Quem esteve no circuito Manéca Ferreira, neste domingo (4), não ficou de fora quando o bloco Quixabeira da Matinha desfilou com seu samba de roda contagiante. Uma multidão composta de variadas gerações foi arrastada pela dança e ritmo vibrante da agremiação, que é símbolo de força, resistência, ancestralidade e história das tradições musicais do sertão e da cultura afro-descendente. O tema do cortejo deste ano foi “Vencedor de Batalhas – 15 anos de resistência na Micareta de Feira”.
Durante todo o percurso, os foliões responderam com entusiamo, aplaudindo, dançando e cantando as músicas do repertório, embaladas por músicos de diferentes gerações da comunidade de Matinha, tocando cavaquinho, violão, contrabaixo, conga, timbau, atabaque, tamborim, pandeiro e bateria. Nas letras das músicas, o retrato da força das raízes afro-brasileiras, da história e do cotidiano do povo nordestino.
À frente do trio, estavam a Miss e o Mister Quilombola Matinha 2025, Leandra Jesus e Gustavo Santos, respectivamente. Naturais da Matinha dos Pretos, comunidade recente de quilombo localizada no Distrito de Matinha, ambos carregaram com orgulho a missão de representar a cultura e a identidade quilombola e de dar continuidade ao legado de resistência ancestral.
“Foram vários meses de preparação. Hoje, represento a continuidade da luta do nosso povo, um povo que não esmurece e sempre levanta a cabeça. Estar aqui também é uma forma de convidar outras meninas a somarem-se à luta. Não é somente uma coroa que a gente ganha; é uma missão”, disse Leandra Jesus.
Reforçando a fala da parceira de desfile, o Mister Gustavo Santos ressaltou que a rua é espaço de festa, mas, também, de luta. “Precisamos dar visibilidade ao legado de resistência dos que nos antecederam e nunca deixar de expor as nossas reivindicações. A rua também é palco para manifestações. Graças aos nossos antepassados, que enfrentaram todas as formas de opressão, estamos aqui”, pontuou.
A cantora e sambista feirense, Maryzelia Conceição, abrilhantou ainda mais o cortejo com uma participação especial. Visivelmente emocionada, ela contou que acompanha a Quixabeira da Matinha desde criança, sempre defendendo e cantando o grupo. “Esse acompanhar vai além do samba; é ancestralidade. Há muitos anos bebo desta fonte e sempre divulgo a Quixabeira. Hoje, trouxe para a avenida a ancestralidade, o fortalecimento dos nossos, energia boa e positividade”, comemorou a artista.
Para Amélia Nunes, 60 anos, o Bloco Quixabeira da Matinha pulsa energia e cultura. “É algo que contagia, chama. É bonito de olhar, de ouvir, me emociono. No samba, nunca estamos sozinhos. O samba de roda é uma construção coletiva. Estou arrepiada. Por onde a Quixabeira passa, cativa mentes e corações. Cada vez mais, precisamos valorizar esse importante patrimônio cultural e imaterial que é o samba de roda da Bahia. Vim para a rua e trouxe uma amiga, minha filha e o namorado”, contou, mostrando os reflexos da emoção no próprio corpo.
REPERTÓRIO - Sambador, compositor, cantor e coordenador do bloco, Guda Quixabeira é defensor aguerrido do grupo. O músico levou à avenida, neste domingo de Micareta, o samba rural e a chula. A maior parte do repertório integra o álbum “Vencedor de Batalhas”, que deve ser lançado nas plataformas digitais ainda este ano, conforme Guda.
Apesar das conquistas, ele destacou ainda que a cultura popular e o samba de roda precisam de mais espaço e visibilidade. “O samba de roda e a cultura popular não estavam no cenário da Micareta de Feira. Em 2009, depois da nossa luta e de muita resistência, conseguimos entrar na Micareta. Foi um trabalho muito árduo. O Programa Ouro Negro também contribui bastante para que o samba de roda tenha mais espaço, visibilidade e estrutura. Ele chegou para solucionar várias questões na cultura de Feira de Santana”, informou.
BLOCO - Junto com o marido, conhecido como Coleirinho da Bahia, já falecido, Apoliária Jesus Oliveira, 76 anos, chamada de Dona Chica do Pandeiro, é uma das fundadoras do Bloco Quixabeira. Ambos são os pais de Guda Quixabeira e de outros três componentes da banda. Orgulhosa da história do seu povo, a sambadeira, cantadeira, compositora e pandeirista contou como surgiu o bloco e o esforço que atualmente tem feito para transpor os limites do corpo e continuar tocando esse instrumento.
“Meu avô e meu pai já cantavam e faziam samba de roda na Matinha. Eu acompanhava. Os encontros foram acontecendo, outras pessoas participando e, em 2010, fundamos o bloco. Ao longo do tempo, sofremos muita discriminação e trabalhamos muito para não deixar morrer a nossa cultura. Essa é a minha casa. Uma pena que, hoje, não bato mais o pandeiro como antes, porém, não quero deixar de tocar”, relembrou Dona Chica do Pandeiro.
Inicialmente sob o nome Samba de Preto, o bloco surgiu a partir da mobilização e reivindicação por um espaço na Micareta para as manifestações da cultura afrodescendente. Hoje, oferece oficinas gratuitas de percussão, cavaquinho, violão e samba de roda para a população da Matinha. Ainda faz parte da grade regular de atividades do bloco a realização de um seminário relacionado à cultura afro-brasileira.
O Bloco Quixabeira da Matinha é financiado com recursos do Governo do Estado da Bahia, por meio da Secretaria Estadual da Cultura (Secult), com apoio do edital Ouro Negro. O Ouro Negro é um programa que consolida o compromisso do Governo do Estado com a valorização das expressões afro-brasileiras. Mais do que apoio financeiro, reconhece e estimula o protagonismo dessas organizações, que mantêm viva a ancestralidade africana, promovendo arte, educação e inclusão social em suas comunidades de origem.
A Matinha é um distrito do município de Feira de Santana. Passou de povoado do distrito de Maria Quitéria a distrito de Feira de Santana em 2008. A sede do distrito, a comunidade Quilombola Matinha dos Pretos, foi reconhecida pela Fundação Cultural Palmares como comunidade Quilombola em 2016.