Peça Ogum estreia dia 25 (sábado) no Teatro Martim Gonçalves

23/09/2010

Única montagem teatral do Nordeste contemplada no I Prêmio Nacional de Expressões Culturais Afro-brasileiras, promovido pela Fundação Palmares e o Centro de Apoio ao Desenvolvimento Osvaldo dos Santos Neves, “Ogum, Deus e Homem”, com direção de  Fernanda Júlia, estreia no dia 25, sábado, no Teatro Martim Gonçalves, no Canela,  às 20 horas, permanecendo em cartaz até 3 de outubro (exceto na segunda-feira, dia 27/09). Os ingressos gratuitos poderão ser retirados  até uma hora antes da apresentação.

“Ogum, Deus e Homem” tem o patrocínio da Petrobras e Ministério da Cultura, além de apoio institucional da Fundação Cultural do Estado da Bahia. A produção é da Kalik Produções Artísticas e da Uzon Filmes e tem realização da Companhia de Teatro Nata, fundada há 10 anos por Fernanda Júlia na cidade de Alagoinhas, Bahia.

Este foi o espetáculo escolhido por Fernanda Júlia (“Shirê Obá”) como sua montagem de conclusão no curso de Direção Teatral pela Escola de Teatro da UFBA, com texto escrito por ela e Fernando Santana (“Atire a Primeira Pedra”), que também atua na peça. Fernanda tem como orientador o professor e diretor Luiz Marfuz. No papel-título está o ator baiano Val Perré, intérprete de teatro, cinema e televisão, que há três anos reside no Rio de Janeiro. O elenco se completa com Jussara Mathias (Oyá), Marinho Gonçalves (Xangô), Fernando Santana (Exu), Jefferson Oliveira ,(Adelé, filho de Ogum), Luiz Guimarães ( Iku, a Morte),  Clara Paixão (Nanã, a grande matriarca)  e Deilton José (Oxóssi). A direção musical é de Jarbas Bittencourt (prêmio Braskem de Teatro 2009 pela direção musical de “Shirê Obá” com direção da própria Fernanda Julia); cenografia de Yoshi Aguiar; figurino e maquiagem de Thiago Romero; iluminação Luiz Guimarães e Marcos Fernandes. Quem assina a coreografia é o bailarino e coreógrafo baiano Zebrinha, estudioso da mitologia afro que interpretou o orixá Ogum no filme “Besouro - Nasce um Herói” (2009), de João Daniel Tikhomiroff.

História de amor - A peça narra a história da divindade yorubá Ogum (Val Perré),  revelando a grandiosa trajetória do “senhor da tecnologia”. Tem como ponto de partida seis Itans (lendas) do orixá, apresentando o seu amor pela humanidade e por sua Oyá (Jussara Mathias), além da sua força como grande engenheiro do universo. O homem precisa evoluir. Com estas palavras, Ogum “dá a senha” para o que está por vir. Em outro momento, saberemos que nada é mais humano que amar; Ogum amou, e por amar, foi até as últimas conseqüências. Sendo o primeiro dos Orixás a emergir do Órun (dimensão da imaterialidade), ele abriu o caminho para que as divindades conhecessem  o mundo dos humanos. Ogum, o transmutador, torna-se homem e expande o império yorubá com suas conquistas territoriais e  apaixona-se pela exuberante Oyá, sofrendo quando esta o abandona por seu irmão Xangô. Não podendo suportar a culpa por uma grave injustiça que cometeu, Ogum volta ao Órun, e pede a Olodumarê, o Senhor de todos os destinos, que o receba de volta por não ser mais digno de conviver entre os humanos.

17 ORIXÁS - De acordo com a diretora do espetáculo, esta é uma montagem teatral que bebe nas fontes épicas e líricas; o encontro entre a ancestralidade e a contemporaneidade; entre o religioso e o cotidiano; entre o ontem e o amanhã. Fernanda Júlia fala da sua inquietação por não ver nos palcos histórias dos orixás, sendo eles os protagonistas, e não apenas o pano de fundo: “É preciso entender a filosofia do candomblé, que na verdade a gente não conhece bem. E quando a gente não conhece alguma coisa, começa a ter medo. Os orixás são divindades e também são humanos, com sentimentos. Por que os nossos filhos têm como heróis Batman, X-Man, Homem Aranha, e não Ogum, Iansã, Iemanjá, que também são heróis?”

