Elegância e resgate à ancestralidade foram sinônimos do desfile do Bloco Afro Os Negões no circuito Osmar, na noite desta sexta-feira (13). Com o tema “Congo: Império Invisível da Bahia”, a histórica agremiação foi às ruas na companhia de representantes dos reinos de África, a fim de reafirmar a importância do continente na construção do estado baiano.
Apoiado pelo programa Ouro Negro, da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (Secult-BA), que incentiva blocos de matriz africana, Os Negões trouxe uma delegação de realeza para as ruas soteropolitanas: a Majestade Nene Tetteh Ayiku Abordonu IV, do Reino de Kabiawetsu, Estado de Ada, Gana; a Majestade Mambokadzi Aluko, Mulher Rei do Reino Mutapa do Zimbábue e o assistente e tradutor da Realeza, o cidadão angolano Kwabo Mabula.
Já na Avenida, atravessou a passarela Nelson Maleiro com muitas cores, coreografias e a potência da Poderosa Banda Afro Os Negões. À frente do trio, a beleza e autoestima do Negro Lindo encantava os foliões que apreciavam o desfile.
A professora Itaiana Ferreira, do Engenho Velho da Federação, afirmou sentir-se representada em sair com Os Negões, por ser uma mulher negra e de comunidade. “O bloco ensina uma mulher negra a poder dizer: ‘O meu lugar é onde eu quero estar’. E como isso? Levando uma mensagem para que respeite as pessoas negras, que nós temos nossos valores e o principal, nossas etnias”, disse com contundência.
Conceito do desfile - O presidente da agremiação, Paulo Roberto do Nascimento, pensa o desfile como uma reverência ao Reino do Congo e definiu como um “símbolo de continuidade política, cultural e espiritual dos povos africanos e afro-diaspóricos”
Já a vice-presidente Luma Nascimento, idealizou, para além da questão musical e artística, um conceito de reconhecimento epistemológico. “O tema propõe um reconhecimento epistemológico e estético da presença estruturante do antigo Reino do Kongo e os demais reinos do Continente Africano, na formação cultural afro-baiana. Muito além da experiência traumática da escravização, o Kongo emerge como matriz de pensamento, ciência espiritual e organização coletiva que continua presente nas manifestações, nos saberes de corpo e na memória do chão”, declarou.
Legado - Atuante desde 1982, Os Negões foi pensado como forma de valorização estética e social de homens negros. Para além da música, o bloco combate as desigualdades , durante todo o ano, e desempenha um papel de valorização da cultura afro-brasileira e da geração de renda na comunidade.
Apesar de no início ter sido permitida a participação de apenas homens com mais de 1,80 de altura, em 1995 foi liberada a entrada de homens mais baixos e das mulheres, mas ainda assim mantendo a valorização da beleza negra com a escolha anual do “Negro Lindo”.