Obra mais antiga produzida por uma mulher no acervo do MAB tensiona apagamentos históricos e reafirma o protagonismo feminino na arte baiana
Uma obra de pequenas dimensões (31,5 x 23 cm), em crayon sobre papel, pode passar despercebida por visitantes da mostra Tradição e Invenção, em cartaz no Museu de Arte da Bahia (MAB), no Corredor da Vitória. Um olhar mais atento, porém, revela a delicadeza e a precisão do desenho “Cabeça de Cristo”, a obra mais antiga do acervo, produzida por uma mulher. Sua autora, Júlia Fetal, foi assassinada aos 20 anos, em 1847, em Salvador, pelo noivo. O feminicídio ficou conhecido como o crime da “Bala de Ouro”.
“Cabeça de Cristo” integra o acervo do MAB desde 1936, quando foi doada pelo oftalmologista e filantropo baiano Colombo Spínola. A delicadeza do traço evidencia domínio técnico e sensibilidade na construção da expressão, qualidades que dialogam com a tradição acadêmica oitocentista e afirmam a potência autoral de uma jovem artista cuja trajetória foi brutalmente interrompida.
Júlia Fetal (1827–1847) foi morta pelo noivo, João Estanislau da Silva Lisboa, após o rompimento do noivado. O assassinato tornou-se um dos episódios mais emblemáticos de feminicídio na história brasileira. A narrativa popular difundiu a versão de que o autor do crime teria derretido a própria aliança para confeccionar a bala que matou a jovem, enquanto ela tocava piano.
Registros posteriores, no entanto, indicam que a munição era comum. A bala foi preservada e hoje integra o acervo do Instituto Feminino da Bahia. Ainda assim, a história da “bala de ouro” consolidou-se no imaginário coletivo e inspirou obras literárias como A Bala de Ouro, de Pedro Calmon, Tenda dos Milagres, de Jorge Amado, e, mais recentemente, a novela Espelho da Vida, escrita por Elizabeth Jhin e exibida pela Rede Globo em 2018.
À época, o crime comoveu a sociedade e ganhou destaque na imprensa, em um período em que assassinatos de mulheres eram frequentemente classificados como “crimes passionais”. Júlia foi sepultada na Igreja da Graça, em Salvador, e seu nome batiza uma rua no bairro de Nazaré.
João Estanislau perdeu o cargo de professor no Liceu da Piedade e foi condenado a 14 anos de reclusão. Preso no Forte do Barbalho, passou a lecionar para jovens internos. Posteriormente, foi convidado a dirigir o Colégio Primavera e, a partir de 1863, o Colégio São João, prédio onde atualmente funciona o Museu de Arte da Bahia.
A obra: contemplar o passado e refletir sobre o presente
A composição concentra-se no busto de Cristo, com ênfase na modelagem do rosto. O desenho demonstra domínio do claro-escuro, recurso fundamental na tradição oitocentista para sugerir tridimensionalidade e densidade psicológica. O olhar levemente inclinado e a expressão contida afastam-se do dramatismo exacerbado e apostam numa abordagem introspectiva, quase meditativa.
A economia de elementos reforça a centralidade do rosto e concentra a tensão expressiva na fisionomia. Não há ornamentos ou cenários que desviem a atenção: o foco está na construção do semblante, tratado com precisão linear e sensibilidade tonal. A força da obra sustenta-se, assim, em seus atributos plásticos.
Tradição e Invenção - “Cabeça de Cristo” integra a exposição Tradição e Invenção, que reúne parte do acervo do MAB a partir do novo posicionamento curatorial da instituição, que busca afirmar-se como organismo dinâmico, plural e conectado às demandas contemporâneas.
O desenho do século XIX concentra densidade histórica e simbólica. É também a única obra realizada por uma mulher presente nesse recorte expositivo, evidenciando as assimetrias de gênero que marcaram a formação das coleções públicas brasileiras.
Inserida nesse contexto, a obra permanece como testemunho material de um talento interrompido. “O desenho ultrapassa a dimensão religiosa do tema para operar como documento histórico e marcador da presença feminina na arte do século XIX, período em que a produção artística das mulheres era frequentemente invisibilizada ou restrita ao espaço doméstico. O desenho de Júlia constitui testemunho raro e crucial”, afirma a historiadora Camila Guerreiro, assessora da diretoria do museu.
Contemplar o trabalho de Júlia Fetal é também rememorar um dos mais emblemáticos casos de feminicídio do país e trazer à tona a persistência da violência contra as mulheres, que atravessa gerações, raças e classes. De janeiro a dezembro de 2025, foram registrados 1.470 feminicídios no Brasil, segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, média de quatro mulheres assassinadas por dia.
A mostra Tradição e Invenção reúne mais de 150 obras da pinacoteca do MAB, além de oito peças emprestadas de outras instituições e de artistas contemporâneos, como Tiago Sant'Ana e Mike Sam Chagas. A exposição revisita a tradição das artes plásticas baianas do período barroco ao século XX. O diálogo entre obras históricas e contemporâneas tensiona o conceito de invenção, ampliando as leituras sobre permanências, rupturas e transformações estéticas.
A nova curadoria propõe uma leitura crítica das formas de exibição do acervo, buscando aproximar as obras das discussões contemporâneas — especialmente no que se refere à representatividade étnica e ao protagonismo de mulheres artistas. O processo inclui a valorização dos múltiplos sentidos e contextos que atravessam a coleção.
Sobre o MAB - O Museu de Arte da Bahia, gerido pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (IPAC), é o mais antigo museu do estado. Fundado em 1918, o MAB reúne mais de 20 mil peças entre pinturas, esculturas, mobiliário, artes decorativas e o precioso acervo de azulejaria do Museu Udo Knoff. Instalado no antigo Palácio da Vitória, casarão do século XIX, o MAB está atualmente com as seguintes exposições em cartaz: Tradição e Invenção; A Arte de Presciliano Silva; A Pintura de Manoel Lopes Rodrigues; Carybé e o Povo da Bahia; Beatriz Milhazes: 100 sóis e Arte Africana: máscaras e esculturas
Visitação: de terça a domingo, das 10 às 18h
Acesso gratuito