Projeto do Arquivo Público da Bahia usa IA para reconstruir rostos de pessoas escravizadas e libertas

29/07/2025
Arquivo Público do Estado da Bahia (APEB)


O Arquivo Público do Estado da Bahia (APEB), equipamento da Fundação Pedro Calmon (FPC/SecultBA), segunda instituição arquivística mais importante do país — superada apenas pelo Arquivo Nacional —, anuncia o lançamento do Projeto Fragmentos de Memória, integrado ao programa Resgate Ancestral. 

Sob a condução do Diretor do APEB, Jorge X e a gerência de Adalton Silva, responsável pela Coordenação de Preservação, a iniciativa propõe humanizar os registros de pessoas escravizadas na Bahia Colonial e Imperiais, transformando descrições burocráticas em retratos póstumos carregados de dignidade.

O trabalho combina três etapas principais. Primeiro, a digitalização de passaportes de pessoas escravizadas e libertas, cartas de alforria, livros de notas que registram a compra e venda de escravizados e inventários. Em seguida, a transcrição paleográfica para dar lastro às descrições que serão levantadas e interpretadas; depois, um levantamento iconográfico abrangendo desde os dados interpretados, pesquisas acadêmicas e trabalhos visuais como o do Jean Baptiste Debret (1816–1831) e as fotografias de Marc Ferrez (1882–1885), além de gravuras, álbuns de viajantes e acervos privados. Todo este processo visa catalogar trajes, cenários, adereços e marcadores visíveis. 

A partir daí, será realizada a criação de comandos (prompts) que integram dados documentais e visuais, alimentando modelos generativos que serão utilizados para a elaboração final dos retratos.

A fim de garantir a qualidade de cada etapa, foram firmadas parcerias estratégicas com o ateliê Memória & Arte, coordenado pela Dra. Vanilda Salignac de Sousa Mazzoni, que lidera a transcrição paleográfica dos documentos históricos. Destaca-se, ainda, a colaboração de Geovane Gomes Co, conhecido como "Bombyeck", guineense de Guiné-Bissau, da linhagem Djagra do povo Pepél, que habita a zona norte até o centro da capital Bissau. 

Formado em Letras e Literatura Brasileira, bacharel em Ciências Interdisciplinares Humanas e licenciando em Ciências Sociais pela UNILAB, "Bombyeck" atua como coordenador do grupo de extensão cultural de ritmos de dança e música africana "Kabaz Garandi" e é responsável pelo Departamento Cultural do Fórum dos Estudantes Guineenses em São Francisco do Conde. Sua contribuição tem sido essencial na interpretação das heranças culturais e visuais afroatlânticas presentes no projeto.

O projeto encontra-se, atualmente, na fase de coleta e organização de recursos e dados para serem interpretados: fotografias, gravuras e litografias estão sendo restauradas e utilizadas como referência visual inicial para compor o “combustível” que alimentará a inteligência artificial. As imagens geradas passarão por restauração digital. O projeto prevê parcerias colaborativas com o Arquivo Nacional e com o Arquivo Público do Estado de São Paulo. 

Entre julho e setembro de 2025, será ampliado o banco de referência visual e serão realizadas as primeiras rodadas de geração em maior escala. Em outubro, ocorrerão sessões de curadoria colaborativa e ajustes finos nos prompts. O lançamento oficial do resultado de “Fragmentos de Memória” está previsto para ocorrer dentro das comemorações do Novembro Negro deste ano. 

“Este projeto transforma documentos frios em rostos cheios de histórias. É um ato de justiça simbólica”, afirma o diretor do APEB, Jorge X.

Clique aqui e acompanhe também o canal da SecultBA no WhatsApp

Tags
FPC