Dramaturga, educadora e pesquisadora em cultura afro-brasileira, Fernanda Júlia fundou e dirige há 10 anos a Cia de Teatro Nata, de Alagoinhas, com a qual montou em 2009  “Shirê Obá, a Festa do Rei”, premiado pelo Edital Manuel Lopes Pontes de Estímulo a Montagem de Espetáculos Teatrais no Estado da Bahia. “Em ‘Shire Obá’, foram homenageados todos os orixás, todas as casas de santo. A partir de ‘Ogum’, o objetivo é levar para os palcos os 17 orixás mais cultuados no Brasil. O próximo será Exu”, revela.

Vale destacar que Fernanda Júlia é uma Yakekerê (Mãe pequena, título vitalício na hierarquia do Candomblé que equivale ao braço direito da Yalorixá) do Ilê Axé Oyá L´adê Inan da Yalorixá Roselina Barbosa. “A idéia de montar o pantheon dos orixás é pensar o continente africano como a matriz de tudo. Nada é mais Ogum do que o microchip, afinal ele é o deus da tecnologia, o engenheiro do universo”, afirma.

Val Perré - Para o ator baiano, que há três anos mora no Rio de Janeiro, “está sendo muito prazeroso trabalhar com Fernanda Júlia, porque é uma oportunidade de falar da nossa história, dos deuses. Interpretar Ogum, para mim, é também algo novo e curioso. Como protagonista, estou tendo a oportunidade de uma identificação, um encontro muito grande com o meu lado ancestral, que é a raiz negra.” Perré atua no teatro, cinema e televisão. Começou a carreira no teatro, com o curso livre da Escola de Teatro da UFBA.  Participou da premiada peça “O Beijo no Asfalto”, com direção de Paulo Cunha.  No cinema, estreou no filme "Cinderela Baiana", com Carla Perez. Depois, participou de "A Máquina", de João Falcão, lançado em 2006. No ano seguinte, fez o filme "Estranhos",  dirigido por Paulo Alcântara. Na  TV Globo, participou dos seriados "Guerra e Paz" (2008); "Faça Sua História" (2008); da novela "Desejo Proibido" (2008) e da minissérie "Amazônia: De Galvez a Chico Mendes" (2007). Ano passado atuou na novela das oito “Viver a Vida”.

Também participou da terceira refilmagem de "Bonitinha, Mas Ordinária" (2009), de Moacyr Góes.

Jussara Mathias - A atriz baiana, intérprete da exuberante Oyá, lembra que esse espetáculo já vinha na sua vida desde 2006, quando Fernanda Júlia falava da montagem de formatura. “Eu fiquei muito feliz porque é uma temática nova para mim. Não sou do candomblé, mas a gente faz homenagens, sou devota de Yansã e Santa Bárbara; é o sincretismo religioso baiano”. Jussara explica que sua personagem não é leviana. “Oyá”  escolhe com firmeza o seu amor, e vai com ele livre e pura. Ela é vermelha, intensa.  A peça começa dizendo que se trata de uma história de amor, e Oyá é a representação da liberdade de amar.

II IPADÊ - Fórum Nata de Africanidade - Encontro proposto pela Cia Nata para a discussão e debate de temas que colaborem na divulgação do Candomblé e das comunidades de terreiro, combatendo a intolerância religiosa e qualquer tipo de racismo. Será realizado no dia 1º de outubro, no Teatro Martim Gonçalves, com duas mesas-redondas: às 14 horas, com a participação da Yalorixá Jaciara Ribeiro, do terreiro Abassá de Ogum; Vilma Reis (CEAFRO – UFBA), Luiza Bairros (secretária de Promoção da Igualdade do Estado da Bahia/Sepromi) e Zebrinha (coreógrafo). A outra mesa, às 16 horas, reunirá a equipe artística, técnica e de produção do espetáculo “Ogum, Deus e Homem”. A entrada é franca. DOCUMENTÁRIO - Outro importante evento que faz  parte do projeto de montagem de “Ogum” tem à frente o roteirista e diretor de cinema Thiago Gomes, que também é diretor assistente da peça. Ele fez um registro audiovisual de todo o processo, com  mais de 50 horas de gravação, reunindo depoimentos de técnicos, artistas, cenas, e que será finalizado com imagens da noite de estreia do espetáculo. O longa-metragem OGUM.DOC, que tem alguns trechos postados no blog www.ogumdeusehomem.blogspot.com, será lançado no II IPADÊ (Fórum Nata de Africanidade), no dia 1º de outubro, no Teatro Martim Gonçalves.