O primeiro dia de desfile do Afoxé Kambalagwanze marcou a noite deste domingo (15), no sentido contrafluxo do Campo Grande, partindo da Praça Municipal. Com o tema “Raízes do Afoxé”, o cortejo levou para a avenida um chamado à memória, à força e à beleza da cultura afro-brasileira, homenageando os primeiros afoxés da Bahia e celebrando a história, a resistência e a potência do ijexá.
O desfile foi marcado pela resistência, musicalidade e celebração das origens negras. A saída contou com músicas autorais de Rose Mafalda, integrante da diretoria do bloco, e o som vibrante da Banda Alaiyé, envolvendo o público em cantos, dança e emoção ao longo do percurso.
Além da proposta cultural, o bloco reforça seu compromisso social. As fantasias são trocadas por três quilos de alimentos não perecíveis, preferencialmente feijão, arroz e açúcar, destinados a ações comunitárias. Integrante da diretoria, a designer Adila Rodrigues, 34 anos, destacou que o trabalho vai além do Carnaval. “A gente desenvolve projetos sociais durante todo o ano e participa de editais para que esses recursos retornem para a comunidade. Já realizamos oficinas de xequerê, adereços, percussão e musicalidade. Agora teremos formações voltadas para baianas de acarajé, eventos e tranças, sempre com foco no empreendedorismo, para gerar conhecimento e renda”, afirmou.
Segundo ela, as iniciativas também fortalecem a inclusão e o respeito à diversidade. “Temos uma troca tranquila com pessoas LGBTQIA+, com a juventude, com adolescentes, com os mais velhos. Nosso objetivo é oferecer ferramentas para que essas pessoas sigam atuando e dando continuidade aos projetos, garantindo autonomia e rentabilidade”, ressaltou. O bloco foi fundado no bairro do Barbalho, possui escritório no Centro Histórico e desenvolve suas ações na Casa da Mulher Negra.
Na ala de dança, a pedagoga Jane Salles, 46 anos, que atua como bailarina de destaque no Carnaval há mais de uma década, reforçou a importância simbólica e econômica da festa. “Não é só cultura, é afirmação da ancestralidade e do poder negro, que carrega uma história de luta e resistência. O Carnaval também é trabalho, gera renda e emprego para muitas famílias. Por isso o Carnaval de Salvador é o melhor do mundo. Estou muito feliz e agradecida por mostrar minha dança afro todos os anos”, afirmou. Ela participa do bloco há sete anos.
A policial aposentada Ivone Alves Soares, 69 anos, destacou a animação e o acolhimento. “Já devo estar no quinto ou sexto ano. O bloco é muito bom, animado. Acho que poderia ter mais gente, ampliar, porque é gratuito e acessível para todos”, comentou.
Também integrante da ala de dança, o professor de educação física Américo Caiane, 61 anos, chamou atenção para a valorização dos artistas. “A gente dança, mas também reivindica mais reconhecimento para os dançarinos. O tema deste ano é fundamental, porque quando falamos de afoxé estamos falando da essência da cultura afro-religiosa, das matrizes africanas, da dança e da religiosidade. Isso precisa estar em evidência não só no Carnaval, mas em toda a sociedade”, ressaltou.