No que se refere ao candomblé, religião de matriz africana amplamente difundida e resignificada em regiões diversas do Brasil, o pesquisador afirma: “ o candomblé nada mais é que o resultado de uma organização elitista trazida do continente africano e se cristalizou como estratégia política para manter a aglutinação dos que de lá vieram”. Realidade e preconceito - Retomando as discussões sobre identidade, reconhecimento e visibilidade já tocadas anteriormente, Paulo Sérgio chamou atenção para a realidade e o que se construiu midiaticamente em relação a presença do negros no Rio Grande do Sul. “ Há uma vaga dimensão do negro no Rio Grande do Sul. O forte discurso de afirmação do título de estado mais europeu do Brasil esconde uma forte carga de preconceito e de invisibilidade da população negra ali presente”. Fotos por Julien Karl