Bando de Teatro Olodum estréia o espetáculo “Bença” em comemoração aos seus 20 anos

21/10/2010

[caption id="attachment_2972" align="aligncenter" width="300" caption="Foto: João Milet Meirelles"][/caption] Em cartaz até 28 de novembro, “Bença” marca ainda a volta de Márcio Meirelles como diretor de teatro, fato que não acontece há quatro anos, quando ele assumiu a Secretaria de Cultura do Estado da Bahia. “Posso definir esse trabalho como um espetáculo de instalação, que eu fui descobrindo como fazer durante o próprio processo”, reflete Meireles.  Os diálogos abstratos de enredo bem tramado ganham corpo num palco com 20 metros de boca de cena. Nesse espaço, os vídeos conduzem o espectador para o sentido do espetáculo, que pode escolher que imagem quer acompanhar entre os três telões de exibição simultânea. São sete temas principais que correspondem a sete diferentes blocos: Começo, Mais Velhos, Respeito, Crianças, Morte e Fim. Meia hora antes do começo da peça, a ação já está em andamento – enquanto a plateia vai se acomodando, os atores estarão visíveis no tablado, cantando e tocando tambores e atabaques. Os telões também já estarão ligados, com imagens de atores negros que atuavam antes de 1990, ano de surgimento do Bando de Teatro Olodum. Para completar, dois componentes do elenco filmam a entrada do público, com transmissão simultânea. A partir daí, a cada bloco dois atores se revezam na filmagem do próprio espetáculo. Com linguagem contemporânea e não linear, a peça, ao falar dos mais velhos, trata a passagem do tempo como algo construtivo e enriquecedor. Não um tempo cronológico que simplesmente passa, mas o tempo das coisas, ou seja, ele é circular e traz benefícios. “O tempo, pra cultura banto, é muito profundo e envolve a formação de tudo, já que não é só o tempo do homem. É aí que entra a ancestralidade. Quando se diz que os orixás são ancestrais é porque eles vieram antes do ser humano, assim como a natureza veio antes do ser humano. Foram eles que possibilitaram o nascimento da vida humana e o seu desenvolvimento. A gente é o resultado de toda essa natureza criada antes e essa essência de ancestralidade, portanto, deve ser respeitada”, Makota Valdina Com isso, a montagem também passa a mensagem do saber envelhecer bem. “Em nossas entrevistas, encontramos líderes que parecem resistir ao extremo e se mantêm vivos apenas esperando que alguém chegue para substituí-los. Isso resume bem o nosso trabalho de garimpagem do conhecimento – um conhecimento que não se encontra nos livros e que acaba se perdendo se não for resgatado”, afirma a diretora de produção Chica Carelli. Nesse sentido, “saber envelhecer bem” pode ser interpretado como aprender a entender, a dosar e a dominar o tempo. Na fala do cordelista Bule Bule, “quem sabe viver espera a morte com grandeza e produz bastante, até no último momento. Deixa um legado para se comentar e continua vivendo através da sua obra em outras matérias. Se for manso com o tempo, convive com ele e chega onde deseja”. [caption id="attachment_2974" align="alignleft" width="200" caption="Foto: João Milete Meirelles"][/caption] “Tem coisa na juventude que não consigo entender Velho ninguém quer ficar Novo ninguém quer morrer A melhor coisa da vida é ficar velho e viver”, Bule Bule Para Cacau do Pandeiro, a morte é uma das etapas do processo natural da vida e deve ser encarada com alegria. “Quem parte cedo é porque não teve aquele merecimento de ficar velho e aí tem que morrer”, diz ele. A mensagem positivista do espetáculo mostra que o corpo físico desaparece e se transforma, mas que a essência de cada um é eterna. No que retoma o respeito aos mais velhos, “Bença” fala também das crianças. “Na minha família, o reconhecimento do saber dos idosos sempre foi natural. Minha bisavó era a vedete da contação de histórias e todo mundo ficava quieto para ouvir”, diz Zebrinha, coreógrafo da peça. Ele complementa com um alerta: “os velhos precisam ser preservados mesmo como pessoas físicas”. De fato, o pensamento corrobora com a fala de Makota Valdina em um dos vídeos quando ela lembra que em tempos passados a relação com a antiguidade envolvia uma reverência mais forte. “Dá-se muito valor ao que é novo, ao que é moderno, mas o que é velho está ficando em desuso”, afirma a educadora. Com essa energia ancestral de orixá, tudo conspira a favor de uma justa homenagem à companhia negra mais popular e expressiva da história do teatro na Bahia. O Projeto: O espetáculo “Bença” faz parte de um projeto maior chamado “Respeito aos Mais Velhos”, que ganhou, há dois anos, o edital de manutenção de grupos e companhias de teatro e dança do Programa Petrobras Cultural. As cidades de Salvador, Ilhéus, Feira de Santana e São Luís (Maranhão) receberam workshops de memória e identidade, dança, teatro e música com foco no resgate cultural e sabedoria popular – sempre abertos ao público. A mesma equipe que ministrava os workshops realizava as pesquisas e entrevistas que seriam usadas em “Bença”. Já os seminários aconteceram em Salvador, com os seguintes temas: Patrimônio Imaterial, Quilombos Urbanos, História da Ocupação Territorial do Povo Negro e Registro de Memórias e Tradições. Serviço: Onde: Palco Principal do Teatro Vila Velha Endereço: Passeio Público, Campo Grande Telefone: 3083-4600 Quando: de 5 de novembro a 28 de novembro. Sempre às 20h, de sexta a domingo. Quanto: R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia entrada) Realização: Bando de Teatro Olodum e Teatro Vila Velha E-mail: bando2@gmail.com Site: www.bandodeteatro.blogspot.com