Filósofo Luc Ferry realiza conferência no Fronteiras Braskem do Pensamento nesta quarta-feira (16)

15/09/2015
“O ser humano é uma das últimas coisas sagradas hoje em dia. Os jovens ocidentais não são capazes de morrer pela pátria, por Deus, ou pela revolução”, afirma o filósofo francês Luc Ferry, propagador de uma filosofia menos preocupada com discussões eruditas, e mais voltada à compreensão do melhor caminho para o conhecimento e para a convivência entre os homens, que sobe ao palco do Teatro Castro Alves para realizar conferência no Fronteiras Braskem do Pensamento, no dia 16 de setembro, às 20h30. O projeto Fronteiras Braskem do Pensamento, que propõe uma profunda análise da contemporaneidade e das perspectivas para o futuro, tem patrocínio de Braskem e do Governo do Estado, através do Fazcultura, Secretaria da Fazenda e Secretaria de Cultura do Estado da Bahia. Com mais de 30 obras escritas e forte atuação política em seu país, Ferry defende que viver bem é a melhor resposta que a filosofia pode dar aos grandes dilemas da existência. “Os únicos seres pelos quais seríamos capazes de arriscar nossa vida são os outros seres humanos – nossos filhos, amigos ou pessoas que passam por situações graves de miséria. O sagrado não desapareceu, ele só mudou de lugar e se encarnou na humanidade”, afirma o filósofo. Defensor do Humanismo Secular – visão de mundo que se contrapõe à religião e coloca a razão crítica no lugar da fé – Ferry afirma que passamos de uma transcendência vertical, a partir das figuras de Deus, da pátria, ou das grandes utopias, para uma transcendência horizontal, dos homens. “É uma maravilha não morrer por motivos estúpidos. Muita gente acha que o fim das utopias é uma tragédia. Para mim, é uma coisa formidável”, pontua o intelectual que já foi ministro da Juventude, Educação Nacional e Pesquisa da França no governo de Jacques Chirac, entre 2002 e 2004. Enquanto esteve no cargo, focou na melhoria da escrita e leitura das crianças e adolescentes franceses, enfrentou greves de professores e se tornou polêmico por proibir o uso de símbolos religiosos nas escolas públicas francesas. Na visão de Ferry, o término dos ideais também influencia a política, que deixa de ser um fim em si mesma e passa a ser um auxílio para a vida privada. “Hoje em dia, as pessoas pedem que nós, políticos, sejamos um instrumento do desenvolvimento da família. Daí surgem problemas novos, como a preocupação com as gerações futuras, com a ecologia e também com a dívida pública. Temos que dar conta desses problemas não para contribuir para a grandeza do país, mas porque não queremos deixar um mundo pior para nossos filhos”, diz. Um dos poucos intelectuais de direita de sua geração, o filósofo detecta pontos positivos na globalização liberal, como a emancipação do estado das tradições religiosas. “A religião deixa de estruturar o espaço político e jurídico e passa a ser de domínio particular, de fé pessoal, o que é um progresso formidável. É algo que tornou, por exemplo, na Europa, os europeus muito mais tolerantes do que eram na época das grandes guerras religiosas. A globalização liberal não é sinônimo de dominação dos Estados Unidos sobre o mundo. É também um efeito positivo para se emancipar das estruturas teocráticas”, afirma. Nascido em Colombes, Luc Ferry é filho de um desenvolvedor de carros esportivos e de uma dona de casa. Estudou nas tradicionais universidades de Sorbonne, na França, e Heidelberg, na Alemanha. Aos 24 anos iniciou a lecionar Filosofia e em 1980 fez seu pós-doutorado em ciências política na Universidade de Reims. Em 1982 tornou-se professor universitário, trabalhando no Instituto de Estudos Políticos de Lion, na Universidade de Caen e na Universidade Paris VII. Sua carreira política ganhou destaque em 2009, ao ser nomeado membro do Comitê Consultivo Nacional de Ética, no controverso governo do presidente Nicolas Sarkozy. Ao longo de sua carreira, Luc Ferry publicou mais de trinta livros sobre temas que vão de Nietzsche à ecologia. Dentre as obras impressas no Brasil, destaca-se A sabedoria dos modernos (1997) – que explora os dois caminhos da filosofia contemporânea, o materialismo e o humanismo – e o best-seller Aprender a viver (2007) que discute nomes como Husserl