FIAC Bahia mostra painel de inquietações artísticas em 25 espetáculos de sete países

19/10/2010
Terceira edição do Festival Internacional de Artes Cênicas da Bahia acontece de 23 a 30 de outubro, com pluralidade de propostas e atividades diversas Um panorama de 25 espetáculos que mostram como criadores de várias partes do mundo e do Brasil estão respondendo, através das suas inquietações artísticas, as questões colocadas pela sociedade contemporânea. Com esse painel, o Festival Internacional de Artes Cênicas da Bahia (FIAC Bahia) entra em sua terceira edição, de 23 a 30 de outubro, em Salvador. Montagens de diferentes contextos e realidades socioculturais se cruzam numa programação que, num diálogo direto com a produção local, faz da pluralidade de propostas estéticas uma possibilidade de refletir sobre o nosso tempo e os rumos da sociedade moderna. O FIAC Bahia reúne espetáculos de sete países – Espanha, Portugal, Alemanha, Argentina, Chile e Colômbia, além do Brasil –, em montagens que contemplam vertentes das artes cênicas, algumas delas em conexão com outras linguagens artísticas. Teatro, dança, performance e intervenção urbana fazem parte da mostra principal do evento, que reúne seis montagens internacionais e oito nacionais – todas inéditas na Bahia. A programação se completa com uma seleção de 11 espetáculos baianos, reafirmando o compromisso do festival em estimular a troca e a construção de experiências com artistas locais. A ênfase no intercâmbio proposta pelo FIAC se prolonga também nas atividades de formação (através de oficinas comandadas por criadores nacionais e internacionais que participam do evento), no fortalecimento dos campos de reflexão (com debates, bate-papos e palestras) e na criação de espaços de convivência, como o Lounge Fiac Oi Futuro, que, pelo segundo ano, torna-se palco de encontros informais entre público e artistas e de ações de caráter artístico, formativo, crítico e midiático. O estimulo à criação também se impõe ao festival, que, em 2010, promove uma série de leituras dramáticas com textos inéditos de autores baianos, vencedores do Prêmio Fapex de Teatro. Com esse conjunto de iniciativas, o FIAC Bahia reafirma seu empenho no fortalecimento da classe e produção cênica local; no desenvolvimento profissional; na troca simbólica entre artistas de diversos estilos e gêneros; na reflexão do fazer artístico e sua interferência nas mudanças da sociedade; e na integração de um público variado. O festival foi idealizado e é coordenado por Nehle Franke (diretora de teatro e correalizadora do projeto Cultura e Pensamento, do Ministério da Cultura), Felipe de Assis (diretor de teatro e produtor cultural) e Ricardo Libório (administrador e correalizador do projeto Cultura e Pensamento). A realização é da Realejo Projetos Culturais  e FAPEX (Fundação de Apoio a Pesquisa e  a Extensão), com patrocínio Oi e Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (através do Fazcultura); Petrobras e Ministério da Cultura (através da Lei Rouanet); CAIXA e Funarte. Territórios e política O FIAC Bahia 2010 se espalha por onze teatros da capital baiana, além de espetáculos que serão apresentados em espaços alternativos e na rua. A própria abertura do Festival acontece num espaço público, numa forma de potencializar e discutir a relação entre o teatro e a cidade. O espetáculo Kamtchàtka, do grupo espanhol homônimo, dá largada à programação, dia 23, às 16h, no Campo Grande. Na elogiada performance, que já passou por 13 países, os integrantes e suas maletas partem de um trabalho de improvisação para explorar o espaço público, descobrir normas e estilos de vida de uma cidade desconhecida, outros territórios, criando um jogo de  novidades e complicações com o “espectador” que cruza seu caminho. A programação internacional do evento traz também para Salvador mais duas obras de criadores europeus, ambas tendo a linguagem da dança como suporte. A primeira é TIM ACY, da coreógrafa e interprete Antje Pfundter, que discute as estratégias de cumplicidade com a plateia criadas pelo artista e sua exposição no palco. Já Tânia Carvalho, a frente do núcleo Bomba Suicida, de Portugal, explora as relações interativas entre dança e música executadas ao vivo, no espetáculo De Mim não Posso Fugir, Paciência!. Da America Latina, espetáculos com forte conteúdo político, conferindo ao teatro protagonismo no registro e revisão de fatos históricos. Uma abordagem memorialista da ditadura militar e do Peronismo, por exemplo, é a proposta da argentina Lola Arias, diretora de Mi Vida Después, que explora as fronteiras entre realidade e ficção e utilizando remake não apenas como uma forma de reviver o passado, mas também de mudar o futuro. A mistura de fato e ficção, verdade e falsidade também é tema de Los Santos Inocentes, da companhia Mapa Teatro, respaldada internacionalmente pelo desenvolvimento de trabalhos criativos de perfil coletivo e pela articulação entre questões sociopolíticas de caráter local e universal. Na peça que o grupo traz ao FIAC Bahia, a guerra da Colômbia ganha um testemunho cuja narrativa – entre o sonho e a realidade – oscila com elementos de celebração e massacre. Já do Chile, vem Comida Alemana, de Cristián Plana, que revisita a atuação de uma sociedade beneficente alemã, pautada pela intolerância, fundada no país latino-americano na década de 1960. Essa abordagem é feita através da encenação de um episódio de dimensões trágicas que envolve sadismo e alienação. Um dos nomes fortes entre os jovens encenadores do seu país, Plana se debruça sobre uma obra do consagrado autor austríaco Thomas