28/10/2010
Uma tentativa desesperada de compreender a crueldade e a insensibilidade dos homens é a tônica da peça “Luz Negra”, texto premiado do dramaturgo salvadorenho Alvaro Menen Desleal (1931-2000), encenado em dezenas de países e em vários idiomas, desde a sua estreia em 1964. Uma nova montagem desse relato fantástico, inédita na Bahia, estreia no próximo dia 28, quinta-feira, no Teatro do Movimento (Escola de Dança da UFBA, em Ondina), e ficará em cartaz até 30 de outubro, às quintas, sextas e sábados, às 20 horas. Ingressos R$ 20,00 (inteira). A direção do espetáculo é de Rino Carvalho e no elenco estão Caica Alves, Evelin Buchegger e Leonardo Mineiro. Maquiagem, Marie Thauront; Cenografia, Euro Pires; Iluminação, Irma Vidal; trilha sonora, Sil Partucci e Alan Carvalho. A montagem foi contemplada com o Edital Manoel Lopes Pontes da Funceb/Secretaria da Cultura do Estado da Bahia. Nos dois primeiros dias, quinta-feira e sexta, 80 por cento dos ingressos serão reservados para ongs e escolas de Salvador, numa contrapartida social do projeto.
A PEÇA – Goter e Moter - um político e uma ladra que foram decapitados em praça pública não sabem se estão vivos ou mortos. Suas cabeças encontram-se próximas a um corpo híbrido, em um lugar ermo, sem referências, “talvez um lugar abandonado por Deus”, diz o diretor Rino Carvalho. Ele explica que na peça original a ladra era um personagem masculino, e o corpo, figura extremamente simbólica, representava vários personagens, como um cego, uma menina e um faxineiro. Nessa adaptação, o corpo é um único e enigmático personagem. Já o político em cena não representa o sentido estreito da palavra, mas o filosófico e o social da política. Ele é esperançoso, sincero e acredita no ser humano. Por sua vez, a ladra, oriunda da alta sociedade, tem uma visão oposta, soberba e arrogante e afirma que não se envolve com política.
Razão e emoção - “Luz Negra” é um espetáculo de visual e sensibilidade incomuns. Exige muito dos intérpretes; o cenário, a luz, a trilha sonora e a maquiagem são interferências estratégicas para compor o ambiente de um realismo fantástico. As duas cabeças gritam a céu aberto a palavra “amor”. Mas elas não gritam para os políticos que legitimaram o seu degolamento, e sim para o fundo do coração do homem comum. “Luz Negra” poderia ser apenas o desejo de liberdade ou de justiça, mas o autor foi além, e fala de um mundo individualista, globalizado e paradoxal, onde, nas fronteiras abertas para todos os lados, a emoção é considerada uma pedra no caminho. É o conflito entre a razão e a emoção.
Outra adaptação de Rino Carvalho foi trazer o texto político de Desleal para um viés místico-religioso, mais próximo da cultura brasileira. O diretor também optou pelo realismo fantástico no lugar do teatro do absurdo. “O texto é o mesmo, mas o realismo fantástico nos permite a liberdade para criar uma situação que não é a nossa realidade, desde o lugar, a sonoridade, as estranhezas, os personagens. Tanto que na peça, aquilo que os personagens estão vendo e vivendo não é o mesmo que o espectador percebe. Segundo Carvalho, “Luz Negra” mostra que a vida perdeu o valor, e que o ser humano é somente estatística na mídia, na televisão. “Não importa o que se fez ou faz, ninguém nos ouve. Por outro lado, curiosamente, não importa o lugar onde você esteja; bom ou ruim, você sempre vai reclamar, porque isso é intrínseco no homem.”
Valores humanos - O ator Caica Alves explica que o projeto de montar esta peça inédita em Salvador foi uma iniciativa sua, e que há 10 anos vem lutando para conseguir os direitos. Ele manteve contato por telefone com o próprio dramaturgo salvadorenho, um ano antes da sua morte. “Rino trouxe uma nova concepção para a peça, ao deslocar o texto de uma coisa muito imediata para algo mais dilatado e que permite novos significados. Ele pisou fundo no realismo fantástico”, diz Caica. Por sua vez, o ator Leonardo Mineiro destaca que a peça “é um espetáculo instigante, para tirar as pessoas de um lugar comum. É uma inquietação artística para provocar no público uma reflexão sobre os valores humanos.” Ele comenta que os três atores têm afinidades estéticas sobre o que pensam do teatro, “e isso nos une em nosso trabalho.”
Também a atriz Evelin Buchegger comemora esse novo papel: “A gente trabalhou muito tempo os clássicos, as pesquisas, os textos mais densos, as comédias”. Por isso estava com saudade de fazer algo assim, como Luz Negra, uma peça que considera diferente. Para ela, esse espetáculo “é uma reflexão muito boa sobre o estar atento para o aqui e agora, e uma mensagem para que a gente plante coisas boas, sempre.”
