31/08/2016
Foto: Cláudio Mendes
Finalizando a série de textos sobre o Mês da Cultura Popular apresentamos a manifestação de Nilo Peçanha, o Zambiapunga.
O Dia de Finados na Bahia, assim como no Brasil é uma data religiosa, para alguns macabra, e geralmente triste. Mas, diferentemente da maioria dos lugares, em Nilo Peçanha, cidade a 150 km de Salvador, o dia dos mortos é comemorado com desfiles e muita cor. É a Zambiapunga manifestação folclórica onde um cortejo de pessoas mascaradas, com roupas coloridas e feitas com retalhos de panos e papeis de seda. Eles saem às ruas durante na madrugada do dia primeiro de novembro, véspera do Dia de Finados, dançando e acordando a população da cidade ao som extraídos de enxadas usadas como instrumentos, de tambores, cuícas (berra boi) e búzios - ferramentas utilizadas pelos escravos no dia a dia de seus trabalhos nas lavouras e nos remanescestes de quilombos que ainda hoje existem nesta região.
Essa manifestação popular liga-se profundamente a aspectos culturais e religiosos importados do continente africano, mais especificamente dos povos de língua Banto. O termo provavelmente originou-se de Zamiapombo, deus supremo dos candomblés de alguns países, como Angola e Congo. Zambi ou Nzambi-a-Mpungu é o Deus supremo de povos bantos do Baixo Congo. A população local volta sua atenção para a lembrança de seus mortos que são homenageados com flores, velas e missas, mas com o tempo o caráter religioso se perdeu. O Zambiapunga ficou inativo em Nilo Peçanha cerca de 20 anos sendo revitalizado em 1982 pela professora Lili Camardelli. Mas só em 1996 foi registrado enquanto entidade, como ONG.
São mais ou menos 70 mascarados que fazem parte do Grupo Folclórico Cultural Zambiapunga fundado em 1985 em Nilo Peçanha. Uma curiosidade do grupo é o laço de parentesco que existe entre eles, já que a grande maioria faz parte de um mesmo núcleo familiar. Dessa forma, dá-se continuidade a uma tradição herdada de pai para filho originada dos antigos mestres da cultura popular da região.
Elival Antonio Barreto do Rosário, ex presidente do grupo, trabalhou 16 anos a frente das manifestações e eventos do grupo. Desde os sete anos ele esteve envolvido com grupo. Foi pra Salvador, mas acabou voltando já pra ser o guia central da festa. “São 3 guias, eu era o do meio, fazendo a coreografia grupo. Eu criei também o grupo Zambiapunga Mirim, onde meu filho começou”. Em 2013 Elival e o grupo foram representar o Brasil no Marrocos no festival Ritmos do Mundo.
Valmorio, filho de Elival, também presidiu o grupo, conta que essa hereditariedade é como um dom. “Eu nasci dentro do Zambiapunga, e é uma experiência única. O grupo é hereditário, então parece que ta no sangue. Qualquer criança de Nilo nasce sabendo tocar enxada. Tudo isso fortalece a cultura negra, tão forte na região, aqui mesmo tem dois quilombos. Talvez daí venha o dom, dessa cultura negra forte”.
Grupo Folclórico Zambiapunga faz espetáculos itinerantes, percorremos toda a área do evento fazendo coreografias em círculos no meio do publico podendo finalizar diante do palco ou abrindo a apresentação de outros grupos. Tornou-se uma das maiores manifestações folclóricas do Estado da Bahia, a tradição do cortejo pela madrugada é um espetáculo que encanta os turistas e moradores, brinca com as crianças e são prova da diversidade cultural do Brasil.
Mês da Cultura Popular - Durante o mês de agosto a Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (SecultBA) homenageia as manifestações populares do estado, com textos e vídeos que trazem ao público conhecimento das ricas e diversificadas expressões culturais do povo baiano. Para acessar todos os textos e vídeos do Mês da Cultura Popular clique no botão abaixo.
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