O último dia da folia momesca, mais uma vez as ruas do circuito Mãe Hilda Jitolu, na Liberdade, foram tomadas por uma diversidade e alegria, com a presença dos blocos afros, afoxés e de samba já são considerados o ponto forte do circuito. Cada bloco, com sua identidade única e repertório diversificado, fez a festa e a celebração para os foliões no bairro mais populoso e representativo da cultura negra na cidade. O circuito mantém vivo um legado com mais de 50 anos de manutenção de uma parte essencial da identidade cultural do povo soteropolitano, refletindo suas tradições, história e valores.
Blocos como A Mulherada, Sambrasil, Ska Reggae e Carnapelô levaram música, dança e manifestações artísticas e culturais para seus desfiles, animando festa de famílias e foliões, que desejavam fugir do grande fluxo dos pontos centrais carnavalescos. “É importante ter um carnaval assim, principalmente para as crianças. Os blocos afro estão lindos, não tenho o que reclamar. É um lugar mais seguro.”, disse, Ana Paula Santos, 33 anos. A cuidadora de idoso levou os filhos Henrique, 3 anos, e Ana Carolina, 6 anos.
Uma das primeiras entidades a desfilar na tarde de hoje foi o A Mulherada, com mais de 22 anos de existência, o bloco fez o circuito tremer ao som dos tambores. O público se entregou à cadência das batucadas e ao ijexá, mostrando que o ritmo continua vibrante nas ruas de Salvador. Com tema “Aróbobòyi Òsùmàrè!” – Salve o Senhor dos Ciclos”, o grupo celebra a herança espiritual africana e saúda Oxumarê como orixá dos ciclos e da renovação. Por ser um orixá que transita no universo feminino, sua dualidade tem profunda relação com as ideias de respeito e equidade da instituição.
“Hoje, estamos aqui abrilhantando esse circuito que é de grande importância. Mãe Hilda Jitolu, a mulher que criou o primeiro bloco afro da Bahia e do mundo. Então, abriu caminhos e espaços para a gente, nós mulheres pretas candoblecistas. Com o tema do Òsùmàrè, o senhor dos ciclos, a mulherada está levando isso. Acolhendo todas as mulheres da cidade de Salvador, sendo elas gays, lésbicas, levantando a bandeira LGBTQAPN+”, enfatizou Juliete Ribeiro, 35 anos, diretora artística do bloco.
Dando seguimento a folia, o Sambrasil, trouxe toda a tradição do samba junino com o tema "Samba, o ritmo Brasileiro”. A agremiação é um movimento cultural criado no bairro da Liberdade em 2006, inicialmente com a proposta de estar presente no São João e no 2 de julho. “Surgimos como uma ação para entretenimento do povo da liberdade, mas devido a ascensão, há 13 anos resolvemos botar no Carnaval“, contou o presidente Agnelo Santana.
Com um ritmo contagiante e um repertório cheio de swing o bloco foi puxado pelo Bambeia, um dos maiores ícones do gênero na cidade, que conta com mais de 25 anos de história. O Sambrasil fez a alegria dos amantes do samba junino presentes no circuito. É por meio do incentivo que as entidades recebem, do governo do estado, através do Ouro Negro, tem sido possível trazer atrações tão importantes. “Se não tiver o apoio institucional não conseguimos fazer nada” seguiu dizendo o presidente.
Também desfilaram hoje o Ska Reggae e Carnapelô, outros dois blocos que fazem parte do Programa Ouro Negro, e fizeram os foliões se entregaram a cadencia pulsante do reggae e samba, dançando e cantando ao som de músicas que marcaram época. Todos embalados pelo ritmo que encerrou a programação do último dia de folia na Liberdade. Entre rodas de samba improvisadas e coreografias contagiantes, os foliões celebraram a cultura e a música da Bahia em um ambiente de festa e descontração familiar.
Júlio Vaz Bispo dos Santos, 34 anos, componente da banda do Ska Reggae, falou sobre o quão é importante para ele tocar num circuito voltado para as famílias. “Tocar aqui foi o maior orgulho, porque eu moro aqui próximo, no Pero Vaz. E assim, poder atrair os jovens para poder aprender um pouco de percussão".
O circuito Mãe Hilda Jitolu se originou na rua Direta do Curuzu, e há mais de 50 anos, é percorrido pelo Ilê Aiyê, o mais antigo bloco afro do Brasil, porém só foi oficializado em 2021. Seu nome homenageia Mãe Hilda, a ialorixá do Axé Jitolu, terreiro de candomblé de tradição jêje savalu. A ialorixá morre em 2009, aos 86 anos, foi a guia espiritual do bloco Ilê Aiyê, é considerada uma das mais importantes lideranças religiosas do país.
* Clique aqui e acompanhe também o canal da SecultBA no WhatsApp