Cultura em Movimento Perfil Especial 468 anos da Cidade de Salvador: Mestre Didi

27/03/2017
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Este é um perfil especial. Na semana do aniversário da cidade do Salvador, a Secretaria de Cultura do Estado da Bahia personifica o 29 de março e faz uma homenagem ao Mestre Didi (1917 – 2013). Escritor, artista plástico e sacerdote afro-brasileiro que completaria 100 anos em 2017. Para isso, pedimos a colaboração do professor Gildeci de Oliveira Leite que nos brinda com um revelador sobre a vida e a obra de Deoscóredes Maximiliano dos Santos.


MESTRE DIDI
SACERDOTE, ARTISTA, INTELECTUAL DE SALVADOR, DA BAHIA


Autor: Gildeci de Oliveira Leite

Mestre Didi é um sacerdote, artista e intelectual. Muito já se disse sobre colocar em primeiro lugar a palavra sacerdote ou a palavra artista ou intelectual. Alguns segmentos contemporâneos, acreditam que, tratando-se de personalidade negra, não colocar a palavra e o significado artista ou intelectual antes do sacerdote seria não deixar que o homem negro e a mulher negra sejam percebidos para além do território da religiosidade. Entende-se, que a ideia de soma existe, une as habilidades e missões em um só homem, revelando a origem de sua criação artística e intelectual, seu território de inspiração. No caso específico de Mestre Didi, Deoscóredes Maximiliano dos Santos, sua arte, bem como sua produção monográfica, veem de sua vivência com as religiões dos orixás e com a religião de culto aos ancestrais na Bahia. Faz-se necessário lembrar, que além das artes plásticas, arte de maior destaque em sua produção, Mestre Didi construiu obras literárias e monográficas.

Mestre Didi poderia ser mais um artesão, limitando-se ao “copismo” daqueles, que, não conseguem se apropriar do que veem, percebem, sentem para criar, recriar algo que seja diferente, atemporal, de vanguarda, recriando a ancestralidade. Nascido em 02 de dezembro de 1917, por vários motivos poder-se-ia dizer que o menino Didi fora um bem nascido, diante de uma perspectiva do simbólico. No dia em que dona Maria Bibiana do Espirito Santo, Mãe Senhora, dava a luz ao seu único rebento, executava-se no Brasil, pela primeira vez um samba ao rádio, a música “Pelo Telefone” de Ernesto dos Santos, o famoso Donga. Mesmo não havendo alguma relação de parentesco com Donga, a recordação serve para ilustrar, que de certa forma os caminhos para o sucesso estavam predestinados ao menino Didi. Anos mais tarde, já na década de 1960, Vinícius de Moraes pediria a bênção a “Mãe Senhora maior Yalorixá da Bahia” na canção “Samba da Bênção”. Em 1963, na capital baiana institui-se o dia Nacional do Samba: 02 de dezembro. Diversas representações de simbologias negras coadunam para o 02 de dezembro, quem sabe uma conspiração ancestral.

O sacerdócio de Mestre Didi possui um link comprovado com o continente africano, com o reino de Ketu. Sua família biológica africana possui o sobrenome Asipà e constitui-se em uma das cinco células fundadoras do Reino de Ketu. Em 1925 na llha de Itaparica, o título que recebera foi Kori Kowê Olukotun, o Escrivão de Babá Olukotum, um ancestral que em vida foi filho de Oxalá. Uma das vantagens de contar uma história é poder fazer diversos links, que talvez, nem os atores e atrizes da história puderam fazer em concomitância com os acontecimentos. No Ilê Olukotum Tuntun, na ilha de Itaparica, Babá Olukotum já havia prenunciado a existência de um escritor com apenas 08 (oito) anos de idade, que lançaria sua primeira obra em 1946, 21 (vinte e um) anos depois. Seu primeiro livro, até hoje, é objeto de estudos por linguistas, historiadores, críticos da literatura e da cultura, além de curiosos diversos. Yorubá tal Qual se Fala é um dicionário-vocabulário iorubá e português. Mestre Didi transcendia os limites do uso do jargão religioso na citada língua africana, ele falava iorubá. Outros livros foram escritos. Mestre Didi possui publicações em português, inglês, francês, espanhol e ioruba, possui uma considerável lista de exposições, prêmios, títulos honoríficos e sacerdotais. Mas é preciso dizer que um dos títulos que mais nos orgulha é o de ter nascido na Cidade da Baía de Todos os Santos, na Cidade do São Salvador, na Bahia, em Salvador. Mestre Didi é baiano, soteropolitano de nascimento, de direito e de coração e constitui-se em um dos símbolos de maior representação de nosso estado, de nossa Cidade tornando esses territórios cada vez mais cosmopolitas como ele em sua diversidade transatlântica.