Casa Branca recebe Alvorada dos Ojás 2021, que homenageia Oxóssi

18/11/2021
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A Alvorada dos Ojás, atividade político-religiosa que consiste na amarração de tecidos brancos sagrados em árvores de Salvador, sempre no mês de novembro, em pedido de paz e respeito à liberdade de crença, está de volta nesta sexta-feira, 19, às 18h, após hiato provocado pelas restrições impostas ao mundo pela pandemia da Covid-19. O evento será sediado pelo Terreiro da Casa Branca, na Avenida Vasco da Gama, e também será transmitido online nas redes sociais do Coletivo de Entidades Negras (CEN), do IREE, Mídia 4P e Jornalistas Livres

Realizado há 15 anos pelo Coletivo de Entidades Negras (CEN), organização nacional de luta pelos direitos da população negra, o ato de adornar as árvores soteropolitanas com os tecidos usados cotidianamente para cobrir a cabeça de adeptos do candomblé durante os ritos religiosos vai homenagear, em 2021, as divindades Oxóssi, Agué e Mutalambo. Essas divindades são cultuadas, respectivamente, nas tradições Ketu-nagô, Jeje e Angola, como os responsáveis pela fartura, alimentação e prosperidade.

O tema do ano, portanto, reverencia essas energias para clamar pelo fim da fome, da carestia e das desigualdades sociais. “Decidimos homenagear e saudar o orixá Oxóssi (cultuado enquanto nkisi Mutalambo entre os angoleiros e como vodun Agué na tradição jeje) pois são eles os Reis das Matas, grandes caçadores e provedores da fartura, da prosperidade. São eles os donos da flecha certeira”, afirma manifesto divulgado pelo CEN nas suas redes sociais para convocar o ato político-religioso.

“Ao reverenciarmos essas divindades, clamamos por piedade e misericórdia para nós seres humanos, principalmente os mais frágeis socialmente – nós que, sem essas energias, não podemos acessar a riqueza do alimento e da fauna e da flora”, complementa o texto, que também confirma o local da atividade em 2021: o Ilê Axé Iyá Nassô Oká, Terreiro da Casa Branca, considerado o primeiro candomblé do Brasil, templo religioso de matriz africana dedicado justamente ao poderoso caçador Oxóssi.

No templo, acontecerá, a partir das 18h, a cerimônia de sacralização dos Ojás e saudações de várias lideranças sociais, políticas e religiosas, em caráter ecumênico. Às 20h, após o fim da atividade, terá início a amarração dos tecidos sagrados nas árvores, desta vez apenas nas regiões do Dique do Tororó e do Campo Grande, para evitar aglomerações devido aos cuidados sanitários que ainda são necessários.

Como ocorre tradicionalmente, os tecidos serão pintados em branco sobre branco, sob a liderança do artista plástico e presidente do Cortejo Afro, Alberto Pitta, que anualmente elabora uma estamparia especial para a Alvorada dos Ojás e realiza a pintura dos panos no seu ateliê no Ilê Axé Oyá.

“Em 2020, a Alvorada dos Ojás adotou o silêncio que o mundo pedia naquele momento, clamamos a Omolú, Obaluaê, Kavungo, Sakpatá e Azoany, para que essas divindades usassem das suas palhas como remédio para tantas mazelas que nos invadia àquela altura. Respeitamos o momento conturbado que o mundo vivia, em solidariedade a tanta dor. Mas agora já é hora de voltar e apontar as dores que se intensificaram com o momento pandêmico e que tem afetado o nosso povo. A fome é a principal delas”, explica o historiador Marcos Rezende, fundador e membro da Direção Nacional do CEN e Ogan de Ewá e Ojuobá da Casa de Oxumarê.

O pedido de respeito à liberdade religiosa e de culto continua, contudo, no centro da mensagem social produzida pela Alvorada dos Ojás, relembra a ekedi de Oxóssi Iraildes Andrade, Iyarobá da Casa de Oxumarê e dirigente do Coletivo de Entidades Negras. “Homenagear Oxóssi, Agué e Mutalambo justamente no ano em que somos recebidos e acolhidos generosamente pela comunidade da Casa Branca, a casa matriz do candomblé ketu do Brasil, um terreiro liderado por Oxóssi, trata-se também de um pedido de respeito religioso às nossas tradições, ao que cultuamos na essência: a natureza e o meio-ambiente, já tão atacados nesta conjuntura política e social esgarçada pelo fascismo e pelo conservadorismo anti-ambientalista”, afirma a líder religiosa.

A iyalorixá da Casa Branca, Neuza de Xangô, pontua ainda que os desafios climáticos do mundo, conectados com a pauta do compromisso com a igualdade sociorracial entre os povos, são pautas a serem observadas com atenção por todos aqueles e todas aquelas que são de candomblé. “Sem natureza e meio-ambiente, e também sem igualdade, nossa religião deixa de existir”, afirma a mãe de santo. "Reafirmar essas pautas na Alvorada dos Ojás, esse ato religioso e político-social tão bonito, é uma honra para nós da Comunidade da Casa Branca, que tem compromisso histórico, desde o nascimento do candomblé, com a liberdade do povo negro, com a pauta de proteção ambiental que rege a nossa religião e com o cuidado com as pessoas que mais precisam", disse.

O evento é apoiado pelo Instituto para Reforma das Relações entre Estado e Empresa (IREE) e pelo Governo da Bahia, por meio da Bahiatursa, da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial Sepromi), e da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (SecultBA) através Centro de Culturas Populares e Identitárias (CCPI).


SERVIÇO


ALVORADA DOS OJÁS
Cerimônia Interreligiosa de Sacralização dos Ojás
QUANDO: Sexta-feira, 19 de novembro, às 18h
ONDE: Terreiro da Casa Branca, Vasco da Gama
TRANSMISSÃO ONLINE: Redes sociais do CEN, do IREE, Mídia 4P e Jornalistas Livres