Bernhard, iconoclasta e pouco conhecido pelo público baiano. Investigação em companhia Com um mapeamento de propostas autorais de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Paraná, o FIAC Bahia 2010 apresenta oito montagens na sua programação nacional. Uma das características desse conjunto é a presença do trabalho de companhias: elas são responsáveis por cinco dos espetáculos. As cariocas Vértice de Teatro (com a peça Corte Seco) e Teatro Independente (Rebú), a paulista Cia. São Jorge de Variedades (Quem Não Sabe Mais Quem É, o Que É e Onde Está, Precisa Se Mexer) , a mineira Quatroloscinco – Teatro do Comum (É Só uma Formalidade) e a paranaense companhia brasileira de teatro (Vida)  mostram sua produção recente e a diversidade propostas encampada pelos criadores brasileiros. “São companhias que se propõem à investigação da linguagem cênica, seja no cruzamento com outras formas de expressão, como a Teatro Independente, ou de estruturas dramatúrgicas, como a Vértice, ou mesmo na imersão na obra de um dramaturgo-referência do teatro contemporâneo, Heiner Müller, no caso da São Jorge de Variedades”, analisa Nehle Franke. “Essa natureza investigativa se estende ao outros trabalhos do Brasil”. Completam esta programação, Apropriação®, de Bel Garcia (cofundadora da Cia. Dos Atores, do Rio), Festa de Separação, de Luiz Fernando Marques (criador do Grupo XIX de Teatro, de São Paulo) e Entrevista com Stela do Patrocínio, de Georgette Fadel e Lincoln Antonio (que passaram pela Cia. do Latão e Cia. São Jorge de Variedades). Estreias e coletivos As recentes experiências estéticas de criadores locais permeiam os 11 espetáculos baianos da terceira edição do FIAC. Jovens artistas que têm buscado formas de produção e expressão entre arte e cidade estão representados pelos coletivos Núcleo VAGAPARA (que apresenta a série de solos Fragmentos de um Só, nos quais os integrantes exercem funções colaborativas) e Construções Compartilhadas (com {pingos e pigmentos}, uma intervenção urbana que convoca a participação de outros artistas). Também na programação baiana, duas estreias: a veterana e respeitada atriz baiana Yumara Rodrigues apresenta Monstro, comemorativos aos seus 50 anos de carreira, e o coreógrafo Ismael Ivo, paulista residente em Berlim e atualmente curador do Festival Internacional de Dança Contemporânea da Bienal de Veneza, assina À Flor da Pele, para o Balé Teatro Castro Alves. Da mesma companhia, o projeto 1POR1PRAUM, no qual cada dançarino se apresenta numa cabine para uma pessoa por vez. Mais composições solistas: em dança, os jovens Leo França (com Brecha) e Paula Carneiro Dias (Para o Herói: Experimentos sem Nenhum Caráter – Corpo sobre Papel); em teatro, Fábio Vidal apresenta duas obras – Seu Bomfim e Sebastião -, respectivamente, a inaugural e a mais recente de seus dez anos de trajetória como artista solo. Completam a lista, o premiado Uma Vez, Nada Mais, da também veterana Hebe Alves, e o infantojuvenil Miúda e o Guarda-chuva, da estreante nesse segmento Paula Lice.  “A programação de espetáculos baianos também acompanha a diversidade de proposições estéticas que o festival procura apresentar”, observa Felipe de Assis. Estação lounge Nessa terceira edição do FIAC Bahia, o Lounge Fiac Oi Futuro transforma o Pátio do Goethe-Institut/Icba numa “estação mediática”, com várias ações e intervenções que articulam o palco, a rua e o próprio espaço que serve de ponto de encontros informais entre o público e artistas. Através de uma “rádio” e um periódico que cumprirá a função de jornal-mural e fanzine, o Lounge tem como tema A Encenação da Memória e propõe uma discussão em torno do teatro, da cidade e da documentação dos fatos provocada pela memória. As atividades terão edições diárias. Uma delas é o jornal, que estará presente em todos os teatros onde o festival acontece e outros espaços da cidade, com conteúdo gerado pelos acontecimentos do próprio FIAC Bahia. O periódico traz seções com relatos de experiências no festival, minientrevistas, HQ, abecedário e fatos “do dia”. Já o programa de rádio veiculará notícias, programas musicais, correios, registros das apresentações e suas trilhas, entrevistas e reportagens. A essas novas ações, juntam-se as atividades os debates, entrevistas públicas e bate-papos com encenadores, intérpretes e profissionais das artes cênicas, que, mais uma vez, transforma o Lounge num espaço dinâmico, intensificado por performances e intervenções artísticas. Os bate-papos terão o formato de um programa de rádio, com fins de comunicação e registro. Os artistas participantes abordarão temas relativos ao seu processo criativo e importantes questões no panorama das artes cênicas contemporâneas: perspectivas, criação dramatúrgica e cênica, processos colaborativos e criativos são algumas das indagações a serem compartilhadas com o público. *A programação completa do FIAC Bahia pode ser conferida no site www.fiacbahia.com.br. SERVIÇO Onde: Teatro Castro Alves, Sala do Coro do TCA, Teatro Vila Velha, Cabaré do Teatro Vila Velha Goethe-Institut, Teatro Sesc-Senac Pelourinho, Teatro Sesi Rio Vermelho, Teatro Martim Gonçalves, Teatro Gamboa Nova,  Espaço Cultural Barroquinha, Theatro XVIII, (CAIXA Cultural de Salvador), espaços públicos e alternativos Quando: 23 a 30 de outubro Quanto: R$ 10,00 (inteira) e R$5,00 (meia) Realização: Realejo Projetos Culturais e FAPEX (Fundação de Apoio à Pesquisa e à Extensão) Patrocínio: Oi e Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (através do Fazcultura); Petrobras e Ministério da Cultura (através da Lei Rouanet); CAIXA e Funarte.