10/12/2010
Em 2010, a cadeia produtiva da cultura do estado foi beneficiada com uma série de ações estruturantes.
Desde 2007, a Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (SecultBA) tem buscado executar ações estruturantes, que contribuam para o estabelecimento de um sistema cultural ativo, produtivo, de amplas oportunidades. O desafio de criar e implementar iniciativas que reverberem em resultados contínuos, capazes de estimular a autonomia e a independência das mais diversas expressões artístico-culturais da Bahia, foi a base do trabalho feito em 2010. Neste ano, a SecultBA consolidou projetos prioritários, de forma a viabilizar a formação, profissionalização, campos de atuação e empregabilidade para artistas e técnicos, além de acessibilidade para os públicos de toda a Bahia.
Um grande marco de 2010 foi a efetivação do Programa de Fomento às Filarmônicas do Estado da Bahia, promovido através da Fundação Cultural do Estado da Bahia (FUNCEB), unidade da Secretaria de Cultura do Estado, e com apoio do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE). O Programa é baseado em mapeamento realizado em 2009, que permitiu o conhecimento das características e demandas destes grupos, contabilizando 183 filarmônicas localizadas em todos os 26 Territórios de Identidade do estado e sediadas em 170 municípios, responsáveis pela mobilização de cerca de 4,5 mil músicos e 8 mil alunos com investimentos estimados de R$3,4 milhões. Neste ano, 89 bandas foram beneficiadas com R$ 2,8 milhões para aquisição e reforma de instrumentos; aquisição de acessórios para instrumentos; aquisição de fardamento; e aquisição de equipamentos de informática – tópico incluído pela constatação de que menos de 10% das filarmônicas estavam inseridas no contexto digital (uma limitação para as atuais formas de produção, difusão e consumo de música). Entre as beneficiadas, duas são de Salvador e as outras do interior do estado: uma intervenção sociocultural em larga escala, de efetiva interiorização do fomento público, contribuindo com a política de descentralização de recurso e dinamizando a cultura em toda a Bahia.
O maestro baiano Fred Dantas, um dos mais importantes nomes das filarmônicas brasileiras, resume: “As filarmônicas têm uma importância especial porque, há aproximadamente 150 anos, oferecem uma alternativa, uma ocupação, um encaminhamento à juventude de forma gratuita. Os laços comunitários que elas mantêm com as cidades, a ligação com as pessoas, com dados e fatos importantes da localidade também reiteram seu valor”. Fred Dantas fundou a Oficina de Frevos e Dobrados, a Orquestra Fred Dantas e, em parceria com o UNICEF, responde pelo projeto Filarmônica das Crianças, que desenvolve seu trabalho no Centro Histórico de Salvador. Ele é também responsável pela criação da Escola e Filarmônica Ambiental, em Camaçari, e pela Lira de Maracangalha. “As filarmônicas ainda estimulam a produção da cultura local, da música: um acervo que deve ser mais conhecido e divulgado. As poucas filarmônicas que são conhecidas internacionalmente são consideradas obras-primas. Quantas outras não precisam mostrar sua música?”, complementa Fred.
Também no segmento da música, o projeto Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia (Neojibá), implantado em 2007 e publicizado em 2009, segue com as orquestras Juvenil 2 de Julho, Castro Alves, Pedagógica Experimental, além de grupo integrado pelos 100 melhores músicos do Neojibá: Youth Orchestra of Bahia (YOBA), a Orquestra Juvenil da Bahia. O Neojibá se destaca como uma iniciativa bem-sucedida de formação artística e integração social, oportunizando a jovens uma carreira no mercado cultural e funcionando também como um importante difusor da música clássica e erudita para o público baiano. Entre as memoráveis realizações do Neojibá em 2010, estão a participação da Orquestra Juvenil 2 de Julho no V Festival de Música de Santa Catarina (FEMUSC), as apresentações da Youth Orchestra of Bahia na Europa – a primeira orquestra juvenil brasileira a se apresentar naquele continente – e a primeira turnê da YOBA pelo Sudeste do país.
Já a Orquestra Sinfônica da Bahia (OSBA), na temporada 2010, realizou 44 eventos, tendo como objetivo não só a difusão e a formação de plateia para a música de concerto, mas também a capacitação de novas gerações de músicos e o intercâmbio acadêmico e cultural. Neste período, a OSBA estreou três novos projetos: a série “Grandes Solistas”, que contou com a presença do pianista francês Dominique Merlet; a “Oficina de Treinamento Profissional”, que consiste em aproveitar a presença em Salvador de solistas internacionais para atividades didáticas; e o “Concerto Acadêmico”, que consiste na participação de músicos do Neojibá em suas apresentações.
