O Bloco Afro Soweto desfilou na noite desta sexta-feira (13), no circuito Campo Grande, com o tema “Xetruá, Boiadeiro! A saga dos valentes do sertão na avenida”. O cortejo levou para o Carnaval da avenida uma homenagem aos boiadeiros, destacando sua força, espiritualidade e capacidade de resistência diante das adversidades, em uma apresentação marcada por dança, ancestralidade e afirmação da identidade nordestina e negra.
Fundado no ano 2000, no bairro do Uruguai, na Cidade Baixa, o bloco nasceu da iniciativa de Janilson Barabadá, carnavalesco, cantor e compositor com forte ligação com as entidades de matriz africana e com a valorização da resistência do povo preto. Desde então, o Soweto se consolidou como uma expressão cultural comunitária que alia arte, espiritualidade e mobilização social.
Neste ano, a escolha do tema buscou valorizar o simbolismo dos boiadeiros como figuras de resistência e conexão com a ancestralidade. Segundo Junior Afrikode, assistente social, conselheiro estadual de cultura e produtor cultural do bloco, a homenagem propõe uma reflexão sobre a trajetória do povo preto nordestino.
“A saga do boiadeiro é a saga do povo nordestino, que consegue extrair vida das situações mais difíceis. É uma história de resiliência, de coragem e de permanência”, afirmou.
Afrikode também destacou que o trabalho do bloco vai além do Carnaval, com ações desenvolvidas ao longo de todo o ano dentro da comunidade do Uruguai. “Fizemos campanha para venda de fantasias, mas cerca de 80% foi distribuída, inclusive agora na avenida. Hoje distribuímos camisas e chapéus para fazer esse ajô, que significa festa em iorubá”, explicou.
Na avenida, o cortejo reuniu integrantes que expressaram, por meio da dança e da música, a dimensão espiritual e simbólica do tema, ao som dos grupos Alacorin e Viola de Isa. O dançarino Lorde Santos, 31 anos, ressaltou o significado da homenagem. “Neste ano, o Bloco Soweto está homenageando o Caboclo Boiadeiro. Eu, como dançarino, venho representando o Caboclo Índio. É uma felicidade imensa, porque traz pra gente o afago e a energia que vem dessas entidades. Como integrante também da banda Alacorin, que foi convidada a tocar com o bloco, faço questão de estar aqui, presente, espalhando essa energia positiva”, disse.
O desfile também foi marcado pela forte participação da comunidade e pelo acesso ampliado ao bloco. A artesã Edna Moreira, 51 anos, moradora da Massaranduba, participou pela primeira vez da experiência. “Sempre tive vontade de sair no bloco e hoje ganhamos a camisa e estamos aqui, prestigiando esse bloco maravilhoso, na expectativa de que seja um dos nossos melhores carnavais”, contou.
Para o sacerdote de candomblé Ronald Alagan, 38 anos, a presença dos blocos afro no Carnaval representa um ato contínuo de resistência cultural e espiritual. “Carnaval e bloco afro, para mim, são uma resistência viva e uma forma de manter os ancestrais presentes. Antes, só era possível brincar e sambar na rua. Hoje, com incentivos como o Ouro Negro, que apoia iniciativas como essa, creio que estamos no caminho certo, mantendo essa história viva”, afirmou.
A cabeleireira Aldenice Batista, 67 anos, também estreou no desfile e destacou a emoção de participar. “Ano passado eu não vim, mas este ano decidi sair e está sendo maravilhoso. Esse tema é de arrepiar”, disse.