e Heidegger de forma clara e objetiva, expondo a filosofia em linguagem acessível e como caminho para uma vida melhor. Já em O Homem-Deus: ou o sentido da vida (2007), questiona a situação atual da espiritualidade pós Iluminismo, Positivismo e revoluções tecnológica e científica. E entre seus mais recentes livros e temáticas estão Famílias, amo vocês (2008), Vencer os medos (2008), A tentação do cristianismo (2011), A sabedoria dos mitos gregos - Aprender a viver II (2012), A revolução do amor (2012), Do amor - uma filosofia para o século XXI (2013) eA inovação destruidora - ensaio sobre a lógica (2015). Ainda que os títulos das obras de Luc Ferry se pareçam muito com os de best-sellers de autoajuda, a preocupação do filósofo é a de propagar uma filosofia que traga respostas para o homem superar seus medos – obstáculos que impedem que ele ame os outros e seja livre. Por isso, para o filósofo, é o amor que dá sentido à vida hoje, pois é uma das poucas coisas indiscutíveis da existência contemporânea. “Antigamente, o valor absoluto era uma coisa transcendente, superior a nós, como Deus e a eternidade. Ele caía do céu. Mas agora ele está em nós. Funciona mais ou menos como alguém que se apaixona: ele descobre a transcendência do outro, mas consciente de que o sentimento vem de si. A verdade não é mais descoberta hoje sob argumentos autoritários, superiores, mas na sua parte mais íntima – o coração”. Por isso o intelectual se coloca radicalmente contra as proibições legais ao casamento homoafetivo, afirmando que a condenação de práticas homossexuais pelas religiões é baseada em uma concepção da natureza que já não se aplica. “Sabemos graças a Newton e Darwin que a lei da natureza não é a de harmonia e justiça, mas a lei dos mais fortes. E a medicina moderna, assim como a política, está em uma luta desesperada contra a lei da seleção natural. Os nossos sistemas de proteção social, por exemplo, são construídos para evitar a eliminação dos mais fracos. A natureza pode ser tudo, menos um padrão para a nossa moral e política. Então, devemos pensar a questão do casamento gay em termos de vontade e de liberdade, e nunca em termos de natureza”. Luc Ferry também é conhecido por combater os fundamentalismos religiosos radicais e afirmar uma “espiritualidade laica”, uma defesa de grandes valores que não passam necessariamente pelo campo da fé. “Existem espiritualidades nas quais há deuses, as religiões, e espiritualidade sem Deus, as grandes filosofias. Mas o que nos falta hoje é uma espiritualidade laica, uma concepção da vida boa, uma visão do mundo comum que nós queremos construir juntos”, propõe.   Sobre o Fronteiras do Pensamento - O Fronteiras do Pensamento é um projeto cultural múltiplo que propõe uma profunda análise da contemporaneidade e das perspectivas para o futuro. Comprometido com a liberdade de expressão, a diversidade de ideias e a educação de alta qualidade, promove conferências internacionais e desenvolve diferentes conteúdos que apresentam os mais renomados pensadores, artistas, cientistas e líderes em seus campos de atuação. Temas, ideias e personalidades que moldam o nosso tempo ocupam o palco do Fronteiras, que tem como valores básicos o pluralismo das abordagens e o rigor acadêmico e intelectual de seus convidados. Dessa forma, o seminário internacional busca avaliar tendências, aceitando a provocação destes que são, hoje, alguns dos mais renomados pensadores em atuação no mundo, constituindo uma linha interdisciplinar de pensamento. Em seus nove anos de existência, o Fronteiras do Pensamento conta com mais de duas centenas de conferências internacionais realizadas para milhares de espectadores, servindo como plataforma para a geração de filmes de curta e média metragens, séries de livros e fascículos educacionais, além de diversas outras publicações nas diferentes áreas contempladas. O conhecimento e as ideias também estão acessíveis ao grande público através do portal, que oferece centenas de vídeos – com legendas em português, espanhol e inglês –, além de artigos, notícias e entrevistas para refletir, comentar e compartilhar.   Fronteiras Braskem do Pensamento Salvador 2015 Conferências: Luc Ferry, 16/9 (vagas esgotadas); Quando: Teatro Castro Alves, às 20h30.