Outro importante projeto consagrado este ano foi o Bahia Music Export, programa de promoção internacional que objetiva divulgar e exportar o patrimônio e a produção contemporânea de artistas e grupos musicais da Bahia. A iniciativa organiza estrategicamente ações que já vêm sendo feitas desde 2007 pelo Governo do Estado, e que oportunizaram, em 2010, a realização em Salvador e Itacaré do In a Cabin With (intercâmbio que promove a realização de gravações em diversos locais do mundo), com a participação de músicos do grupo Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz, e de gravações de programas da BBC Rádio 3, de Londres, em Salvador e no Recôncavo da Bahia.
Em outubro, o Bahia Music Export levou artistas baianos para a Expo Xangai 2010, maior feira das nações da história, e para o WOMEX – World Music Expo 2010 (Dinamarca), feira internacional de Worldmusic mais importante do planeta. “A potência multicultural de Salvador foi representada por suas manifestações artísticas desenvolvidas no espaço público, pelo fazer artístico e pela criatividade de sua gente, tanto a partir da herança africana quanto de sua criação contemporânea, que permeiam as relações sociais e produtivas e delineiam a vida cotidiana da maior cidade negra fora da África”, conta Monique Badaró, assessora chefe de Relações Internacionais da Secretaria de Cultura que acompanhou a comitiva.
Preservação da memória e vocação para o audiovisual
No segmento audiovisual, merece destaque os 100 Anos do Cinema Baiano. Como forma de celebrar a memória do centenário, a FUNCEB, em parceria com a Secretaria de Audiovisual do Ministério da Cultura, lançou um box de DVDs com 30 obras representativas, em diversos formatos (longas, médias e curtas-metragens), num total aproximado de 20 horas de duração. Entre os filmes, destaque para “Diamante Bruto”, de Orlando Senna; “Samba Riachão”, de Jorge Alfredo; “A Grande Feira”, de Roberto Pires; e “Eu me Lembro”, de Edgard Navarro.
Também valorizando a memória do audiovisual da Bahia, foi lançado o box de DVDs Memória em 5 Minutos, com 84 vídeos premiados em todas as 13 edições do Festival Nacional de Vídeo – Imagem em 5 Minutos, um dos mais importantes eventos audiovisuais do Brasil, segundo festival audiovisual mais antigo da Bahia, único evento de difusão audiovisual realizado e produzido pelo Governo do Estado. “Com o projeto Memória em 5 Minutos, conseguimos constituir um precioso acervo, que está pronto para circulação e exibição. Temos em mãos parcela significativa da história da produção em vídeo da Bahia. Essa é, portanto, uma ação de memória e difusão, que vai promover o 5 Minutos por todos os Territórios de Identidade da Bahia e fora do estado, e dar visibilidade aos artistas e criadores das obras premiadas no festival”, afirma Gisele Nussbaumer, diretora da FUNCEB.
Desde 2007, a SecultBA vem apoiando a realização de mostras e festivais na Bahia. Somente no período 2009/2010, a Secretaria concedeu apoio à estruturação de mais de dez novos eventos de difusão audiovisual no estado. “Isso é um feito inédito e histórico! É uma nova e bela realidade que vive hoje a Bahia. Temos um papel estratégico a cumprir no campo da difusão audiovisual”, garante Sofia Federico, diretora de Audiovisual da FUNCEB/SecultBA.
A 15ª edição do Los Angeles Brazilian Film Festival apresentou uma mostra de 60 filmes brasileiros representantes da retomada do cinema nacional. O Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (IRDEB) adquiriu a cessão de uso dessas obras, assim como investiu na aquisição e cessão de direitos de exibição de “No Ilê das Máscaras”, “Bolívia a Guerra da Água”, “Aleixo Belov”, “Maré de Lançamento” e “Gerônimo”. Essas iniciativas visam elevar a qualidade da programação da TV Educativa da Bahia e estimular o mercado de conteúdos de audiovisual.
A arte no palco, nas ruas e galerias
Na área de dança, a edição 2009-2010 do projeto Quarta que Dança, que comemorou 12 anos, mais uma vez contribuiu para a difusão da dança em suas diversas vertentes e para o estímulo à pesquisa e à produção coreográfica. De março a agosto, a Sala do Coro do Teatro Castro Alves e as ruas e praças do Centro Histórico de Salvador receberam 20 apresentações, oriundas da capital e do interior e premiadas com um total de R$ 87 mil, através de edital. A programação também incluiu diversas atividades de acesso ou formação como oficinas, bate-papos, mostra de vídeos, ensaios abertos e palestras. “Percebo que o Quarta que Dança atua como uma vitrine da dança contemporânea para dentro da cidade de Salvador, sendo o único projeto com esta proposta para o segmento. O maior ganho é mostrar a produção dos artistas, tornando-se uma rede que oferece oficinas, palestras e atividades de formação”, acredita Maria Cecília Lopez, produtora executiva e bailarina do grupo Tran Chan.