Rino Carvalho (diretor)- É bacharel em Artes Cênicas e Direção Teatral pela Universidade Federal da Bahia, e possui habilitação profissional para ator pela Fundação das Artes de São Caetano do Sul, SP. A soma de várias experiências profissionais, inclusive como assistente de direção, figurinista e maquiador, resulta em espetáculos de visual bastante elaborado e de sensibilidade incomum. Entre os seus trabalhos marcantes estão “Esperando Godot” (Prêmio Copene de Teatro – Revelação) e “Extraordinárias Maneiras de Amar”como diretor; a ópera “Il Trovatore”, como assistente de direção, e “Divinas Palavras” e “Murmúrios”, como ator.
Caica Alves (ator) - Atua no teatro baiano desde 1984 como ator, autor e diretor. Foi indicado duas vezes para o Prêmio Copene de Melhor Ator pelas peças “Esperando Godot”, com direção de Rino Carvalho, e “A Hora da Estrela”, com direção de Meran Vargens. Atuou nas peças “Murmúrios” e “Divinas Palavras”, sob a direção de Nehle Franke.
Evelin Buchegger (atriz) - Possui um reconhecido currículo de atuações no teatro, cinema, rádio e televisão. Faz parte da Companhia de Teatro da Bahia, dirigida por Fernando Guerreiro, onde atuou nas montagens “Carne Fraca”, “Noite na Taberna”, “Idiotas que Falam Outra Língua”, “Boca de Ouro” e “Um Bonde Chamado Desejo”, onde foi protagonista. Venceu três prêmios de Melhor Atriz pelas peças “Idiotas que Falam Outra Língua”, “Brasis” e “Murmúrios”. Atuou também em “Divinas Palavras”, “Otelo” e “Merlin ou a Terra Deserta”, entre outras. No cinema, trabalhou em “No Coração de Shirley”, “Cheque-Mate” e “Anjo do Sol”.
Leonardo Mineiro (ator) - Bacharel em Interpretação pela Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, tendo atuado em espetáculos desde 2000, quando participou do XV Curso Livre de Teatro da UFBA, sob a coordenação de Hebe Alves. Entre outras montagens, participou de “Murmúrios”, com direção de Nehle Franke e Elisa Mendes, e protagonizou “O Pagador de Promessas”, com direção de Caio Lincoln. Desenvolve pesquisa voltada para o trabalho do corpo do profissional de artes cênicas, a partir das técnicas e linguagens do Teatro Contemporâneo e conhecimentos de outras áreas, a exemplo da Psicoterapia Corporal e técnicas de integração somática do Hatha Yoga.
Alvaro Menen Desleal (contista e dramaturgo - 1931- 2000)- Nasceu em 1931, na cidade de Santa Ana, em El Salvador. Fez parte da chamada “Geração Comprometida”, em um país cuja história no século XX foi marcada por governos militares repressivos, lutas de guerrilhas e crises econômicas. A sorte de Álvaro Desleal mudava de governo a governo. Foi exilado político e foi também adido cultural de El Salvador no México e diretor do Teatro Nacional. Ingressou na Escola Militar General Gerardo Barrios, da qual foi expulso, devido à publicação de um poema considerado “subversivo”. Ingressou no jornal El Diário de Hoy, em 1953, quando foi detido e fichado no quartel da Polícia Nacional, acusado de conspirar contra o regime do tenente-coronel Oscar Osório.
Em 1957 retomou a direção das páginas literárias do jornal, e em 1961 foi estudar Sociologia na Universidade de El Salvador, colaborando com a revista universitária Vida, ganhando vários prêmios por ensaios como É Lícito Matar o Tirano?. Em 1962 foi nomeado catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de El Salvador. Ganhou inúmeros prêmios nacionais com sua obra literária, que inclui ensaios, novelas, poemas e peças para o teatro. A premiada montagem “Luz Negra” tem sido apresentada em dezenas de países e em vários idiomas, desde a sua estreia em 1964. Desleal morreu em San Salvador, a capital do país, em 2000.
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“Luz Negra” – Ficha Técnica
Texto: Alvaro Menen Desleal
Direção: Rino Carvalho
Elenco: Caica Alves, Evelin Buchegger e Leonardo Mineiro
Maquiagem: Marie Thauront
Cenógrafo: Euro Pires
Iluminação: Irma Vidal
Produção Executiva: Gabriela Rocha
Assistente de Produção: Marcelle Pamponet
Supervisão de Produção: Selma Santos
Trilha Sonora: Sil Partucci e Alan Carvalho
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Serviço:
O quê: “Luz Negra”, de Alvaro Menen Desleal. Direção: Rino Carvalho.
Elenco: Caica Alves, Evelin Buchegger e Leonardo Mineiro
Onde: Teatro do Movimento (Escola de Dança da UFBA) Av. Adhemar de Barros, Campus
de Ondina).
Quando: de 28 a 30 de outubro, sempre às quintas, sextas e sábados, às 20 horas.
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia)