Mesas de debates marcam o segundo dia de capacitação dos coordenadores das Escolas Culturais

11/04/2018
g
Foto: Lucas Rosário

Seguindo a programação da capacitação oferecida aos 85 coordenadores culturais, selecionados por meio de edital para execução do Projeto Escolas Culturais, a manhã desta quarta-feira (11) foi de intercâmbio de informações entre as entidades culturais vinculadas à Secretaria de Cultura da Bahia (SecultBA), no Hotel Sol Vitória Marina, no Corredor da Vitória, em Salvador.

A primeira mesa de debates discutiu o tema ‘Pensando conceitos, cultura, acessibilidade, articulação e outros’, com Sandro Magalhães, superintendente de Desenvolvimento Territorial da SecultBA. Para ele, o agente cultural, além da fruição ou de algum desempenho como ator profissional no campo simbólico, se envolve em participação ativa no ambiente cultural. O agente cultural surge num ambiente marcado pela presença da cidadania e dos direitos culturais.

g
Sandro Magalhães / Foto: Lucas Rosário

“Estamos no momento em que os direitos culturais não são só discutidos, mas são efetivados como política. As Escolas Culturais assumem um posicionamento contrário às posições discriminatórias, elitistas, homofóbicas, intolerantes, machistas, preconceituosas, racistas e violentas. Por isso, o agente cultural deve possuir posicionamento e forte envolvimento com a comunidade que pertence, principalmente, no que tange às atividades de artesanato, cultura popular, bandas filarmônicas / fanfarras, e teatro, as quatro linguagens mais encontradas no Brasil, e que por isso, necessitam de maior atenção desses protagonistas”, explica Magalhães que também apontou importantes dados da cultura do Brasil, entre 2003 e 2011.

“O orçamento da cultura no Brasil passou de 0,2% do total de recursos da União para mais de 1% em 2010. Nos oito anos, as verbas do Ministério da Cultura quadruplicaram, passou de R$540 milhões em 2003 para R$ 2,2 bilhões, a renúncia fiscal mobilizada para produção cultural aumentou de R$ 400 milhões para mais de R$ 1 bilhão, e mais de 5000 pontos de cultura foram certificados em todo Brasil, durante este período”, pontuou o superintendente.

g
Zulu Araújo / Foto: Lucas Rosário

A segunda mesa de discussões contou com as presenças de Zulu Araújo, da Fundação Pedro Calmon, de Ronaldo Barros, do Centro de Culturas Populares e Identitárias (CCPI), e de Renata Dias, da Fundação Cultural do Estado da Bahia, todos expondo sobre as principais ações e diretrizes destas unidades.

Zulu Araújo explicou a dificuldade histórica do diálogo entre educação e cultura no Brasil. Para ele, deve-se priorizar a visão antropológica da cultura, pois a educação é uma dimensão da cultura, normalmente, interpretada de forma contrária. “A cultura é o que nos faz gente. As religiões de matrizes africanas são demonizadas por alguns professores em sala de aula, na Bahia, uma forte presença de evangélicos no ambiente escolar promove a intolerância na escola. Essa questão precisa ser esmiuçada pelos agentes das Escolas Culturais”, defendeu o gestor.

g
Juscelina Nascimento / Foto: Lucas Rosário

A cidadania cultural também foi discutida no evento. Juscelina Nascimento, diretora de Cidadania Cultural (DCC) da Superintendência de Desenvolvimento Territorial da Cultura (Sudecult), setor da SecultBa, apresentou a possibilidade de parcerias entre os Pontos de Cultura e as Escolas Culturais. “A DCC trata do programa nacional Cultura Viva. No nosso estado, esse programa se manifesta de maneira muito concreta, através dos Pontos de Cultura. Esse convênio federal com forte incentivo estadual está, hoje, espalhado nos 27 territórios de identidade da Bahia. O ponto de cultura dinamiza a localidade com o seu fazer cultural, por receber apoio financeiro e institucional, o ponto de cultura se transforma em parceiro em potencial da Escola Cultural. Os coordenadores devem entrar em contato com o ponto de cultura da sua cidade ou do seu território, pois estes pontos funcionam como parceiros estratégicos, articuladores. Um parceiro que já está qualificado para o trabalho dos coordenadores”, explica Nascimento.

Luciene Cruz é uma coordenadora selecionada para atuar na Escola Cultural no município de Lençois. Ela espera que as Escolas Culturais devam facilitar e fortalecer o diálogo entre a cultura local e as escolas. “Lençois é um local que possui importantes projetos culturais em andamento, possuímos mapeamento e para além de visualizar os projetos que podem ser realizados, existem esses projetos que possivelmente se transformarão em parceiros da Escola Cultural. Existem algumas dificuldades, porém precisamos enfrentar esses desafios, e eu estou pronta para enfrentar os desafios que vierem”, comemora a coordenadora.

No sertão da Bahia, Geisabel Silveira coordenará a Escola Cultural do município de Uauá. “Apesar de Uauá ser um lugar muito escasso, árido de direitos, na perspectiva de acesso a políticas culturais, quando a gente pensa no projeto que vai valorizar, fortalecer as culturas identitárias, partindo das escolas, do trabalho com os jovens como ferramenta de empoderamento, isso possibilita aos sujeitos o enfrentamento nos processos de opressão, de negação de direitos que lhe é histórico nesse território. Trabalhar com a cultura, fortalecendo o povo para resistir a esses processos, para reinventar suas próprias existências e modificarem a realidade, é proporcionar a ressignificação da própria existência através da cultura”, vislumbra Geisabel.