Descentralização e acessibilidade também foram tônicas das atividades do Balé Teatro Castro Alves (BTCA) neste período. “Em 2010, o BTCA protagonizou uma trilogia que não apenas demonstra o seu talento e capacidade renovadora, mas que também desafia os seus integrantes enquanto criadores, profissionais comprometidos com o fazer artístico, com sua história, com o público. Os espetáculos que resultaram desse processo foram assinados por renomados nomes da dança contemporânea, que vieram à Bahia especialmente para contribuir com um desejo de novas conquistas”, resume Gisele Nussbaumer, diretora da FUNCEB/SecultBA.
Fazem parte desta trilogia o espetáculo “1POR1PRAUM”, coreografado pela paulistana Renata Melo, apresentado em locais inusitados – praças e espaços públicos da capital e do interior viraram palco do BTCA; os bailarinos dançam em cabines individuais, diante de um único espectador por vez: uma experiência exclusiva tanto para quem atua quanto para quem assiste. Depois, o coreógrafo goiano Henrique Rodovalho propôs aos bailarinos que resgatassem suas histórias e experiências em “A Quem Possa Interessar”; além dos momentos reservados a ensaios, debates, workshops e aulas públicas, esta proposta inaugurou o Observatório de Criação, um espaço que possibilitou a dançarinos e coreógrafos independentes e de outros grupos baianos o acompanhamento do desenvolvimento da montagem. Fechando o ano, o BTCA apresentou “À Flor da Pele”, coreografado por Ismael Ivo, bailarino, coreógrafo e pesquisador, paulistano residente em Berlim, que, além de diretor da academia de dança da Bienal de Veneza, é consultor de diversas companhias e festivais de prestígio internacional.
No segmento do teatro, o novo formato do Núcleo de Teatro do TCA, mais aberto e com foco na formação, requalificação profissional e excelência artística, consolidou-se através do Programa TCA.Núcleo, criado em 2007. O edital TCA.Núcleo, lançado em 2009 e executado em 2010, selecionou dois espetáculos, em duas categorias: infanto-juvenil e adulto, cada um recebendo o aporte financeiro de R$ 200 mil para montagem e realização das oficinas preparatórias: “Aventuras do Maluco Beleza”, com direção de Edvard Passos, e “Ocasiões”, com direção de Jacyan Castilho.
A FUNCEB também produziu e editou a cartilha “Bahia de Todos os Circos”, com o objetivo de aproximar as trupes circenses dos prefeitos, coordenadores e dirigentes de cultura do estado, visando o estímulo e a aceitação do circo nos municípios da Bahia.
Resultado de edital da FUNCEB, os Salões Regionais de Artes Visuais da Bahia 2010 tiveram exposições montadas em Feira de Santana, Jequié e Vitória da Conquista, expondo um total de 77 obras selecionadas dentre 530 propostas inscritas. Surgidos em 1992, os Salões são uma ação de difusão e incentivo à produção em artes visuais no Estado e contemplam trabalhos de livre temática, em diversas modalidades. “Os Salões contribuem, anualmente, para a revelação de novos talentos, o reconhecimento de artistas experientes, o intercâmbio na área e a pesquisa de novas estéticas. A montagem das exposições em cidades do interior ainda possibilita a descentralização dos espaços de visibilidade das artes, ampliando o acesso e as opções para público, artistas e produtores culturais”, define Gisele Nussbaumer, diretora da FUNCEB.
Para a reflexão e promoção das culturas populares e identitárias, três momentos foram importantes. Em maio, a Aldeia da Serra do Padeiro, em Buerarema, sul do estado, sediou encontro que discutiu políticas públicas para as mulheres indígenas, com a participação de cerca de 200 mulheres, sendo duas representantes de cada uma das 76 comunidades indígenas da Bahia. No segundo semestre, o projeto Irê Ayó, voltado para a educação étnico-racial, passou a formar educadores envolvidos com comunidades quilombolas. Em outubro, a SecultBA realizou o I Encontro Estadual de Culturas Populares e Identitárias, em parceria com o Ministério da Cultura – MinC e Fábrica Cultural.
“Para esse Governo, Cultura é vista como desenvolvimento e direito básico do cidadão, como prevêem as constituições federal e estadual. Por ser uma produçao de cada um e de todos, por ser um patrimonio coletivo, por ser a construção de valores, reconhecemos a diversidade cultural que alimenta a feição do humano como elemento de configuração de uma sociedade que se deseja plural e participativa”, afirma o secretário Márcio Meirelles.