Com mais de quatro décadas de história, o Bloco Os Negões realizou seu segundo desfile no Carnaval 2026 na noite deste domingo (15), no Circuito Osmar, no Campo Grande, reunindo associados, convidados e foliões em um cortejo marcado pela ancestralidade, pesquisa histórica e compromisso social. O tema deste ano, “Congo: Império invisível da Bahia”, guiou a apresentação e levou para a avenida a memória, a espiritualidade e a riqueza cultural do antigo Reino do Congo, destacando sua influência nas manifestações afro-brasileiras.
O bloco, que tem origem no bairro da Vasco da Gama, reafirmou sua proposta de unir cultura, educação e identidade negra, transformando o desfile em um espaço de aprendizado e valorização das heranças africanas presentes no cotidiano da população baiana.
Vice-presidenta do Bloco Afro os Negões, Luma Nascimento, 33 anos, destacou o crescimento e o fortalecimento institucional do grupo ao longo dos anos. “O que mudou muito foi o amadurecimento e a própria construção de memória das pessoas que consomem o bloco e da própria associação cultural em si. Hoje a gente estima o número de associados entre 600 a 2 mil pessoas. Isso é muito relativo de onde a gente está saindo, qual é o dia que a gente está na semana e para onde a gente vai”, explicou. Sobre a expectativa para o desfile, afirmou: “Hoje é o segundo dia da saída do bloco. A nossa expectativa é mais uma vez brilhar na avenida, como a gente gosta”.
Além da presença no Carnaval, o grupo mantém ações sociais permanentes ao longo do ano. Entre elas está o curso pré-vestibular realizado em parceria com a Universidade do Estado da Bahia, projetos de qualificação profissional para mulheres privadas de liberdade e iniciativas que envolvem alfabetização de jovens e adultos, oficinas de dança, percussão e formação cidadã.
O tema deste ano nasceu de um processo de pesquisa que buscou identificar influências do Congo na cultura baiana. “A gente resgatou, nas pesquisas, não só manifestações culturais, mas outros tipos de memória: jeitos de corpo, jeitos de dança, claves de músicas, palavras do Manicongo, que estão presentes na nossa sociedade, mas às vezes a gente nem sabe que são referências do Congo. Então estamos trazendo isso para a avenida”, afirmou Luma.
Ela explicou ainda que o primeiro dia de desfile trouxe referências ao samba de caboclo de parafuso, manifestação conectada à história do Congo e a diversas expressões culturais afro-brasileiras. “Estamos sendo um livro aberto de conhecimento. Hoje o desfile é sobre colocar em evidência informações de atualidade, pesquisa e memória na avenida para o povo. É assim que a gente dialoga com as pessoas e com a nossa cultura presente”, concluiu.
Na ala de dança, a professora Liliane Alves, 44 anos, que participa do bloco há três anos, celebrou a evolução estética e musical do cortejo. “Estou achando o bloco ainda mais bonito neste segundo dia. Está ótimo, a música está ótima. O figurino está massa, muito bom”, avaliou.
O desfile também contou com a participação de Ancha Bucuane, 50 anos, artesã, artista plástica e designer de acessórios sustentáveis, turista de Moçambique que veio pela primeira vez a Salvador a convite do bloco. “É a minha primeira vez a fazer parte do carnaval em Salvador. É maravilhoso essa cultura que a gente vê de fora, não faz ideia como é pessoalmente. Eu não me sinto estrangeira, me sinto acolhida, sinto as minhas raízes vivas. Sinto uma África fora da África, diferente no seu todo, mas muito igual”, relatou.
Entre os foliões, o motoboy Douglas Vinícius, 37 anos, participou pela primeira vez do cortejo. “Vim com minha família. Eu, meu tio, minhas irmãs e primas estão por aí espalhadas, mas estão no bloco comigo. Minha irmã me chamou e eu vim. Estou gostando muito”, disse.
O Bloco Os Negões reafirmou, mais uma vez, o Carnaval de Salvador como um território de memória, resistência e educação popular, conectando gerações, fortalecendo identidades e aproximando o público das raízes africanas que estruturam a cultura brasileira.