Nesta terça-feira (17), último dia de folia, o Circuito Mãe Hilda Jitolu, localizado no bairro da Liberdade, reuniu escolas e blocos de samba em uma tarde marcada por cultura, inclusão social e fortalecimento da identidade negra. Com o projeto “Ancestralidade, Fé e Alegria”, o circuito reafirma a proposta de descentralizar o Carnaval de Salvador e valorizar territórios historicamente fundamentais para a cultura afro-brasileira.
Além da dimensão cultural, a iniciativa também movimenta a economia local, gerando oportunidades para artistas, ambulantes, empreendedores e trabalhadores da cultura, além de fortalecer o sentimento de pertencimento da comunidade.
Destaques da Liberdade - Entre os destaques esteve a Escola de Samba Filhos da Feira de São Joaquim, projeto cultural que nasceu na Feira de São Joaquim com o objetivo de resgatar a musicalidade e a estética das escolas de samba que desfilaram na cidade até o fim da década de 1970. Neste ano, o grupo levou para a avenida o tema “Orixá Guerreiro: Ogum”, exaltando a força, a proteção e a ancestralidade.
Presidente da escola, Avani das Virgens de Almeida, 52 anos, destacou a trajetória do grupo: “O bloco existe há 21 anos, mas, na avenida, começamos a sair em 2017. Aqui no circuito estamos com uma equipe menor, mais raiz. É um desfile voltado para a comunidade”, afirmou.
A escola levou passistas, porta-bandeira e bateria, priorizando a participação popular. “Todas as fantasias são doadas. Este ano, distribuímos mil fantasias e mil camisas para feirantes, moradores da Liberdade e instituições”, explicou.
O Bloco Sambrasil também marcou presença com o tema “O Samba da Minha Terra”. Com cerca de 600 associados, o grupo completa 20 anos em 2026. Segundo o presidente, Agnelo Bororó, o bloco surgiu a partir de festas juninas e, há 14 anos, integra o circuito da Liberdade.
“Estamos nesse processo de revitalização do bairro, ocupando os espaços e fortalecendo o Carnaval. Esperamos que, com os incentivos da Secretaria de Cultura, a cada ano a festa cresça”, disse. O bloco também realiza ações sociais em datas comemorativas.
Para a cuidadora de idosos Laura Maria de Santana, 57 anos, frequentadora do circuito há três anos, o ambiente é de acolhimento. “É uma maravilha. Venho com minha família, com minha galera. Aqui a gente se sente em casa”, contou.
O Bloco Carnapelô, presidido por Moacir Santana Dias, desfilou com o tema “África, o berço da humanidade”. Com cerca de 700 associados, o grupo, oriundo do bairro de Cosme de Farias, participou pela segunda vez do circuito. “Esse incentivo do programa Ouro Negro é fundamental. Sem esse apoio, não conseguiríamos sair”, destacou.
Já o Bloco Questão de Gosto levou para a avenida o tema “Festa de Caboclo”, exaltando os povos originários e sua contribuição para a resistência do povo brasileiro. Com 34 anos de atuação no Carnaval, o bloco reúne cerca de 250 integrantes de diversas comunidades de Salvador.
De acordo com o presidente Sérgio Cardoso, os recursos do programa Ouro Negro foram destinados ao pagamento de profissionais, músicos, fantasias e estrutura, reforçando a importância do investimento público para a manutenção das manifestações culturais comunitárias.
Também desfilaram no Circuito Mãe Hilda Jitolu, na tarde desta terça-feira, vários outros blocos. A começar pelo Tomalira, fundado em 1982, no bairro Santo Antônio Além do Carmo e promove ações sociais de percussão e reforço escolar gratuitas para a comunidade.
Em seguida, Relíquias Africanas, criado a partir do sonho de uma baiana de acarajé que compartilhou com amigos um sonho que se realizaria mais tarde. Oriundo de Campinas de Pirajá, também promove ações sociais como escolinha de futebol e oficinas de capoeira, teatro e serigrafia.
O bloco Mangue homenageou os 191 anos da Revolta dos Malês e o orixá Logun Edé, reforçando o diálogo entre memória histórica, religiosidade e cultura popular. O Capoeira Nucana, bloco do Nordeste de Amaralina que promove qualificação de crianças, adolescentes, adultos e pessoas da melhor idade. Completando 20 anos, valorizam a tradição e a resistência cultural da comunidade em que estão inseridos. O Bloco Afro Soweto desfilou no começo da noite, apresentando sua expressão cultural comunitária que alia arte, espiritualidade e mobilização social.