O Pelourinho hoje se transmutou de um passado de dor para um presente de celebração e resistência com a música de Chico César. O pernambucano opera uma espécie de milagre rítmico toda vez que canta. Não é apenas carnaval; é, como o próprio artista define, uma "revolução que dança". No meio da multidão, histórias individuais se entrelaçam à melodia, revelando que o afeto é a verdadeira batida do coração da festa.
Cananda Miranda, costureira, de 34 anos, olhava para o palco com o deslumbramento de quem vê a própria arte sendo tecida em sons. Para ela, a experiência é, invariavelmente, "maravilhosa" e "perfeita". O que mais a surpreendeu foi a capacidade de Chico de "ajustar o figurino" de suas canções: músicas do disco Estado de Poesia, conhecidas por sua densidade lírica e que teoricamente não caberiam no frenesi do carnaval, ganharam nova roupagem. "Ele fez uma adaptação, ficou maravilhoso", confessa Cainara, celebrando o repertório.
A poucos passos dali a emoção ganha o sotaque do interior. Helen Vieira, parteira de 39 anos, atravessou a distância que separa Ilhéus da capital baiana com um propósito único: testemunhar a apresentação Chico César.
Para a parteira, o ponto alto foi o toque de nostalgia e reverência quando Chico interpretou Zé Ramalho, uma escolha que "lembra muitas coisas" e toca profundamente a memória afetiva. Mas o que fica para Helen, além da música, é a humanidade do artista. Ao final do show, o desejo de Chico para que todos aproveitassem com "felicidade e amor" ecoou como um abraço. "Ele é muito afetuoso, né?", indaga ela, confirmando a sensação de que, no palco do Pelourinho, o artista não apenas canta, mas acolhe.
Questionado sobre a importância do Pelourinho para o mundo, Chico disse que este já é um lugar ressignificado. “Era um lugar de dor, de muito sofrimento. E ele hoje é ressignificado através da música, da dança, da resistência, da nossa própria física”, reforçou, em conversa com a Secretaria de Cultura do Governo do Estado (Secult-BA). “Quando todos nós nos juntamos aqui para cantar, tocar e celebrar o Carnaval, nós estamos dizendo para quem tentou nos matar: “olha, vocês fracassaram e nós somos vencedores”.
Carnaval do Pelô
O Carnaval do Pelô integra a programação oficial do Governo da Bahia, com o tema “Carnaval da Bahia: Um Estado de Alegria”. A festa reúne ações do edital público da Secretaria de Cultura da Bahia, que contemplou 81 propostas artísticas, além da participação da Secretaria de Turismo da Bahia, por meio da Sufotur, fortalecendo o calendário cultural do estado. No Largo do Pelourinho, parte da programação conta ainda com recursos da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet).